A história recente das intervenções internacionais revela um padrão recorrente: crises humanitárias reais são frequentemente utilizadas como porta de entrada discursiva para ações militares que, mais cedo ou mais tarde, revelam interesses estratégicos alheios à proteção das populações que se diz defender. O caso da Somália, em 1993, é um marco fundamental para compreender esse mecanismo — e ajuda a iluminar, três décadas depois, as justificativas mobilizadas para a escalada intervencionista dos Estados Unidos contra a Venezuela sob Donald Trump.
Após o colapso do Estado somali no início dos anos 1990, o país mergulhou em guerra civil, fome generalizada e ausência completa de autoridade central. Diante da tragédia humanitária, o Conselho de Segurança da ONU autorizou uma intervenção internacional liderada pelos EUA, com mandato formal para garantir a entrega de ajuda e proteger civis. Em termos jurídicos, tratava-se de uma operação legítima, multilateral e amparada pelo direito internacional.
O fracasso, no entanto, foi profundo. A missão rapidamente ultrapassou o socorro humanitário e passou a operar como força de imposição política e militar, sem compreender as dinâmicas internas do país e sem um projeto viável de reconstrução estatal. A intervenção acabou agravando o conflito, gerando resistência local, vítimas civis e, após o episódio de Mogadíscio em outubro de 1993, levou à retirada apressada das tropas. O resultado foi paradoxal: uma intervenção “legal” que fracassou moral e politicamente, deixando para trás um país ainda mais fragmentado.
A Somália expôs um problema estrutural que permanece atual: intervenções armadas não fracassam apenas quando são ilegais, mas também quando carecem de legitimidade política, base social interna e compromisso real com a reconstrução institucional. Ainda assim, em vez de provocar um abandono da lógica intervencionista, o episódio ajudou a reformular seu discurso. A partir dali, consolidou-se a retórica segundo a qual a soberania poderia ser relativizada sempre que um Estado fosse rotulado como “falido”, “ditatorial” ou “ameaça humanitária”.
Essa lógica reaparece, com roupagens atualizadas, no caso venezuelano. O colapso econômico, a repressão política e a crise social real vivida pelo país passaram a ser apresentados como justificativa para pressões externas crescentes, sanções severas e, mais recentemente, ações militares diretas. O discurso se ancora na ideia de libertação, proteção de civis e restauração da democracia — elementos que, isoladamente, possuem apelo moral evidente.
O problema surge quando se observa o descompasso entre o discurso e a prática. Assim como na Somália, a intervenção não se apresenta acompanhada de um plano crível de reconstrução institucional conduzido pelos próprios venezuelanos, nem de um compromisso inequívoco com o direito internacional. Ao contrário, ocorre à margem do multilateralismo efetivo, com desprezo pela ONU e com decisões concentradas em interesses estratégicos de Washington.
É nesse ponto que os interesses reais começam a emergir. A Venezuela detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, além de ativos estratégicos relevantes no contexto da transição energética. Documentos oficiais de segurança dos EUA, divulgados nos últimos anos, voltaram a tratar a América Latina como zona prioritária de influência, resgatando, ainda que implicitamente, a lógica da Doutrina Monroe. O enfraquecimento de governos considerados hostis e a reconfiguração do controle sobre recursos naturais passam a ocupar o centro da estratégia.
Donald Trump, em particular, nunca ocultou sua visão instrumental das relações internacionais. Para seu governo, direitos humanos e democracia funcionam menos como fins e mais como retórica funcional — acionada quando conveniente e descartada quando contraria interesses econômicos ou geopolíticos. A seletividade é reveladora: regimes autoritários aliados raramente sofrem o mesmo grau de pressão ou sanções.
A comparação com a Somália, portanto, não serve para absolver regimes autoritários nem para negar o sofrimento da população venezuelana. Serve para alertar sobre um risco histórico bem documentado: quando a proteção de vidas é subordinada a projetos de poder, a intervenção tende a fracassar tanto moral quanto politicamente. A legalidade se esvazia, a soberania é instrumentalizada e as populações locais acabam presas entre governos repressivos e forças externas que não respondem a elas.
A lição permanece incômoda, mas necessária. A alternativa à falência do multilateralismo não pode ser a normalização da lei do mais forte. Caso contrário, o que se apresenta como libertação tende a reproduzir dependência, instabilidade e tutela — como a história, da Somália à América Latina, insiste em demonstrar.

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