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sábado, 27 de dezembro de 2025

Réveillon, pluralidade religiosa e o desafio da laicidade na política cultural



A decisão da Prefeitura do Rio de Janeiro de manter, pelo segundo ano consecutivo, um palco dedicado à música gospel no réveillon de Copacabana trouxe à tona um debate que vai além da programação artística de um grande evento. A nota publicada na coluna de Ancelmo Gois, em O Globo, ao registrar a crítica do professor e babalawô Ivanir dos Santos, revela uma questão mais profunda: como o poder público lida com a diversidade religiosa em eventos oficiais num Estado que se afirma laico.

É importante esclarecer desde o início que o questionamento apresentado não se dirige à existência do palco gospel em si. A música gospel é parte do cenário cultural brasileiro contemporâneo, dialoga com milhões de pessoas e tem legitimidade para ocupar espaços públicos. O ponto central do debate é outro: a assimetria de visibilidade entre diferentes expressões religiosas que, historicamente, ajudaram a construir o significado simbólico do réveillon carioca.

Muito antes de Copacabana se tornar um espetáculo global de fogos e shows, a virada do ano no Rio foi marcada por práticas associadas às religiões de matriz africana — as roupas brancas, as oferendas a Iemanjá, os rituais à beira-mar. Esses elementos não são adereços folclóricos, mas parte constitutiva da memória cultural da cidade. Quando essas tradições passam a ocupar apenas um espaço informal, enquanto outras ganham estrutura, palco e chancela institucional, surge a sensação de desequilíbrio e apagamento simbólico.

Esse debate toca diretamente o princípio do Estado laico. Laicidade não significa hostilidade à religião, nem exclusão das manifestações religiosas do espaço público. Significa, antes, que o poder público não hierarquiza crenças, não escolhe preferências e não distribui visibilidade de forma desigual. Em políticas culturais, isso se traduz na responsabilidade de promover o pluralismo e reconhecer a diversidade que compõe a identidade coletiva.

Há também um dado concreto que precisa ser considerado com realismo: o réveillon é um evento de enorme complexidade logística. Contratos já foram firmados, estruturas estão montadas e milhões de turistas já se encontram na cidade. Nesse contexto, soluções baseadas em confronto ou em supressão de manifestações tendem a ser pouco eficazes e socialmente desgastantes.

Justamente por isso, o caminho mais responsável neste momento é o da negociação e do ajuste institucional, não o do embate. Uma alternativa razoável e equilibrada seria a Prefeitura, em conjunto com a empresa responsável pela produção do evento, garantir também estrutura, visibilidade e reconhecimento adequados para grupos ligados às religiões de matriz africana, valorizando sua centralidade simbólica na virada do ano — sem retirar espaço ou legitimidade de nenhuma outra manifestação já prevista.

Além disso, é fundamental que o debate não se encerre na edição atual da festa. Um compromisso público de revisão dos critérios dos próximos editais e contratos, com diretrizes claras de pluralidade cultural e respeito à laicidade, seria um passo importante para evitar que esse tipo de tensão se repita. Políticas culturais maduras não se constroem apenas com grandes eventos, mas com processos transparentes, escuta ativa e reconhecimento das múltiplas vozes que formam a cidade.

O Rio de Janeiro sempre foi símbolo de convivência, mistura e diversidade. Transformar esse conflito em oportunidade de reflexão e aprimoramento institucional é uma forma de honrar essa tradição. Não se trata de escolher entre religiões, mas de assegurar que todas possam coexistir com dignidade, visibilidade e respeito num espaço público que pertence a todos.

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