![]() |
| Charles Dickens |
(Dickens, Andersen, o Brasil imperial e os sentidos do Natal ontem e hoje)
Quando pensamos no Natal como tempo de empatia, cuidado com os pobres, valorização da infância e reunião familiar, tendemos a imaginar que esses significados sempre existiram. Mas não: o Natal que hoje reconhecemos é, em grande parte, uma construção cultural do século XIX, moldada pela literatura, pelas transformações sociais da Europa industrial e, mais tarde, reinterpretada em países como o Brasil.
Dois contos, escritos em um intervalo de apenas dois anos — Um Conto de Natal (1843), de Charles Dickens, e A Pequena Vendedora de Fósforos (1845), de Hans Christian Andersen — ajudam a compreender essa virada histórica. Ambos nascem da mesma época, denunciam o mesmo mundo desigual, mas oferecem respostas morais muito diferentes. Para entender seu impacto, é preciso olhar primeiro para o contexto em que surgiram.
A Inglaterra dos anos 1840: progresso e miséria
A Inglaterra da década de 1840 era o coração da Revolução Industrial. As cidades cresciam rapidamente, fábricas funcionavam por longas jornadas, e o trabalho infantil era comum. A riqueza aumentava, mas se concentrava. A pobreza urbana tornava-se visível, incômoda, impossível de ignorar.
O Natal, até então, não ocupava o lugar afetivo central que hoje possui. Em muitos ambientes, era apenas uma data religiosa ou um feriado irregular. Foi nesse cenário que a literatura passou a atuar como consciência moral da sociedade, questionando o custo humano do progresso.
Charles Dickens e o Natal da redenção (1843)
Charles Dickens conhecia a pobreza não por observação distante, mas por experiência pessoal. Na infância, trabalhou em uma fábrica após o pai ser preso por dívidas. Essa vivência marcou toda a sua obra.
Em Um Conto de Natal, Dickens apresenta Ebenezer Scrooge, um homem avarento que despreza o Natal e ignora a miséria ao seu redor. Visitado por fantasmas do passado, do presente e do futuro, Scrooge não é punido: é confrontado emocionalmente. O medo que sente não é da morte, mas de uma vida sem vínculos, sem afeto, sem legado.
O impacto foi imediato. Leitores relataram doações, mudanças de comportamento, maior atenção aos pobres. Dickens ajudou a fixar o Natal como tempo de empatia ativa — um marco cultural que atravessaria gerações.
Hans Christian Andersen e o Natal da omissão (1845)
![]() |
| "A Pequena Vendedora de Fósforos" |
Dois anos depois, na Dinamarca, Hans Christian Andersen publica A Pequena Vendedora de Fósforos. O cenário é semelhante: inverno rigoroso, cidade iluminada, desigualdade gritante. Mas a resposta moral é oposta.
A menina que vende fósforos não encontra redenção no mundo. Cada fósforo aceso revela uma ilusão de calor, alimento e cuidado — tudo aquilo que a sociedade lhe nega. O Natal, aqui, não salva; expõe. A cidade celebra, mas não vê.
Dois contos, uma mesma ferida
Dickens e Andersen escrevem sobre o mesmo século, a mesma urbanização desigual, a mesma indiferença social. Um escolhe a esperança transformadora; o outro, a acusação silenciosa. Ambos, porém, colocam o Natal como espelho moral da sociedade.
Essas obras ajudaram a consolidar a ideia de que o Natal diz menos sobre religião formal e mais sobre como tratamos os mais vulneráveis.
E o Brasil da década de 1840?
Enquanto esses debates atravessavam a Europa, o Brasil vivia sob o Império de Dom Pedro II, em uma sociedade agrária, escravocrata e profundamente hierarquizada.
O Natal brasileiro dos anos 1840 era:
- essencialmente religioso, centrado em missas e presépios;
- pouco voltado à infância ou à vida familiar;
- marcado por profundas desigualdades normalizadas pela escravidão.
Para a elite, havia ceias e rituais domésticos. Para os pobres e escravizados, o Natal raramente significava descanso, muito menos solidariedade. A empatia social que Dickens defendia ainda não fazia parte do imaginário nacional.
Quando o Natal começa a mudar no Brasil
As transformações vieram lentamente, entre o final do século XIX e o início do XX, impulsionadas por:
- urbanização;
- imigração europeia;
- expansão da imprensa;
- circulação de obras literárias e valores culturais estrangeiros.
Abolição da escravidão (1888), República (1889) e crescimento das cidades alteraram o modo de celebrar. O Natal passou a incorporar:
- a centralidade da família;
- a valorização da infância;
- ações de caridade;
- símbolos modernos, como a árvore e a troca de presentes.
Sem que muitos percebessem, o Brasil também passou a celebrar um Natal filho de Dickens, ainda que adaptado à sua própria realidade.
1843, 1845 e o presente
Hoje, convivemos com os dois Natais:
- o de Dickens, que acredita na transformação;
- o de Andersen, que denuncia a indiferença.
Em um país ainda marcado por desigualdades, os dois contos continuam atuais. Eles nos lembram que o Natal não é apenas uma data, mas uma pergunta ética que se repete todos os anos:
vamos mudar — ou apenas acender fósforos enquanto passamos adiante?
Conclusão
Os Natais de 1843 e 1845 não pertencem apenas ao passado europeu. Eles ajudaram a moldar o modo como o mundo — e o Brasil — aprendeu a sentir o Natal. Entre redenção e denúncia, esperança e omissão, a literatura nos ensinou que celebrar o nascimento é também escolher que tipo de sociedade queremos sustentar.


Nenhum comentário:
Postar um comentário