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quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

O Natal que aprendemos a sentir


Charles Dickens

(Dickens, Andersen, o Brasil imperial e os sentidos do Natal ontem e hoje)


Quando pensamos no Natal como tempo de empatia, cuidado com os pobres, valorização da infância e reunião familiar, tendemos a imaginar que esses significados sempre existiram. Mas não: o Natal que hoje reconhecemos é, em grande parte, uma construção cultural do século XIX, moldada pela literatura, pelas transformações sociais da Europa industrial e, mais tarde, reinterpretada em países como o Brasil.

Dois contos, escritos em um intervalo de apenas dois anos — Um Conto de Natal (1843), de Charles Dickens, e A Pequena Vendedora de Fósforos (1845), de Hans Christian Andersen — ajudam a compreender essa virada histórica. Ambos nascem da mesma época, denunciam o mesmo mundo desigual, mas oferecem respostas morais muito diferentes. Para entender seu impacto, é preciso olhar primeiro para o contexto em que surgiram.


A Inglaterra dos anos 1840: progresso e miséria

A Inglaterra da década de 1840 era o coração da Revolução Industrial. As cidades cresciam rapidamente, fábricas funcionavam por longas jornadas, e o trabalho infantil era comum. A riqueza aumentava, mas se concentrava. A pobreza urbana tornava-se visível, incômoda, impossível de ignorar.

O Natal, até então, não ocupava o lugar afetivo central que hoje possui. Em muitos ambientes, era apenas uma data religiosa ou um feriado irregular. Foi nesse cenário que a literatura passou a atuar como consciência moral da sociedade, questionando o custo humano do progresso.


Charles Dickens e o Natal da redenção (1843)

Charles Dickens conhecia a pobreza não por observação distante, mas por experiência pessoal. Na infância, trabalhou em uma fábrica após o pai ser preso por dívidas. Essa vivência marcou toda a sua obra.

Em Um Conto de Natal, Dickens apresenta Ebenezer Scrooge, um homem avarento que despreza o Natal e ignora a miséria ao seu redor. Visitado por fantasmas do passado, do presente e do futuro, Scrooge não é punido: é confrontado emocionalmente. O medo que sente não é da morte, mas de uma vida sem vínculos, sem afeto, sem legado.

O conto propõe algo revolucionário para a época:
o Natal não como luxo ou ostentação, mas como responsabilidade social.
A mensagem é clara: a sociedade pode mudar se os indivíduos mudarem.

O impacto foi imediato. Leitores relataram doações, mudanças de comportamento, maior atenção aos pobres. Dickens ajudou a fixar o Natal como tempo de empatia ativa — um marco cultural que atravessaria gerações.


Hans Christian Andersen e o Natal da omissão (1845)


"A Pequena Vendedora de Fósforos"

Dois anos depois, na Dinamarca, Hans Christian Andersen publica A Pequena Vendedora de Fósforos. O cenário é semelhante: inverno rigoroso, cidade iluminada, desigualdade gritante. Mas a resposta moral é oposta.

A menina que vende fósforos não encontra redenção no mundo. Cada fósforo aceso revela uma ilusão de calor, alimento e cuidado — tudo aquilo que a sociedade lhe nega. O Natal, aqui, não salva; expõe. A cidade celebra, mas não vê.

Se Dickens pergunta “e se mudarmos?”, Andersen responde “e se não mudarmos?”.
Verifica-se que o conto não oferece conforto, mas denúncia. É um retrato do fracasso coletivo diante da infância abandonada.


Dois contos, uma mesma ferida

Dickens e Andersen escrevem sobre o mesmo século, a mesma urbanização desigual, a mesma indiferença social. Um escolhe a esperança transformadora; o outro, a acusação silenciosa. Ambos, porém, colocam o Natal como espelho moral da sociedade.

Essas obras ajudaram a consolidar a ideia de que o Natal diz menos sobre religião formal e mais sobre como tratamos os mais vulneráveis.


E o Brasil da década de 1840?

Enquanto esses debates atravessavam a Europa, o Brasil vivia sob o Império de Dom Pedro II, em uma sociedade agrária, escravocrata e profundamente hierarquizada.

O Natal brasileiro dos anos 1840 era:


  • essencialmente religioso, centrado em missas e presépios;
  • pouco voltado à infância ou à vida familiar;
  • marcado por profundas desigualdades normalizadas pela escravidão.


Para a elite, havia ceias e rituais domésticos. Para os pobres e escravizados, o Natal raramente significava descanso, muito menos solidariedade. A empatia social que Dickens defendia ainda não fazia parte do imaginário nacional.


Quando o Natal começa a mudar no Brasil

As transformações vieram lentamente, entre o final do século XIX e o início do XX, impulsionadas por:


  • urbanização;
  • imigração europeia;
  • expansão da imprensa;
  • circulação de obras literárias e valores culturais estrangeiros.


Abolição da escravidão (1888), República (1889) e crescimento das cidades alteraram o modo de celebrar. O Natal passou a incorporar:


  • a centralidade da família;
  • a valorização da infância;
  • ações de caridade;
  • símbolos modernos, como a árvore e a troca de presentes.


Sem que muitos percebessem, o Brasil também passou a celebrar um Natal filho de Dickens, ainda que adaptado à sua própria realidade.


1843, 1845 e o presente

Hoje, convivemos com os dois Natais:


  • o de Dickens, que acredita na transformação;
  • o de Andersen, que denuncia a indiferença.


Em um país ainda marcado por desigualdades, os dois contos continuam atuais. Eles nos lembram que o Natal não é apenas uma data, mas uma pergunta ética que se repete todos os anos:


vamos mudar — ou apenas acender fósforos enquanto passamos adiante?


Conclusão

Os Natais de 1843 e 1845 não pertencem apenas ao passado europeu. Eles ajudaram a moldar o modo como o mundo — e o Brasil — aprendeu a sentir o Natal. Entre redenção e denúncia, esperança e omissão, a literatura nos ensinou que celebrar o nascimento é também escolher que tipo de sociedade queremos sustentar.

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