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| Leonardo Pepi/Ministério dos Transportes |
O debate sobre a inclusão das hidrovias dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND) tem gerado intensas discussões no Brasil. De um lado, há quem enxergue na medida uma oportunidade de modernização logística e redução de custos. De outro, surgem preocupações legítimas sobre impactos ambientais e sobre os direitos dos povos indígenas e das populações ribeirinhas.
É fundamental que o debate seja feito com serenidade, informação qualificada e respeito às diferentes visões.
O que significa a inclusão no PND?
A inclusão das hidrovias no PND não representa, automaticamente, a “privatização dos rios”. Trata-se de uma etapa que autoriza estudos técnicos, modelagens e eventual estruturação de concessões ou parcerias com a iniciativa privada. Qualquer avanço concreto depende de:
- Estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental;
- Licenciamento ambiental;
- Processos de consulta às comunidades afetadas;
- Procedimentos legais e licitatórios.
Ou seja, ainda há etapas formais a serem cumpridas antes de qualquer implementação prática.
Os argumentos favoráveis
Os defensores da medida destacam alguns pontos relevantes:
- Eficiência logística: O transporte hidroviário é, em regra, mais econômico para grandes volumes de carga e pode reduzir o custo do escoamento da produção agrícola e mineral.
- Menor emissão de carbono: Em comparação ao transporte rodoviário, as hidrovias tendem a emitir menos gases de efeito estufa por tonelada transportada.
- Integração regional: A melhoria da navegação pode fortalecer a conexão entre regiões produtoras do interior e os portos do Norte, estimulando investimentos e geração de empregos.
Esses argumentos não podem ser ignorados. O Brasil possui dimensões continentais e enfrenta gargalos logísticos históricos.
As preocupações levantadas
Por outro lado, os críticos da proposta alertam para riscos importantes:
- Impactos ambientais: Dragagens e intervenções para padronizar a navegabilidade podem alterar o regime natural dos rios, afetando a biodiversidade e os ciclos de cheia e seca.
- Impactos sociais e culturais: Povos indígenas e comunidades ribeirinhas dependem diretamente do rio para sua subsistência, transporte, cultura e identidade.
- Consulta prévia: A Convenção 169 da OIT, incorporada ao ordenamento jurídico brasileiro, assegura o direito à consulta livre, prévia e informada sempre que medidas administrativas possam afetar povos indígenas e tribais.
Em regiões como a Amazônia, o rio não é apenas uma via de transporte. É território, é sustento, é cultura.
O verdadeiro ponto de equilíbrio
O debate não deve ser reduzido à oposição simplista entre “desenvolvimento” e “preservação”. O desafio está em definir qual modelo de desenvolvimento queremos.
Alguns caminhos consensuais podem ser considerados:
1. Planejamento com base científica rigorosa
Qualquer projeto deve ser precedido de estudos ambientais independentes, transparentes e amplamente divulgados. Decisões técnicas não podem ser guiadas apenas por projeções econômicas de curto prazo.
2. Consulta prévia efetiva
A consulta às comunidades indígenas e ribeirinhas deve ocorrer ainda na fase de concepção dos projetos, e não apenas como etapa formal posterior. O diálogo precisa ser real, com possibilidade concreta de ajustes e condicionantes.
3. Modelos de baixo impacto
É possível discutir hidrovias com intervenções menos agressivas, respeitando os ciclos naturais dos rios e limitando dragagens permanentes. Nem todo projeto precisa adotar o modelo de maximização do fluxo de grandes comboios.
4. Avaliação comparativa com outras alternativas logísticas
Ferrovias e melhorias multimodais devem ser consideradas como parte de uma estratégia integrada, evitando concentrar toda a solução logística em ecossistemas sensíveis.
5. Governança e fiscalização robustas
Se houver concessão, os contratos devem conter cláusulas ambientais rígidas, fiscalização permanente e mecanismos de transparência e controle social.
Uma agenda de responsabilidade compartilhada
A Amazônia é patrimônio do Brasil e do mundo, mas é, antes de tudo, o lar de milhões de brasileiros — especialmente povos indígenas e populações tradicionais que ali vivem há gerações.
Ao mesmo tempo, o país precisa enfrentar seus desafios estruturais de infraestrutura e competitividade.
O caminho responsável não está nos extremos. Ele passa por:
- Diálogo institucional sério;
- Participação social qualificada;
- Respeito aos direitos constitucionais;
- Planejamento técnico responsável;
- Compromisso real com sustentabilidade.
Desenvolvimento e preservação não são conceitos incompatíveis. O que se exige é maturidade política para buscar soluções equilibradas, que conciliem crescimento econômico com justiça social e proteção ambiental.
A Amazônia não pode ser tratada apenas como rota de escoamento. Mas também não deve ser excluída de um projeto nacional de integração e prosperidade.
O desafio está lançado: construir um modelo que una eficiência, responsabilidade e respeito.













