Em cenários de crise extrema, especialmente quando há intervenção externa direta, o papel do vice-chefe do Executivo deixa de ser meramente acessório e passa a ocupar uma posição estratégica, ambígua e de alto risco.
Após os ataques militares dos Estados Unidos à Venezuela na madrugada de 3 de janeiro de 2026 e a captura do presidente Nicolás Maduro, a vice-presidente Delcy Rodríguez fez um pronunciamento em rede nacional, afirmando que o país não voltará a ser colônia e que resistirá à investida norte-americana. Ela exigiu a libertação imediata de Maduro e de sua esposa Cilia Flores, reforçando a narrativa de continuidade do governo venezuelano diante de uma situação de extrema pressão externa.
Diante desse contexto, surge a pergunta central: como deve agir uma vice para não legitimar a intervenção, preservar a soberania residual do Estado e evitar o colapso institucional completo?
A experiência histórica recente oferece parâmetros importantes.
O vice como “ponte” ou como “selo de legitimidade”
Em crises dessa natureza, potências intervencionistas tendem a preservar figuras institucionais locais não por respeito à ordem constitucional, mas por cálculo político. O vice torna-se uma ponte provisória: serve para manter a aparência de continuidade, dividir responsabilidades e reduzir o custo político da intervenção.
O risco é evidente: o vice pode ser transformado em selo de legitimidade de um processo imposto. Por isso, o primeiro cuidado de Delcy Rodríguez seria não converter a sobrevivência institucional em consentimento político, mantendo uma margem de manobra legal e simbólica.
Comparações históricas: lições duras para quem fica
Movimentos irreversíveis para Delcy Rodríguez
Diante dessas experiências, alguns gestos seriam especialmente perigosos e praticamente sem retorno:
- Reconhecer formalmente a autoridade de forças estrangeiras sobre o território ou as decisões do Estado;
- Assinar acordos envolvendo petróleo, ativos estratégicos ou segurança nacional sob coerção;
- Convocar eleições ou reformas institucionais sem garantias mínimas de soberania e mediação internacional legítima;
- Endossar a narrativa de “libertação” ou “intervenção humanitária” como justificativa política.
Esses atos transformariam a vice não em gestora de crise, mas em instrumento de legitimação da ruptura, com consequências jurídicas e históricas duradouras.
O caminho racional: tempo, direito e internacionalização
O espaço de manobra possível — ainda que estreito — exigiria:
- Ganhar tempo, evitando decisões estruturais precipitadas;
- Registrar formalmente a coerção, preservando memória jurídica;
- Internacionalizar a crise, acionando ONU, países mediadores e fóruns regionais;
- Manter neutralidade funcional das Forças Armadas, evitando confrontos que não possa controlar;
- Preservar o Estado laico e institucional, afastando discursos messiânicos ou épicos.
Não se trata de heroísmo nem de rendição, mas de sobrevivência institucional sem capitulação simbólica.
O que esse cenário ensina ao Brasil
A principal lição para o Brasil não está na Venezuela em si, mas na ilusão de proteção política. Estados não se blindam por alinhamentos religiosos, retóricos ou simbólicos. Tampouco se protegem ao confundir fé, governo e projeto de poder.
A história mostra que:
- Intervenções não respeitam símbolos, apenas interesses;
- Estados fragilizados institucionalmente tornam-se mais vulneráveis;
- A erosão do Estado laico e do pluralismo não aproxima soberania — aproxima tutela.
Para o Brasil, a lição é inequívoca: autonomia internacional se constrói com instituições fortes, diplomacia ativa, respeito ao direito internacional e distância prudente entre fé e poder. Onde governos buscam proteção em alianças identitárias ou messiânicas, encontram apenas dependência futura.
Conclusão
Se a vice-presidente venezuelana se tornaria ponte ou selo de legitimação dependerá menos de intenções e mais de gestos concretos. A história é implacável com quem governa sob coerção acreditando que sobreviverá politicamente ao ceder o essencial.
E para países como o Brasil, observar esse cenário não é exercício de solidariedade abstrata, mas de autopreservação estratégica, aprendendo a proteger soberania e instituições antes que intervenções externas coloquem em risco a continuidade do Estado.

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