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sexta-feira, 28 de novembro de 2025

A última Flor do Tempo

 

Palmeira-talipot florescendo no JBRJ


(Conto – Rio de Janeiro, novembro de 2025)


O sol de fim de tarde filtrava-se entre as árvores altas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, tingindo de dourado o chão úmido. O ar carregava o cheiro doce das bromélias e o rumor distante das maritacas. A poucos metros, um grupo de visitantes fotografava, em silêncio reverente, a palmeira-talipot em plena floração — um acontecimento raro, notícia em todos os jornais naquela semana.

Kenjiro Tanaka, 102 anos, caminhava devagar, apoiado no antebraço firme do bisneto. Cada passo era uma memória. O corpo hesitava, mas os olhos — pequenos, fundos — carregavam uma claridade surpreendente.

Ao seu lado, o adolescente Gabriel ajeitava a mochila e perguntava, curioso:

— Biso, é essa aí? A talipot que só floresce uma vez?

Kenjiro assentiu.

— Uma vez… e depois morre. Assim como certas histórias, que só acontecem uma vez — e duram para sempre.

A árvore erguia-se como um guarda-sol colossal, folhas imensas abertas como braços. No topo, despontava a enorme inflorescência: milhares de pequenas flores douradas, vibrando com a luz do fim de tarde.

Gabriel deu um assobio baixo.

— Parece coisa de filme.

Kenjiro sorriu com ternura.

— Na minha aldeia, em Kyushu, no Japão, dizíamos que quando a talipot florescia, era porque o tempo queria contar um segredo. Raramente alguém vivia para ver isso mais de uma vez.

Ele fez uma pausa, respirando fundo. Um leve tremor atravessou-lhe a mão.

— Eu tinha sua idade, talvez um pouco mais, quando a guerra começou. Lembro de caminhar com meu pai pelos campos de arroz queimados. O mundo parecia estar acabando… e mesmo assim, no templo antigo, no alto da colina, havia uma talipot crescendo. Muito jovem ainda. Os monges cuidavam dela como se fosse uma promessa.

Gabriel o olhou com respeito — era raro o bisavô falar daquele tempo.

— Foi nessa época que o senhor saiu do Japão, né?

— Sim. — Kenjiro ajeitou o chapéu de palha, gasto.

 — Fui primeiro para os Estados Unidos.

 Trabalhava carregando caixas em um depósito. O inglês vinha devagar, mas o corpo aguentava. Um dia, a empresa decidiu abrir uma filial no Brasil. Me mandaram para cá porque eu dizia “bom dia” com um sorriso. — Ele riu. — Foi o suficiente para acharem que eu me daria bem entre brasileiros.

Gabriel gargalhou.

— E se deu.

— Me dei. — Kenjiro suspirou. — Conheci sua bisavó, Maria Clara… e minha vida floresceu aqui. Como esta palmeira. Só uma vez. Mas grande o bastante para valer tudo.

Eles se aproximaram da árvore. Pessoas fotografavam, mas a dupla parou apenas para observar. O vento leve fazia a copa balançar, espalhando um perfume discreto, quase imperceptível.

— Sabe por que essa palmeira é especial? — perguntou Kenjiro.

— Por causa da floração única?

— Também. Mas, na Ásia, ela simboliza algo mais profundo. Pacientes são aqueles que esperam décadas para alcançar a beleza completa. A talipot nos ensina que a vida não precisa correr. Cada instante prepara o próximo. Cada dor prepara um entendimento. Cada amor prepara outro amor que virá depois.

Gabriel baixou os olhos.

— Às vezes fico ansioso, vovô… com escola, futuro, essas coisas. Parece que tem que dar tudo certo rápido.

Kenjiro pousou a mão trêmula no ombro do menino.

— Nada verdadeiro cresce rápido demais. Nem você. Nem as pessoas que ama. A talipot espera a vida inteira para florescer — e quando floresce, ela ilumina tudo ao redor. O que importa não é a velocidade… é a profundidade.

O silêncio entre os dois foi tranquilo, como uma semente encontrando terra fértil.

— Venha — murmurou o velho. — Vamos ver o pôr do sol. É outro espetáculo que só acontece uma vez por dia, mas nunca se repete igual.

Saíram devagar do Jardim Botânico, chamaram um UBER pelo aplicativo e seguiram para o Arpoador. O céu começava a virar laranja. Na orla, surfistas recolhiam pranchas, turistas se ajeitavam nas pedras, e músicos de rua afinavam guitarras.

Kenjiro respirou fundo.

— Quando eu tinha a sua idade, Gabriel… eu não sabia se viveria para ver muitos pores do sol. Hoje, cada um me parece um presente.

Sentaram-se na pedra grande, onde o horizonte se abre entre o Morro Dois Irmãos e o mar. O sol descia lento, pintando o Atlântico com faixas de ouro.

Gabriel encostou-se no bisavô.

— E o senhor acha que ainda vai ver outro pôr do sol?

O velho sorriu, sereno.

— Talvez. Mas não importa. O de hoje… — ele apontou para o horizonte ardente — …já vale por todos. Como a talipot, que floresce uma vez, mas faz valer uma vida inteira.

O sol sumiu aos poucos. O mar brilhou, depois escureceu. O vento trouxe cheiro de sal, vida e despedida.

E os dois ficaram ali, lado a lado — um começando, outro concluindo — assistindo ao espetáculo silencioso do tempo.


📷: Rafael Ribeiro, conforme extraído de https://www.gov.br/jbrj/pt-br/assuntos/noticias/floracao-rara-de-palmeira-no-jardim-botanico-do-rio-de-janeiro

🕰️ Petrópolis: patrimônio, memória e o futuro da cidade imperial

 


Petrópolis carrega séculos de história — palácios, fábricas antigas, ruas de pedra, encostas verdejantes, memórias da monarquia e da industrialização. Por isso, o tombamento de áreas históricas sempre foi mais do que “selar prédios antigos”: é proteger identidade, paisagem e memória coletiva.


Recentemente, o Iphan propôs uma rerratificação do tombamento do “Conjunto Urbano-Paisagístico de Petrópolis”. A intenção oficial, segundo o órgão, é atualizar os limites da proteção, reconhecendo conjuntos fabris, vilas operárias e encostas de Mata Atlântica — não apenas edifícios isolados. 


Mas há quem alerte: a proposta, se aprovada sem critérios claros e ampla participação social, pode resultar no destombamento de até 39% da área atualmente protegida — o que causaria perda de proteção para trechos significativos já tombados há décadas. 


❗ Por que isso importa:


Quando áreas sensíveis perdem proteção, corre-se risco de descaracterização urbana: prédios modernos fora de contexto, intervenções invasivas, destruição da paisagem que dá à Petrópolis seu caráter único.


A memória coletiva pode ser abalada. Não são só os prédios — são ruas, vazios urbanos, encostas, cenários naturais que contam a trajetória da cidade e de seus moradores ao longo de gerações.


O turismo cultural e histórico pode sofrer. Muitas pessoas visitam Petrópolis justamente pela atmosfera de cidade-imperial preservada. Se essa coerência histórica for rompida, o apelo turístico perde força — e isso afeta economia, comércio e serviços locais.


A decisão define se a cidade seguirá valorizando sua história ou abrirá mão de parte dela em nome de “desenvolvimento”.


Por outro lado, há quem defenda que a rerratificação — se feita com transparência, critério técnico e participação da comunidade — pode fortalecer a preservação: incorporando áreas que historicamente não estavam protegidas (complexos industriais antigos, encostas, vilas operárias) e garantindo que a cidade seja protegida de modo mais abrangente e coerente com sua identidade. 


📢 Por isso, é urgente: todos nós admiradores da bela cidade serrana devemos acompanhar de perto esse processo, cobrar transparência, consulta pública e respeito ao patrimônio. Petrópolis não é só um destino turístico: é um patrimônio comum, parte da memória viva de gerações.


Se perdermos essa chance de cuidá-la bem, corremos o risco de entregar à próxima geração uma cidade com menos história — e menos alma.


📷: Iphan

A Derrubada dos Vetos ao “PL da Devastação”: Quando o Congresso Escolhe Ignorar a Ciência



A sessão conjunta do Congresso Nacional realizada em 27 de novembro de 2025 ficará marcada como um dos maiores retrocessos ambientais do Brasil nas últimas décadas. Deputados e senadores derrubaram a maior parte dos vetos feitos pelo Presidente Lula à Lei Geral do Licenciamento Ambiental — vetos que haviam sido aplicados justamente para impedir dispositivos que fragilizavam a proteção ambiental, a fiscalização e a própria segurança de empreendimentos de impacto.

Com a decisão parlamentar, dispositivos considerados arriscados por ambientalistas, pesquisadores, órgãos técnicos e comunidades tradicionais voltam a valer. Trata-se de um movimento que revela um profundo desprezo pela ciência, pelo planejamento de longo prazo e pela responsabilidade socioambiental.


O que estava em jogo?

O licenciamento ambiental é o principal mecanismo técnico-científico usado para avaliar riscos de empreendimentos ao meio ambiente e às populações que dele dependem. Ele exige estudos, pareceres, análise de impactos, compensações e fiscalização — elementos essenciais para prevenir desastres e garantir segurança.

Os vetos de Lula barravam pontos que:


  • flexibilizavam o licenciamento para atividades potencialmente poluidoras;
  • permitiam autolicenciamento por meio da chamada LAC (Licença por Adesão e Compromisso);
  • diminuíam a participação dos órgãos técnicos;
  • reduziam a proteção de territórios de povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais;
  • transferiam responsabilidades a estados e municípios sem garantir capacidade técnica equivalente.


Com a derrubada dos vetos, todos esses pontos voltam a vigorar.


O desprezo pela ciência e pela técnica

A votação do Congresso evidencia uma postura clara: a política ambiental brasileira está sendo guiada por interesses imediatistas, não por evidências científicas nem pela preocupação com o futuro do país e do planeta.


1. Autolicenciamento substituindo avaliação técnica

Permitir que empreendedores se licenciem sozinhos — apenas declarando que cumprem requisitos — é abrir mão da ciência. Estudos de impacto ambiental, análises geológicas, hidrológicas, sociais e ecológicas deixam de ser exigidos.


2. Fragilização das instituições ambientais

A transferência de responsabilidades para governos locais ignora a estrutura desigual entre municípios e estados. Muitos não possuem equipes técnicas capazes de analisar sequer um estudo básico de impacto.


3. Ignorar alertas científicos sobre a crise climática

A derrubada dos vetos ocorre num momento em que o mundo inteiro reforça a urgência de políticas ambientais sérias. Escolher flexibilizar regras ambientais neste contexto é negar abertamente os alertas da comunidade científica.


4. Risco de desastres ambientais

Sem rigor técnico, aumenta o risco de contaminação de rios, desmatamentos ilegais, destruição de unidades de conservação, conflitos territoriais e impactos irreversíveis sobre biomas como Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica.


Consequências para o país

A votação causa preocupação nacional e internacional. Entre os efeitos esperados estão:

  • aumento do desmatamento e da degradação ambiental;
  • avanço sobre terras indígenas e quilombolas;
  • insegurança jurídica para empreendedores sérios;
  • pressões sobre biomas já ameaçados;
  • enfraquecimento da fiscalização;
  • perda de credibilidade do país em acordos ambientais.


Para especialistas, trata-se de um dos maiores retrocessos ambientais em mais de 30 anos.


Como votaram os deputados do Rio de Janeiro

Ainda não há divulgação nominal oficial completa da votação sobre a derrubada dos vetos. Entretanto, já é possível registrar como votou a bancada fluminense no momento anterior, quando o PL foi aprovado pela Câmara em julho de 2025 — votação que abriu caminho para a crise atual.

Segundo levantamento consolidado por veículos locais, os deputados do Rio votaram assim no texto-base do chamado “PL da Devastação”:


Votaram a FAVOR do PL (a favor da flexibilização ambiental)

Altineu Côrtes (PL)
Bebeto (PP)
Caio Vianna (PSD)
Carlos Jordy (PL)
Chris Tonietto (PL)
Dani Cunha (União)
Delegado Ramagem (PL)
Doutor Luizinho (PP)
General Pazuello (PL)
Gutemberg Reis (MDB)
Hélio Lopes (PL)
Hugo Leal (PSD)
Jorge Braz (Republicanos)
Júlio Lopes (PP)
Luciano Vieira (Republicanos)
Luiz Lima (Novo)
Marcos Soares (União)


Votaram CONTRA o PL (defesa do controle técnico e da ciência)

Bandeira de Mello (PSB)
Benedita da Silva (PT)
Chico Alencar (PSOL)
Enfermeira Rejane (PCdoB)
Glauber Braga (PSOL)
Jandira Feghali (PCdoB)
Laura Carneiro (PSD)
Lindbergh Farias (PT)
Marcelo Queiroz (PP)
Marcos Tavares (PDT)


Ausentes

Áureo Ribeiro (Solidariedade)
Dimas Gadelha (PT)
Juninho do Pneu (União)
Marcelo Crivella (Republicanos)


Por que registrar esses votos importa?

O futuro ambiental do Brasil depende de decisões técnicas e responsáveis. Saber como vota cada parlamentar é essencial para que a sociedade possa cobrar coerência, compromisso com a ciência e respeito ao meio ambiente.

A derrubada dos vetos não é apenas um ato legislativo: é um símbolo de como parte do Congresso ainda prefere ignorar evidências, sacrificar o futuro do país e abrir espaço para pressões econômicas que não levam em conta a vida, a natureza e as próximas gerações.

Que em outubro de 2026, o povo brasileiro lhes dê a resposta através do voto!

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Itaguaí: a nova reviravolta e a necessidade urgente de decisão definitiva


Haroldo Rodrigues de Jesus Neto


Nesta quinta-feira, 27 de novembro de 2025, o STF revogou a liminar que mantinha Dr. Rubão no cargo de prefeito de Itaguaí e determinou seu afastamento imediato. A cadeira número 1 da cidade retorna, então, ao presidente da Câmara Municipal, o vereador Haroldo Rodrigues de Jesus Neto, o Haroldinho, até que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decida definitivamente o mérito da eleição de 2024.

Essa decisão traz de volta ao centro do debate algo que sempre esteve claro: a urgência de um desfecho para encerrar a indefinição institucional e restaurar a legitimidade da escolha popular.


Por que a decisão do STF torna ainda mais imperioso um pleito suplementar?


  • Reconhecimento da controvérsia sobre a elegibilidade: o STF entendeu que, no caso concreto, não se aplica a exceção que permitiria a reeleição após mandato interino, pois o período exercido por Rubão antes das eleições é considerado relevante para caracterizar o que seria um terceiro mandato. Com isso, a Corte reafirma a possibilidade de que sua eleição tenha sido irregular.

  • Revogação da liminar de posse indica que o quadro jurídico mudou: a retirada de Dr. Rubão do cargo demonstra que a Corte reconhece a gravidade da questão e a necessidade de reavaliar os efeitos da eleição de 2024 — o que abre caminho para a adoção de medidas compatíveis com a proteção da democracia.

  • A indefinição eleitoral e administrativa se prolonga: com o afastamento e a volta da interinidade, fica evidente que a continuidade do governo depende apenas de decisões judiciais. A população não pode ficar submetida a ciclos intermináveis de disputa e instabilidade institucional. É fundamental que o TSE julgue definitivamente o recurso, e que, diante da ilegitimidade potencial da chapa vencedora, convoque pleito suplementar.


Democracia, legitimidade e soberania popular em jogo


Democracia não se resume a “quem tirou mais votos”. Trata-se de garantir que o vencedor tenha respaldo legítimo da maioria — ou, quando houver nulidade relevante, de dar aos cidadãos a oportunidade de escolher livremente um novo representante. No caso de Itaguaí:


  • Como demonstrado anteriormente, se os votos de Rubão forem anulados, o segundo colocado não alcança maioria absoluta, o que torna sua eventual diplomação contrária à lógica de representar a vontade da maioria.

  • A realização de uma nova eleição — um pleito suplementar — seria a forma mais coerente de restaurar a legitimidade popular e permitir que a cidade tenha um prefeito eleito sem sombra de dúvida jurídica

  • A interinidade exercida pelo presidente da Câmara Municipal traz mais legitimidade nesse momento do que manter no cargo alguém cuja validade da eleição está seriamente questionada. Essa solução temporária preserva a continuidade administrativa sem sacrificar os valores democráticos.


A responsabilidade do TSE e da Justiça Eleitoral


Com a decisão do STF, o TSE recebe um recado claro: é hora de resolver definitivamente o impasse. E, por isso, a Corte Superior Eleitoral deve:


  1. Retomar o julgamento do recurso relativo à eleição de 2024 em Itaguaí;
  2. Considerar com rigor as implicações constitucionais da inelegibilidade por “terceiro mandato”:
  3. Admitir, se for o caso (provavelmente o será), a convocação de pleito suplementar, para garantir que o prefeito seja escolhido legítima e democraticamente.


Inegavelmente, a demora em encerrar esse processo prolonga a incerteza, prejudica a gestão pública e mina a confiança da população nas instituições.


Conclusão: Itaguaí não pode esperar mais!


A decisão do STF desta semana representa um marco — e também uma convocação à responsabilidade institucional. Não se trata apenas de litígio jurídico, mas de assegurar que a vontade popular, expressa nas urnas, seja respeitada. A democracia exige mais do que interpretações técnicas: exige coragem para garantir que o poder público seja exercido com legitimidade, representatividade e transparência.

Assim, é imperativo que o TSE julgue com celeridade e firmeza, e que, diante da ilegitimidade da chapa vencedora, determine a realização de nova eleição para prefeito de Itaguaí. A cidade e seus cidadãos merecem uma escolha clara, sem dúvidas ou contestações, e um governo cuja autoridade não esteja permanentemente suspensa pelo litígio eleitoral.

Luzes na Cidade, Sombras no Morro




Um conto natalino inspirado em “Boas Festas”, de Assis Valente


No Natal de 1933, o Rio de Janeiro parecia viver dois mundos ao mesmo tempo. No Centro e na Zona Sul, as luzes da Avenida Rio Branco, as vitrines da Confeitaria Colombo e o vai-e-vem elegante dos bondes criavam a imagem de uma cidade moderna, festiva e vibrante. Mas nos morros e subúrbios, a noite caía mais cedo, as ruas eram de barro e o Natal era mais esperança do que celebração.

Nesse cenário contrastante viviam Eduardo, um menino de dez anos do Flamengo, e Joaquim, da mesma idade, morador do Morro da Providência.


O Natal da cidade iluminada


Eduardo morava em uma casa confortável, com árvore montada pela governanta, ceia sendo preparada pela mãe e presentes importados embrulhados com esmero. A grande surpresa daquele ano era um carrinho mecânico europeu, orgulho do comércio sofisticado que chegava aos bairros elegantes.

Naquela véspera de Natal, Eduardo passeava com a mãe pela Cinelândia, observando vitrines decoradas e um grande presépio exposto na Colombo. Era o símbolo da época: brilho, consumo, música e alegria.


O Natal da cidade esquecida


No mesmo dia, Joaquim descia o morro para vender amendoins. Fascinado, parou diante do mesmo presépio, mas por outro motivo: aquilo era quase inalcançável, um mundo que ele observava por alguns instantes antes de voltar à dura rotina da família.

Quando Eduardo e Joaquim se cruzaram diante daquela vitrine, pareciam dois meninos de dois países diferentes. Mas eram apenas duas crianças, igualmente curiosas, igualmente tocadas pelo encanto do Natal.

— Você acha que Papai Noel vem hoje? — perguntou Eduardo.
Joaquim sorriu, com tristeza suave:
— Pra mim? Ele nunca sobe o morro.

A resposta ficou martelando na mente de Eduardo.


A música que mudou tudo


No rádio da confeitaria, tocava uma nova canção que começava a ganhar o país: “Boas Festas”, de Assis Valente. Apesar do título alegre, era uma música marcada pela melancolia — falava justamente da criança esquecida, daquela que vê o Natal dos outros mas não o próprio.

As palavras da canção se misturavam à frase de Joaquim. Era como se o compositor escrevesse exatamente sobre ele.


O gesto que dá sentido ao Natal


De volta para casa, Eduardo olhou o embrulho do carrinho. Era bonito, reluzente, caro. Mas, naquele momento, parecia excessivo para alguém que já tinha tanto.

Impulsivamente, ele pegou o presente, escapou discretamente e voltou ao morro. Procurou Joaquim até encontrá-lo sentado no degrau de casa, olhando para o céu, como quem espera algo que não chega.

— Joaquim… trouxe uma coisa.

O menino pobre abriu o papel devagar, como se tivesse medo de estragar. Quando viu o carrinho mecânico, seus olhos brilharam com uma intensidade que a luz elétrica do Centro jamais alcançaria.

— Por quê? — perguntou, atônito.
Eduardo pensou em responder, mas apenas deu de ombros, num gesto simples e honesto.
Porque era o certo.
Porque a música tinha lhe ensinado algo.
Porque, para que o Natal existisse, alguém precisava romper o ciclo de esquecimento.

Naquela noite, no alto do morro, Joaquim brincou até tarde, fazendo o carrinho deslizar pelo chão de barro como se fosse um tesouro. Pela primeira vez, sentiu que Papai Noel não o tinha esquecido. Só tinha mandado alguém diferente para entregar.


O Rio, a música e o sentido


O Rio de 1933 vivia contradições profundas: modernidade e pobreza, brilho e sombra, festa e fome. “Boas Festas” nasceu exatamente desse contraste — e ecoou tão forte porque reconheceu a dor silenciosa por trás da alegria aparente do Natal.

O conto acima procura revisitar essa atmosfera e recriar um dos muitos encontros possíveis entre esses dois Rios: o que brilha na vitrine e o que luta no morro; o que recebe presentes e o que espera.
E propõe, sobretudo, que a solidariedade é o único ponto onde esses mundos podem realmente se tocar.

Clique AQUI e ouça a música que inspirou este conto 



Nota sobre o autor

Assis Valente (1911–1958) foi um dos compositores mais originais do período de ouro da música brasileira. Baiano, de origem humilde e marcado desde cedo por dificuldades familiares, veio para o Rio de Janeiro ainda jovem, trabalhando como artesão, caricaturista e, mais tarde, como autor de marchinhas e sambas que fariam enorme sucesso nas rádios.

Seu talento era luminoso, mas sua vida pessoal foi profundamente conturbada. Assis Valente viveu entre a pobreza, crises emocionais, solidão afetiva e sucessivas dificuldades financeiras. Esse contraste entre brilho público e sofrimento íntimo aparece de forma clara em grande parte de sua obra — e “Boas Festas”, composta em 1933, é talvez seu exemplo mais simbólico.

🌒 A JORNADA DE ABRAÃO PELO MUNDO VERDE DO ANTIGO ORIENTE



(Um conto geográfico-cultural ambientado entre 4.000 e 3.500 anos atrás)


Dizem que Abraão caminhou pelas terras onde hoje só vemos poeira, pedra e desertos que avançam como mares silenciosos. Mas, nos seus dias, o mundo era outro. O planeta ainda respirava o rescaldo do Ótimo Climático do Holoceno — um período em que as temperaturas eram agradáveis, os regimes de chuva mais generosos e paisagens hoje secas eram matizadas por verdes, rios e bosques.

Este conto reimagina a jornada de Abraão aproveitando o que a ciência moderna sabe sobre o clima e a geografia da época, combinando história, arqueologia, paleoclimatologia e literatura.


1. UR: A CIDADE DO GRANDE PÂNTANO

Abraão nasce em Ur, na extremidade sul da Mesopotâmia.
Mas a Ur de seu tempo não estava cercada por desertos — e sim por lagos rasos, marismas e canais sinuosos que se estendiam até onde o olhar alcançava.

O Golfo Pérsico penetrava muito mais para o interior, fazendo de Ur quase uma cidade portuária. Canoas feitas de juncos se moviam como sombras sobre águas tranquilas, e pescadores colhiam moluscos e peixes abundantes nas manhãs enevoadas.

A fauna era riquíssima:
• bandos de flamingos e garças brancas,
• javalis selvagens andando em grupos pelos juncais,
• búfalos aquáticos mergulhando lentamente,
• cães semi-domesticados acompanhando pescadores.

A flora misturava tamareiras robustas, campos de cevada domesticada e vastos tapetes de papiro.

Ur era uma metrópole cosmopolita: escribas, mercadores, oleiros, artesãos, tecelões e sacerdotes conviviam num labirinto de casas construídas com tijolos de barro.

A economia girava em torno:
• da agricultura irrigada;
• da criação de ovinos;
• do comércio de tecidos, metais e pedras preciosas;
• das caravanas que partiam para longe, levando riqueza.

É de uma dessas caravanas que, um dia, Abraão e sua família partem, deixando para trás a torre monumental da zigurate refletida nas águas.


2. HARÃ: A TERRA DOS VENTOS E DAS ROTAS

Ao seguir para o norte, Abraão chega a Harã, onde um outro tipo de vida prosperava.

Harã era o ponto de encontro de caravanas vindas da Anatólia, do Levante, da Síria interior. Era uma terra movimentada, onde línguas se misturavam e barganhas definiam destinos.

O clima era menos úmido que no sul, mas ainda assim surpreendentemente verde. Durante boa parte do ano, campos ondulados de gramíneas, flores silvestres e pequenas figueiras espalhavam perfume.

Fauna típica da época:
• gazelas que saltavam em curvas perfeitas,
• lobos de pelagem clara seguindo as caravanas à distância,
• ursos pardos nas florestas do norte,
• aves migratórias que cruzavam o céu em fileiras intermináveis.

Era uma região onde a agricultura convivia com o pastoreio nômade. E ali Abraão vê, pela primeira vez, a vida do caminhar constante — tendas sendo erguidas ao amanhecer e desmontadas ao pôr do sol.


3. CANAÃ: UM JARDIM DE ELEVAÇÕES E VALes

Quando Abraão alcança Canaã, a terra que os antigos chamavam de “faixa verde entre desertos”, ele encontra um país muito mais fértil do que o Israel moderno.

As colinas eram cobertas por bosques densos de carvalhos, terebintos, pinheiros e oliveiras selvagens.
Nos vales, riachos permanentes e temporários serpenteavam entre campinas onde floresciam papoulas e íris.

No vale do Jordão, o clima era quase tropical:
• tamareiras se multiplicavam,
• vinhas cresciam espontaneamente,
• figueiras eram tão abundantes que famílias colhiam seus frutos sem precisar plantar.

A fauna incluía:
• leões asiáticos (que realmente existiam na região),
• leopardos,
• hienas listradas,
• antílopes oryx,
• e grandes rebanhos de cabras selvagens.

As sociedades eram formadas por pequenas cidades-estado fortificadas, governadas por chefes locais, e grandes áreas rurais onde tribos nômades pastoreavam ovelhas e cabras. O comércio com o Egito e a Mesopotâmia trazia bronze, cerâmicas finas e tecidos.

Quando Abraão monta sua tenda sob os carvalhos de Manre, sente que encontrou uma terra de abundância.


4. O NEGEV: O DESERTO AINDA VERDE

Hoje, o Negev parece inóspito. Mas, nos dias de Abraão, ele era muito menos árido.

Havia mais chuva, permitindo vales de capim alto, arbustos floridos e rebanhos pastando durante boa parte do ano. Pequenos riachos alimentavam poços, e viajar era menos arriscado.

Abraão atravessa esse território com seus rebanhos, observando gazelas e avestruzes ainda comuns na região.


5. O EGITO: A TERRA DO RIO QUE SEMPRE RENASCIA

Quando Abraão chega ao Egito, encontra uma paisagem geográfica completamente diferente.

O Nilo, em seus tempos, tinha cheias mais estáveis e volumosas.
O delta era um labirinto de canais, lagoas, papiros e aves aquáticas.
O interior era seco, mas o vale do rio era um corredor verde tão exuberante que sustentava uma civilização colossal.

Os campos de trigo e cevada cresciam em terraços inundados pelo limo fértil depositado anualmente.
A fauna incluía hipopótamos no Alto Egito, crocodilos sagrados, chacais, íbis e gatos selvagens — mais tarde domesticados.

A sociedade era rigidamente organizada: escribas, artesãos, guerreiros, agricultores e sacerdotes conviviam sob o olhar divinizado dos faraós.

Abraão observa, fascinado, a riqueza, a ordem e a grandeza das cidades egípcias antes de regressar ao norte.


6. O RETORNO E A PERCEPÇÃO DA MUDANÇA

Quando retorna para Canaã, Abraão percebe algo que poucos compreendiam conscientemente:

O mundo estava mudando.

Os bosques começavam a recuar diante dos rebanhos e do corte de madeira.
Os vales eram mais cultivados.
As rotas estavam mais movimentadas.
Os rios menos cheios do que antes.

Mas ainda assim, era um mundo vibrante, vivo, jovem — um Oriente muito mais verde do que o que conhecemos hoje.

E, ao erguer sua tenda sob o carvalho de Manre, talvez Abraão tenha sentido que caminhava não apenas pela história de seu povo, mas pelo próprio processo de transformação da Terra.


📝 NOTA FINAL PARA O LEITOR (PÓS-TEXTO)

Embora este conto seja literário, baseia-se nas melhores evidências científicas e arqueológicas sobre o Holoceno Médio, período em que as terras do Oriente Médio eram mais úmidas, mais verdes e mais férteis do que hoje.

Cidades, vales, desertos e civilizações descritas aqui realmente existiram — e o clima, a flora e a fauna se aproximam surpreendentemente do que pesquisas paleoclimáticas indicam para a época de Abraão.

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

🌊❄️ “O Eco do Norte” — A Jornada Dramática de Tupi

 


Prólogo — O Som da Colônia

Eu me chamo Tupi, filho de Auréu e Malena, nascido entre as pedras cinzentas de Punta Tombo.
Minha vida inteira, antes do grande desvio, cabia em três sons:

  • o rugido do vento,
  • o quebrar das ondas,
  • e o eco das vozes dos meus pais.

Minha mãe dizia sempre:

— Tupi, o mar é generoso, mas nunca esquece quem desafia sua vontade.

E meu pai completava:

— Por isso, respeite-o. O mar é maior que todos nós juntos.

Eu os ouvi.
Eu acreditei.
Mas há dias em que o mar não está interessado no que você acredita.


1. A corrente que não devia existir

Tudo aconteceu durante a grande migração anual que fazíamos até o Brasil. Eu treinava mergulhos com meus dois melhores amigos, Nimbo e Nhoque, tentando alcançar o fundo sem perder o fôlego.

O mar parecia um espelho perfeito.

Até que não parecia mais.

Primeiro, o frio cortante da água mudou para um calor incômodo — como se eu tivesse nadado para dentro de um rio quente. Depois, a pressão das ondas ficou estranha, pulsando como um coração gigante.

Eu senti o puxão.

Não era a maré normal.
Não era maré nenhuma que eu conhecesse.

Uma força invisível me arrebatou, como se mãos gigantes tivessem agarrado minhas nadadeiras e me arrastado para longe.

Eu tentei voltar.
Bati os pés com desespero, as asas com dor.
Chamei meus amigos.

— Nimbo! Nhoque! Esperem! Eu…

A água entrou em meu bico. Eu engasguei.
A corrente me engoliu.

E então o mundo virou um borrão de azuis e cinzas.


2. Dias de deriva: o mar como inimigo

Não sei quantos dias se passaram.
No mar aberto, o tempo perde nome.

Durante muito tempo vi apenas céu e água, e o vento quente que soprava do norte me deixava atordoado. A comida era pouca; os peixes fugiam rápido demais. Muitas vezes, a única coisa que me mantinha nadando era lembrar a voz de Malena:

— Respire. Lembre-se de respirar, meu pequeno.

Eu nadava.
E nadava.
E nadava.

No terceiro ou quarto dia — nunca saberei — vi luzes vermelhas no horizonte. Pensei que eram estrelas caindo no mar. Só depois entendi: eram barcos de pesca humanos.

Tentei segui-los, mas desapareceram na velocidade de um sonho.

Comecei a aceitar que talvez estivesse destinado a morrer ali, naquele mar que já não reconhecia.


3. A ilha do vento hostil

Mas o mar, caprichoso como sempre, me jogou contra rochas negras. Lutei com as ondas, usei o bico para me segurar nas pedras e, com esforço, me puxei para cima.

A praia cheirava a algas estranhas.

E o vento…
O vento era diferente.
Assobiava em outra língua.

Eu estava no Hemisfério Norte, embora nessa época eu ainda não soubesse o que isso significava.

Minhas penas estavam molhadas demais, meu corpo tremia. Dormi sem saber se acordaria.

Acordei com olhos brilhantes me observando.

Eram aves — mas não eram pinguins. Tinham olhos vivos e bicos coloridos, vibrantes como pedras de fogo.

Eu tentei falar:

— Quem… quem são vocês?

Eles responderam com grasnidos rápidos, uma língua impossível, mas havia curiosidade, não ameaça.

Mais tarde, descobri quem eram: frailecillos. Puffins.
Pareciam divertidos com a minha presença.

Mas o resto da ilha…
A ilha não me queria ali.


4. O Norte prova seus dentes

No primeiro dia, vi uma sombra branca deslizando entre as pedras. Quando a sombra se aproximou, percebi olhos azuis, frios como a manhã do inverno: uma raposa ártica.

Ela me cheirou.
Eu gritei.
Ela avançou.

Corri.
Eu nunca corri tão rápido na vida.

Pinguins não foram feitos para correr — mas o medo muda qualquer criatura. Desviei, escorreguei nas pedras, mergulhei na água. A raposa parou na beira, irritada. Eu sobrevivi.

Mas não era a única ameaça.

Havia gaivotas enormes, maiores que qualquer ave que eu já tinha visto. Seus bicos eram lâminas. Uma delas me atacou pelas costas, tentando arrancar minhas penas. Eu mergulhei com dificuldade. Saí sangrando, mas vivo.

E uma vez, na maré baixa, uma foca-nariguda de quase meia tonelada olhou para mim como quem observa um intruso inconveniente.

O mar do Norte não é gentil.
E a terra também não.


5. A solidão que dói mais que o frio

Ninguém fala disso, mas vou dizer:
a pior parte de estar perdido não é ter medo.
É não ter quem te ouça.

Eu falava com o vento.
Com as ondas.
Com as pedras.

Em algumas noites, eu fechava os olhos e tentava imaginar o cheiro do ninho, o calor de Malena, o olhar preocupado de Auréu, as piadas estúpidas de Nhoque.

Eu tentava recordar suas vozes.
Mas o vento do Norte abafava tudo.

Era como se minha memória estivesse sendo apagada.


6. A chegada dos humanos do casaco amarelo

Quando já começava a perder forças, ouvi o ruído de um motor. Olhei e vi um barco pequeno se aproximando. Dois humanos desceram.
Um deles era uma mulher de olhos escuros; o outro, um homem de barba curta.

Eles olharam para mim com espanto, depois com ternura.

— “Inacreditável… um Magalhães aqui.”
— “Se tentarmos deixá-lo, vai morrer.”

Eles se aproximaram devagar, oferecendo peixes frescos. Meu instinto dizia para fugir. Mas meu corpo… meu corpo gritava por alimento.

Comi.

E naquele momento, entendi algo simples:
eles queriam me ajudar.

A mulher sorriu:

— “Vamos te levar para casa, pequeno.”

Eles me chamavam de pequeno explorador.
E eu, pela primeira vez em semanas, me senti seguro.


7. A longa cura e a longa volta

Fui levado para um centro de pesquisa. Humanos me examinaram, limparam minhas feridas, trataram minha desidratação, escovaram minhas penas. Eu me sentia fraco, mas acolhido.

A mulher — que se chamava Lúcia — me alimentava com cuidado.
O homem — Hiroshi — registrava tudo, mas sempre me dava tapinhas suaves nas costas.

Eles conversavam comigo:

— “Logo você volta para o Sul.”
— “Seu povo deve estar te procurando.”
— “Provavelmente ele foi vítima das circunstâncias causadas pelo El Nino severo deste ano, devido às mudanças climáticas.”

Eu não conhecia muitas palavras humanas, mas reconhecia a emoção nelas.

E isso era suficiente.

Depois de semanas, me colocaram em um barco maior, com uma caixa gelada confortável, peixes frescos e até brinquedos — pedras arredondadas que eu podia empurrar.

E viajamos.

Para o sul.
Para cada vez mais frio.
Para cada vez mais familiar.

Eu sentia o cheiro de casa antes mesmo de ver a costa.


8. O retorno — o eco que nunca se perde

Quando o barco chegou a Punta Tombo, meu coração disparou. Lucía me colocou na areia com um sorriso triste.

— “Vai. Este é o seu lugar.”

Eu ainda tremia — não de frio, mas de emoção.

Dei alguns passos.
E gritei o mais alto que pude:

— Mãe! Pai! Eu voltei!

As respostas vieram em segundos.

Malena surgiu primeiro, correndo com as asas abertas, chorando e reclamando ao mesmo tempo:

— Tupi! Meu filhote! Onde você esteve? Como pôde sumir assim? Eu… eu…

Auréu veio logo atrás, duro, sério — até chegar perto demais.

Ele bateu a testa na minha.

— Você me assustou, filho.
— Nunca mais faça isso.

Seus olhos brilhavam.

Nimbo e Nhoque apareceram correndo, fazendo piadas, empurrando-me com as asas.

— Sabíamos que você era resistente!
— Ou que pelo menos dava azar demais para morrer!

E ali, cercado por família e amigos, eu entendi:

O mar pode me levar para longe.
Pode me testar.
Pode até tentar me apagar.

Mas o eco da minha colônia sempre me encontrará.

Porque eu sou Tupi.
Sou do Sul.
E sempre voltarei.

Fim.


OBS: Créditos de imagem atribuídos à Don Faulkner/Flickr-Creative Commons, conforme extraído de https://catracalivre.com.br/viagem-livre/conheca-a-maior-colonia-de-pinguim-de-magalhaes-do-mundo/