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domingo, 1 de abril de 2018

O fim da breve dieta de um ariano



Nunca segui os horóscopos. Aliás, sou cético demais para acreditar nisso. Porém, como essa tradição herdada lá da antiga Mesopotâmia faz parte da nossa cultura até os dias hoje, havendo até faculdades de Astrologia, fica complicado alguém desconhecer qual é o seu signo. 

No meu caso, sou considerado um "ariano" pois nasci no dia 12/04. Cuida-se do primeiro signo astrológico do zodíaco, situado entre Peixes e Touro, sendo, pois, associado à constelação que leva o seu nome. Seu símbolo é um carneiro e alcança os nascidos entre 21 de março e 20 de abril.

Pois bem. Como sabemos, é comum as pessoas iniciarem suas respectivas dietas logo no começo de janeiro, após as extravagâncias cometidas entre o natal e o Reveillon. Graças ao clima quente que costuma fazer no tórrido verão carioca, pode-se dizer que a época ajuda bastante no cultivo de novos hábitos que, por sua vez, auxiliarão na perda de peso.

Uma vez iniciada a dieta lá pelos dias 02 ou 03 de janeiro, o brasileiro razoavelmente persistente consegue mantê-la até à chegada do frio por pelo menos uns quatro meses, havendo apenas algumas interrupções em que as pessoas "metem o pé na jaca", como se diz por aqui. Uma delas seria no Carnaval, porém o ato de sambar contribui para queimar as colorias compensando os excessos de churrasco e de bebida. Já a outra época desfavorável corresponde à Semana Santa, mais precisamente ao Domingo de Páscoa devido ao habitual consumo dos ovos de chocolate.

Todavia, tudo se complica para um ariano quando chega o mês de abril. Pois além dos deliciosos ovos de chocolate deixados pelo coelhinho, temos também a comemoração dos nossos aniversários de modo que sempre ingerimos umas fatias de bolo e provamos uns outros doces mais.

No meu caso então, além da Páscoa e do meu natalício, tenho ainda os aniversários de minha mãe Myrian, nascida em 04/04 e da esposa Núbia que todos os anos completa a sua translação ao redor do Sol em 26/04. Ela é uma "toura" no zodíaco, porém nasceu no mesmo mês que eu cuja data cai no calendário exatamente duas semanas depois, coincidindo com o mesmo dia da semana.

Para adocicar ainda mais a situação, eis que a minha mulher resolveu fazer uns cursos sobre ovos de chocolate e bombom. Conforme a mesma expôs dia 25/02 em seu blogue (clique AQUI para ler), Núbia teve então a primeira aula sobre ovo de Páscoa de colher:

"Aprendemos a fazer o ovo, alguns truques para conservar o chocolate e vários recheios. Desde o mais barato até os mais caros e requintados. Dos ovos que fizemos, o que achei mais fofinho foi o meu. E também os que foram feitos pelas garotas que era igual ao meu. (rsrsrs) O nosso ovo era de Nutella e chocolate branco, enfeitado com confetes mais um coelhinho com sabor limão (feito também por mim). Meu marido e minha irmã Sandra adoraram!"

Nesta Páscoa de 2018, estou tendo a oportunidade de degustar os ovos recheados feitos por minha esposa que são a mais pura tentação. O doce ficou uma loucura! Desde a madrugada de sábado para domingo até agora já comi dois desses ovos enfeitados com confete.


Amanhã vou ver se fecho a boca e me seguro até o próximo final de semana quando pretendo estar visitando minha mãe em Brasília e lá celebrar o aniversário com antecipação. Porém, quando retornar da viagem, acabarei rememorando na outra quinta-feita visto que, desta vez, Núbia não irá me acompanhar no passeio. Logo, haverá um parabéns extra.

Apesar de estar chegando aos 42 anos com menos de 90 quilos e não ser considerado gordo, tendo em vista que tenho 1 metro e 90 centímetros, sinto que preciso me cuidar. Estando há quase dois anos em atividades sedentárias, meu peso subiu de menos de 76 kg em julho/2016 para uns 88 kg atualmente sem haver exagerado nos doces. Simplesmente meu erro está sendo em manter os dois pratos cheios que devoro no almoço sem estar fazendo exercícios regulares como antes em que chegava a caminhar quase diariamente uns 4 a 6 quilômetros na praia.

Com a chegada do frio, outras guloseimas virão. Daqui uns dois meses e meio, começarão as festas juninas e, juntamente, teremos as barracas na praça vendendo bolinho de milho, maçã do amor, canjica, cocada (as daqui de Muriqui são deliciosas), pé de moleque, cuscuz, paçoca e muito mais. 

Que o respeito à vida ressuscite entre nós!



Na data de ontem (31/03), considerado pela cristandade como sendo o tradicional "Sábado de Aleluia", um assassinato bárbaro abalou Mangaratiba e o Estado do Rio de Janeiro logo pela manhã. A pequena Brenda Valentina Alves Oliveira Aleixo, de apenas 2 anos e meio, tornou-se mais uma vítima da violência do crime organizado que assola o Rio de Janeiro e vários outros estados do país. Conforme informou o portal de notícias G1, colocando novamente a cidade nas páginas policiais nacionais,

"A criança morreu após ser baleada no início da manhã deste sábado (31) perto do Morro do Chapéu, em Conceição de Jacareí, distrito de Mangaratiba, na Região Metropolitana do Rio. O pai teria desavenças com o tráfico da região. Quem teria disparado contra ela foi um dos dois homens envolvidos com tráfico de drogas que entraram na residência dos pais da menina. Por enquanto, apenas um desses bandidos foi identificado: Leonardo dos Santos Minas. O pai de Brenda contou à Polícia que estava saindo para trabalhar com a filha quando foi abordado pela dupla de traficantes. Ele teria entrado no carro e arrancado, mas o veículo foi alvejado por vários disparos, e um deles atingiu a filha dele, que estava no banco traseiro. Disse, ainda, suspeitar que os criminosos estavam tentando atingi-lo, visto que há dois dias havia se desentendido com um homem, conhecido como Chuck, também envolvido com o tráfico de drogas. Os pais encontraram equipe do 33º BPM (Angra dos Reis), que a levaram para um posto de saúde no município. Brenda foi transferida para o Hospital Pedro II, em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio, onde morreu por volta das 11h." (Extraído de  https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/menina-e-morta-em-assalto-em-mangaratiba-no-rj.ghtml)

Quem me acompanha nas redes sociais, sabe que não costumo comentar sensacionalisticamente sobre crimes. Aliás, acho deprimente falar sobre essas mazelas da sociedade de modo que, em geral, escrevo mais sobre política, temas filosóficos, questões jurídicas e comportamentos. Porém, desta vez, eis que a violência passou dos limites pois está mudando a realidade de uma pacata localidade do litoral sul fluminense que, não sei se por erro ou acerto do repórter do G1, foi noticiada como sendo já um município integrante da caótica Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

Fato é que os bandidos já não estão mais respeitando ninguém. Andam armados com fuzis, controlam estratégicas áreas do território onde vivem as populações carentes e, covardemente, atiram para matar pouco se  importando se as balas atingirão crianças, mulheres grávidas, idosos ou bebês. Os delitos podem ocorrer a qualquer hora do dia ou da noite sendo que às vezes os disparos são feitos até próximos de uma unidade policial.

A reflexão que levanto aqui é que o respeito à vida parece haver morrido dentro da nossa sociedade visto que os homicídios estão se banalizando a ponto de muitos nem mais se importarem com as notícias acerca do assassinato de alguém. E, quando pouco sabemos aceca da vítima, sendo geralmente um adulto que morreu, surge logo a desculpa psicológica de que o executado talvez fosse mais um envolvido com o tráfico de drogas. Ainda mais sendo jovem, negro e morador dos bairros de periferia.

Entretanto, o que dizer quando a vítima é uma criança inocente e que nada tem a ver com o comércio ilícito de entorpecentes? Considero hediondo sabermos que um marginal foi capaz de abrir fogo contra o veículo onde o pai estava com a filha de dois anos e meio pouco se importando com as consequências de seus atos em relação à menor. Que monstruosidade foi essa que ocorreu aqui em Mangaratiba!

Neste domingo considerado "santo" pela cristandade, no qual se comemora o episódio bíblico da ressurreição de Jesus, significando a vitória da vida sobre a morte, sinto o quanto precisamos trazer de volta valores há muito tempo esquecido pela nossa sociedade. E um deles seria justamente o respeito pela vida do nosso semelhante já que a todo momento ocorrem entre nós homicídios, lesões corporais graves, acidentes de trânsito e de trabalho perigosíssimos sem que haja nenhum esforço coletivo para revertermos tal realidade. Muitos hoje vão para um culto religioso de devoção a Cristo, porém não são capazes de agir dentro de seu pequeno universo para que as mudanças no meio social comecem a ocorrer.

Para finalizar, reproduzo aqui o texto da postagem feita por um morador atuante do Município no sítio de relacionamentos Facebook que comentou sobre o caso. Suas palavras nos fazem pensar mais profundamente sobre o ocorrido possibilitando que nos identifiquemos com a tragédia sofrida por uma família que foi violentada já que o mesmo poderia ter atingido a filha de qualquer outro pai que também tem o seu direito a viver:

"Hoje eu saí com minha filha mais velha. Ela assistiu a aula na faculdade comigo e almoçamos juntos. Passamos na loja de chocolate para comprar o presente deste domingo. Voltamos pra casa brincando e conversando. Trouxemos presentes para a vovó e para a filha mais nova e mamãe. Ao chegar, a pequenina dá um grito de PAPAI! Vamos passar o dia de páscoa juntos. Mas, uma família não terá este prazer. Jacareí está menos bonita. Aliás, a praia mais bonita de Mangaratiba está lá (minha opinião). Não está nada bem! Não adianta tentar sufocar o grito de uma população que não está acostumada a tal violência. Perdemos um bebê. Nossa! Uma linda bebê. Qual sua culpa? Ela só ia brincar e se divertir. Me perdoem. Impossível ficar calado e aceitar que as coisas estão acalmando. Mangaratiba não está preparada para tanta violência. Nós não queremos nos preparar para essa violência. Nos recusamos a aceitar isso. Os discursos bonitos de quem é culpado eu dispenso. Nenhum argumento supera a perda de uma criança. A noite acaba aqui. Hoje não há o que comemorar." (Robertinho Castilho em https://www.facebook.com/RobertinhoCastilho01/photos/a.275380822830843.1073741829.275377879497804/560970794271843/?type=3&theater)

Que Brenda descanse em paz. E que a sociedade indignando-se contra a violência posicione-se junto com as suas autoridades policiais a fim de que o crime organizado seja definitivamente erradicado em Mangaratiba, no Rio de Janeiro e em todo Brasil. Ressuscitemos o respeito pela vida! E que as tragédias ocorridas com ela e com outras crianças recentemente baleadas pelo crime organizado levem Mangaratiba e o Rio de Janeiro a reagir contra tanta barbárie que tem se instalado no nosso ambiente.


Boa semana a todos!

OBS: Créditos da primeira imagem atribuídos a Robertinho Castilho, Facebook, sendo a foto acima da menina Branda reproduzida pelo G1 a partir do mesmo sítio de relacionamentos na internet.

sábado, 31 de março de 2018

É preciso prevenir melhor os acidente marítimos!



O país está perplexo com mais um atropelamento aquático de quatro turistas de São José dos Campos (SP) cometido com o uso de embarcação motorizada, conforme ocorreu na data de ontem (30/03) em Ilha Grande, mais precisamente na localidade de Lagoa Azul, não muito distante daqui de Mangaratiba, em que se causou um duplo homicídio culposo e uma dupla lesão corporal culposa. De acordo com a defesa apresentada pelo condutor da lancha, o motivo teria sido um problema no acelerador, como noticiado pelo G1:

"Polícia Civil de Angra dos Reis, RJ, afirmou que o condutor da lancha que atropelou banhistas nesta sexta-feira (30) na Ilha Grande, em Angra, disse em depoimento que a embarcação estava com um problema no acelerador. Duas pessoas morreram e duas ficaram feridas no acidente. De acordo com o Delegado Titular da 166ª Delegacia de Polícia, Bruno Gilaberte, o marinheiro disse que se desequilibrou, caiu e perdeu o controle da lancha. Em depoimento à polícia, a maioria das testemunhas disse que a embarcação ia na direção das pedras quando o condutor desviou e atingiu os banhistas." - Extraído de https://g1.globo.com/rj/sul-do-rio-costa-verde/noticia/condutor-afirma-a-policia-que-lancha-que-causou-acidente-em-angra-estava-com-problema-no-acelerador.ghtml

Desde que vim morar aqui no litoral sul-fluminense, umas das coisas que mais passou a me preocupar é o uso de lanchas e de jet-ski próximos às áreas ocupadas pelos banhistas, inclusive perto da orla marítima. Pois este tráfego intenso e mal fiscalizado de veículos aquáticos não somente tem posto em risco a vida e a segurança das pessoas como também anda afetando o meio ambiente marítimo, sendo certo que as populações tradicionais de pescadores dependem do equilíbrio ecológico para fins de sustento familiar.

A meu ver, Mangaratiba e a vizinha Angra dos Reis precisam urgentemente colocar em prática o gerenciamento da costa de nossa região com a ajuda de uma sinalização adequada no mar a fim de impedirem a aproximação indesejada das lanchas e das motos aquáticas pelo isolamento das áreas de lazer nas praias. Inclusive, cá no Município, nós já temos a Lei Municipal de n.º 973/2015 que autoriza a Prefeitura a fazer o monitoramento e a sinalização náutica para melhor proteger os banhistas por meio de um projeto de balizamento:

"Art. 1º - Fica o Poder Executivo Municipal autorizado a implantar o Programa Municipal de Monitoramento e Sinalização Náutica nas praias de Mangaratiba.

Art. 2º - As praias de uso frequente para banho de mar deverão ser protegidas através de um projeto de balizamento que garanta o isolamento das áreas de lazer dos banhistas evitando a aproximação de lanchas, de motos aquáticas e de qualquer tipo de embarcação capaz de por em risco a segurança das pessoas.

Art. 3º - Fica o Poder Executivo Municipal autorizado a celebrar convênio com a Capitania dos Portos afim de colaborar com a segurança do tráfego aquaviário prestando auxílio suplementar na fiscalização.

Art. 4º - Caberá ao Programa Municipal de Monitoramento e Sinalização Náutica informar e orientar ao público frequentador das praias de Mangaratiba quanto à proteção das áreas de segurança dos banhistas, disponibilizando meios de contato rápidos com a fiscalização através de telefone e internet que funcionem todos os dias da semana.

Art. 5º – Poderá ser criado um arquivo específico, auxiliado por um banco de imagens, para o registro das ocorrências relativas ao tráfego indevido de embarcações nas áreas de segurança dos banhistas.

Parágrafo Único - As ocorrências obtidas pelo Programa Municipal de Monitoramento e Sinalização Náutica, após serem registradas, deverão ser encaminhadas com mais brevidade possível para a Capitania dos Portos.

Art. 6º - O Poder Executivo Municipal regulamentará através de decreto a presente lei no que for necessário para a sua aplicação, no prazo de noventa dias.

Art. 7º - Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação, revogando-se as disposições em contrário."

Fato é que a fiscalização (da Capitania dos Portos e das Guardas Municipais) não tem como estar presente ao mesmo tempo em todos os locais das extensas baías de Angra de Sepetiba. E, por sua vez, os condutores dos veículos aquáticos nem sempre têm a consciência de que podem machucar ou matar um banhista quando ficam se exibindo numa lancha ou jet-ski. Porém, a norma em comento prevê, em seu artigo 5º caput, que seja criado um "banco de imagens" para fins de registro de ocorrências sobre o tráfego de embarcações, o que pode facilitar em muito a identificação dos condutores/proprietários que fazem um uso indevido de seus veículos aquáticos por meio de envio de mensagens instantâneas pelo aplicativo WhatsApp.

A meu ver, toda a população da Costa Verde precisa se mobilizar para que medidas preventivas sejam adotadas nas praias de movimento intenso, dentre as quais se inclui também a de Muriqui, localidade onde eu moro. Pois, através de uma sinalização náutica adequada, acredito que será possível evitarmos a aproximação indesejada desses veículos das áreas de lazer do nosso litoral continental e das ilhas, sendo que a execução de tal projeto suponho ser algo de baixo custo. 

De qualquer modo, quando falamos em vidas humanas, sabemos que estas não têm preço. Logo, as prefeituras das cidades da Costa Verde podem muito bem resolver esse problema o mais rápido possível em favor da coletividade de turistas e de moradores que frequentam a região. Pois são os banhistas e não os praticantes das atividades náuticas que devem ter prioridade quanto ao uso do mar, o qual é um bem público e de uso comum do povo.

Ótimo sábado a todos e meus sentimentos aos sobreviventes dessa tragédia, bem como aos familiares das quatro vítimas.

sexta-feira, 30 de março de 2018

A ideia de alguém que morreu por nós



Por mais que a humanidade tenda a passos lento para um agnosticismo, o que se revela primeiramente nas atitudes e depois nas confissões da (des)crença, acredito que o arquétipo de Jesus Cristo irá se perpetuar por muitas gerações dentro da nossa cultura. 

Estava por esses dias lendo o artigo A "inutilidade" da Cruz, escrito por Hermes C. Fernandes, bispo da Igreja REINA (Rede Internacional de Amigos), o qual considero hoje um dos mais expressivos nomes da Teologia da Libertação no protestantismo brasileiro.  Em seu brilhante texto, o autor faz uma interessante reflexão sobre "qual teria sido a necessidade da morte vicária de Cristo" já que a ideia do perdão divino tornaria dispensável qualquer sacrifício, inclusive o de Jesus:

"Geralmente, acredita-se que a morte de Cristo tenha sido um pagamento feito a Deus. Ficamos quites com Ele mediante a oferta da vida de Seu próprio Filho. Passa-se a impressão de um Deus relutante em nos oferecer perdão. Não é de se admirar que os cristãos tenham tanta dificuldade em perdoar. Ninguém aceita ficar no prejuízo. A gente até perdoa, mas desde que alguém se disponha a reparar o dano. Sinceramente, prefiro acreditar que haja um grande mal entendido. Não era Deus que precisava da cruz para poder nos perdoar. Éramos nós que precisávamos de algo que nos revelasse a gravidade de nossos pecados, a fim de que atribuíssemos o devido valor à Sua graça." (destaquei)

Concordo com essa visão do Hermes, a qual pode muito bem ser compreendida por agnósticos, ateus e pessoas de outras religiões diversas do cristianismo. Pois mesmo os que não dão crédito à historicidade das tradições eclesiásticas, a ideia da morte sacrificial e substitutiva de alguém existe ainda que sendo um relato mítico que não teria surgido por acaso. Ou seja, em tal hipótese haveria uma necessidade mesmo que psicológica para a elaboração daquilo que seria apenas uma "lenda".

Não entro nesse debate sobre a historicidade do cristianismo porque considero uma interminável discussão inútil acerca da prova de supostos fatos de uma distante época. Prefiro ir direto ao que interessa que é a exposição de uma morte torturante pela religião para o ser humano conscientizar-se das consequências sobre suas más ações ou omissões.

Longe de querer compactuar com qualquer antissemitismo, penso que não dá para analisar a morte de Jesus sem levarmos em conta os comportamentos da anônima multidão que estava em Jerusalém para a festa da Páscoa bem como dos próprios discípulos dele. Muitos fugiram diante da prisão do Mestre e outros concordaram com a sua estúpida crucificação, preferindo a soltura do revoltoso Barrabás.

Todavia, Jesus em sua morte a ninguém culpou ou amaldiçoou. Sua atitude diante dos que dele zombavam e/ou torturavam foi justamente no sentido de liberar um gratuito perdão. Toda a violência sofrida foi então compreendida porque os algozes não sabiam o que estavam fazendo de modo que a conduta mansa da vítima ali expressa um puríssimo amor capaz de constranger qualquer ser humano a se envergonhar de seu orgulho, de sua maliciosidade, de sua indiferença, do seu ódio, de sua luxuriante vida superficial, de sua ganância, de seus furtos, de seus homicídios, dentre outros erros mais. E aí volto ao artigo em comento no qual o autor vê mais um motivo para que a cruz se tornasse necessária no caminho da humanidade:

"Na cruz, dois dos principais atributos divinos que correm paralelos convergem e se cruzam. A justiça e o amor se harmonizam. Apesar de jamais ter havido qualquer atrito entre eles, era necessário que percebêssemos através de um gesto radical o alto custo para mantê-los devidamente afinados. A haste horizontal da cruz bem que poderia representar a justiça. Ela não poderia pender nem para a esquerda, nem para a direita, mas manter o equilíbrio (equidade). A haste vertical representaria o amor. Ele que dá sustentação à justiça. Ele é a base que se ergue entre o céu e a terra. É sobre o amor que a justiça está estabelecida. Sem a haste vertical fincada no chão da existência, a haste horizontal não se elevaria. O lugar de encaixe entre as duas hastes se chama graça. Ela é o árbitro que anuncia a vitória da misericórdia sobre o juízo. Deus jamais poderia ser acusado de agir com impunidade ou conivência. Sua justiça segue imaculada. Nossos pecados foram perdoados. Porém, o prejuízo que eles causaram custou Sua própria vida. Não há perdão sem cruz! Cada vez que perdoamos a alguém, experimentamos a crucificação do nosso ego. Arcamos com o prejuízo. Liberamos o outro da obrigação de se retratar." (o destaque em negrito é meu)

Creio que um dos reflexos da cruz é justamente percebermos quais os prejuízos que os nossos erros são capazes de causar. Pois, em maior ou menor grau, inocentes continuam a sofrer pelos males que cometemos. Daí se há fome e guerras matando no mundo é porque a humanidade permanece inerte aos acontecimentos permitindo que uma parcela minoritária da mesma seja a causa dos conflitos. Se estão devastando o planeta, nós ainda podemos ser os consumidores do produto da destruição. E, se a violência  gerada pelo tráfico de entorpecentes nas favelas brasileiras tem ceifado vidas, quem usa drogas ou fornece armas para esses bandidos é também parte do problema.

Por outro lado, a mensagem da cruz não foi escrita para nos culparmos e sim para que tenhamos a consciência de como temos andado e possamos em paz buscar a correção dessas rotas. Ela é simbólica e assume um caráter principiológico a ser seguido nos mais diversos aspectos, inclusive no exercício do perdão ao outro como bem desenvolveu o autor.

Sei que a aplicabilidade de tudo isso requer longas e sucessivas discussões que, neste caso, considero bem mais úteis do que debater sobre a historicidade das tradições cristãs acerca de Jesus. Pois já que a Páscoa e outros dias sagrados são celebrados nos países ocidentais, precisamos oportunizar cada um desses momentos para que a cultura religiosa enfim contribua em benefício do aprendizado humano dentro do nosso processo coletivo de evolução.

Ótimo feriado a todos!

OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro Descendo da cruz, pintado pelo artista flamengo Peter Paul Rubens (1577 – 1640) da época do Barroco, conforme extraído do acervo virtual da Wikipédia com créditos em relação á foto atribuídos a Remi Jouan (2007), segundo consta em https://en.wikipedia.org/wiki/Crucifixion_of_Jesus#/media/File:La_descente_de_croix_Rubens.jpg 

quarta-feira, 28 de março de 2018

Sobre os tiros contra a caravana de Lula



Li no G1 que, na tarde de ontem (27/03), dois ônibus que participavam da caravana de Lula no Paraná teriam sido atingidos por três tiros, segundo informou o Partido dos Trabalhadores (PT). De acordo com o portal de notícias,

"Os ônibus seguiam de Quedas do Iguaçu, no oeste do estado, para Laranjeiras do Sul, na região central, quando os tiros foram disparados, ainda segundo o partido. No momento dos disparos, Lula estava dentro da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFSS), em Laranjeiras do Sul (...) A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, disse ter pedido policiamento às autoridades do Paraná, mas afirmou não ter sido atendida. Ela classificou o episódio como 'emboscada'. A Polícia Civil declarou que abriu inquérito para investigar o caso e que será feita uma perícia nos ônibus - uma equipe de peritos está a caminho para vistoriar os ônibus. Já a Polícia Militar (PM) afirmou que aumentou o policiamento no local da caravana. O ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, disse que pediu atenção das autoridades estaduais para o caso." - Extraído de https://g1.globo.com/pr/oeste-sudoeste/noticia/onibus-da-caravana-de-lula-sao-atingidos-por-tiros-no-oeste-do-parana-diz-assessoria.ghtml

Confesso que, apesar de não gostar da política do Lula e defender que ele seja corretamente julgado pela Justiça, igual a qualquer outro cidadão brasileiro, vindo a ser punido com prisão, se for o caso, de modo algum poderia concordar com um atentado homicida. Pois isto seria também um ataque à nossa democracia.

Se, por um lado, é compreensível a indignação de alguns com o fato do nosso STF, por maioria de votos, haver excepcionalmente admitido o habeas corpus de Lula na semana passada, sentindo-se tais pessoas insatisfeitas com a lentidão da Justiça brasileira em punir os criminosos, também deve ser compreendido por que outros idolatram o elemento. Pois tendo em vista os benefícios alcançados na área social pelos governos petistas, muitos seguidores da esquerda brasileira vêem o ex-presidente como um Robin Hood dos trópicos.

Ora, não podemos esquecer que o mítico personagem literário inglês, um fora-da-lei que roubava da nobreza para dar aos pobres, é, para muitos, um dos maiores heróis na terra da rainha Elizabeth. Chegou a ser imortalizado como o "Príncipe dos ladrões" a ponto de virar um arquétipo dentro da cultura anglicana e global, apesar de sua conduta desviante.

É certo que, no caso do Lula, os crimes praticados durante o período de oito anos que ele governou o Brasil foi mais para alimentar o seu bando chamado PT do que para sustentar a população pobre que ainda temos. Arrasaram com uma empresa que representava o orgulho nacional (a Petrobrás) para que o caixa dois dos candidatos petistas fosse alimentado com o dinheiro da corrupção conforme a Lava Jato estampou para todo o país. E juntos também se beneficiaram partidos hoje não mais aliados como o PMDB e o PP, ambos da base do Planalto antes do impeachment.

Todavia, um erro não justifica o outro! E, por mais que o Brasil ainda continue sendo o país da impunidade, com o Supremo soltando os ladrões presos pela Justiça de primeira instância, devemos respeitar a "Ordem" que é uma das palavras da nossa bandeira, baseada nos ideais positivistas de Auguste Comte: "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim". 

Como se sabe, a "Ordem" consiste na conservação e manutenção de tudo o que é bom, belo e positivo. Isto quer dizer que o respeito às leis, às instituições democráticas e à liberdade das pessoas é algo que jamais pode ser deixado de lado por mais que estejamos insatisfeitos com os acontecimentos da política do nosso país. Cuida-se da realização dos ideais republicanos, consistentes na busca e na manutenção de condições sociais básicas (respeito aos seres humanos, salários dignos etc.), sem o que não haverá o melhoramento do país (em termos materiais, intelectuais e, principalmente, morais).

Jamais devemos nos esquecer de que há muitos milênios a civilização deixou para trás os tempos da vingança privada e entregou o monopólio da Justiça ao Estado. Ou seja, através da jurisdição é que os criminosos são julgados e condenados, cabendo tão somente às instituições estatais competentes a execução das punições. Inclusive a morte do sentenciado no caso dos países livres que ainda adotam a pena capital, nos quais há um processo com todos os direitos de defesa previstos em lei.

Assim também devemos aguardar que a Justiça seja feita no Brasil quanto a todos os bandidos que roubaram a nação, sendo que, na atualidade, estamos testemunhando algo inédito que foram as prisões de importantes políticos e de poderosos empresários. Pois, em mais de 500 anos de História, nunca se viu tantos deputados, senadores, prefeitos, governadores e ministros indo parar na cadeia como anda a ocorrer agora. E, se Lula, Temer e Aécio continuam soltos, creio que isso não será por tanto tempo.

Finalmente, não se pode ignorar que a realização de um atentado contra o ex-presidente Lula poderá causar um estrago sem tamanho na política brasileira e que irá reconduzir a esquerda ao poder com uma força que ela jamais teve até hoje. Ainda mais porque, diferentemente da queda do avião de Eduardo Campos nas eleições de 2014, um tiro no ex-presidente o tornaria uma inegável vítima do extremismo de uma minoria radical. Seria a ressurreição do petismo no Brasil de modo que os discursos que os lulistas fariam no enterro da vítima, como foram as palavras ditas ontem pela deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), passariam a ter grande efeito sobre as massas:

"Nós consideramos um atentado político ao ex-presidente Lula. Daqueles que estão jogando pedras, pedaços de pau, que já atacaram com chicotes e agora usam armas. Aliás, já estão usando armas há algum tempo. Não é um grande contingente de pessoas, mas eles são fortemente armados, seguem a caravana atrapalham, trancam a sua passagem. Nós temos três ônibus e vários carros. Os ônibus são idênticos. Um ônibus foi atingido e ele poderia ser o ônibus do presidente Lula. Poderiam estar ali parlamentares. Estão ali jornalistas tanto brasileiros como de outros países. Nós não podemos aceitar isso. Isso é um atentado político em uma escalada de violência política que está havendo no Brasil"

Se essa turma pretende abater Lula, eles precisam entender que tudo tem que ser feito dentro dos meios legais. Isto é, devem esperar os trâmites processuais para que a Justiça determine a prisão do réu bem como indefira o registro de uma eventual candidatura. Ou, se o elemento vier a disputar as eleições presidenciais deste ano, o que acho pouco provável porque o julgamento do TRF-4 fez dele um "ficha suja", o único caminho será, por meio de argumentos convincentes, derrotá-lo nas urnas. Lembrando que, quando alguém apanha demais, acaba virando o jogo e se torna herói.

Que não falte bom senso nessas horas à Nação!

segunda-feira, 26 de março de 2018

Em que sentido Lula poderia "pacificar o Brasil"?



Estava lendo por esses dias a área de comentários de um dos blogues aos quais sigo em que um dos comentaristas auto-denominado comunista escreveu que "a presença do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na urna é o fator essencial para pacificar o Brasil", citando, em seguida, palavras que atribuiu a Michel Temer sobre a candidatura do petista: "queria que Lula participasse da eleição para pacificar o país". E continuou justificando que, na hipótese de termos um presidente eleito este ano, sem concorrer com Lula, o mesmo não terá legitimidade na ocupação do cargo.

Por sua vez, o outro comentarista, contrário às posições do primeiro que se disse esquerda, respondeu citando uma matéria no UOL, a qual faz menção a mais um dos protestos contra a caravana de pré-campanha do ex-presidente por cidades do Sul do Brasil:

"O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) precisou da proteção de guarda-chuvas para não ser atingido por ovos que eram jogados de um prédio localizado próximo à praça onde ele realizava um comício na noite deste domingo (25)…"

Confesso que, desde o ano passado, cheguei a me deparar com o argumento de que o retorno de Lula à Presidência poderá trazer paz ao Brasil, mas nunca vi lógica a respeito disso, exceto do ponto de vista dos inúmeros corruptos hoje da situação ou oposição que, até o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, estiveram juntos num governo só. A saber, os integrantes do PT, do PMDB e de outros que até então faziam parte da base aliada do Planalto, mas que agora estão na mira da Operação Lava Jato.

Todavia, as palavras atribuídas a Temer por um internauta nas redes sociais e que, segundo pesquisei no Google, teriam sido ditas realmente pelo presidente numa entrevista lá pelo final de janeiro do corrente ano (clique AQUI para ler a matéria no JB), merecem ser criticamente refletidas. Pois, se o impedimento de um candidato popular na disputa do pleito de 2018 causa questionamentos quanto à alegada legitimidade, visto que Lula vem liderando as pesquisas de opinião, a sua presença nas urnas também será perturbadora para milhões de brasileiros que não o querem novamente no comando da República.

Outrossim, não podemos ignorar que a maioria dos eleitores brasileiros tem um patente desinteresse pela política, ainda que haja militâncias organizadas contra e a favor de Lula fazendo barulho. E, desse modo, ousaria em dizer que grande parte dos cidadãos alfabetizados entre 18 e 70 anos nem compareceria às urnas se o voto não fosse obrigatório para essa faixa etária devido á decepção que quase todos sentem em relação aos candidatos. Logo, estimo que, talvez, mais de 80% (oitenta por cento) toleraria tranquilamente uma eventual impugnação do petista bem a posse do novo governante.

Inegável é que a presença de Lula nas urnas contribui para uma indesejável polarização nada construtiva entre "direita" e "esquerda", o que ajuda a consolidar o extremista Bolsonaro (PSL) no segundo turno das eleições. Já a sua ausência possibilita que algum dos pré-candidatos moderados, como Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (REDE) e Ciro Gomes (PDT), possa derrotar o direitista no final de outubro, sendo certo que os votos do petista impugnado não se transfeririam para o seu colega de partido Fernando Haddad (ex-prefeito da cidade de São Paulo) e tão pouco para os dois nomes da esquerda radical: Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela D'Ávila (PCdoB). 

Por óbvio que pacificaria o Brasil se Lula, por sua própria vontade, consciente de que já teve dois mandatos na Presidência da República, não vir mais candidato em 2018 e focar, daqui por diante, na defesa dos processos judiciais aos quais responde em liberdade.

Também pacificaria o Brasil Michel Temer renunciar ao cargo que vem ocupando e ser acompanhado pelo senador tucano Aécio Neves (do meu partido), bem como a Lei passar a ser cumprida para todos o corruptos indistintamente com o fim do foro privilegiado.

Pacificaria o Brasil haver mais seriedade nas políticas públicas, quer seja na gestão da saúde, da educação, da segurança e dos transportes que são hoje as maiores demandas que afligem o cidadão comum, além da necessidade de muitos por habitação em inúmeras cidades.

Pacificaria o Brasil uma elevação gradativa do poder aquisitivo do trabalhador através de uma política econômica que volte a ser transparente como no saudoso governo de FHC que, com muito sacrifício, estabilizou a moeda combatendo a inflação.

Pacificaria o Brasil uma reforma política capaz de aumentar o controle do cidadão sobre os mandatos dos governantes e parlamentares que seriam derrubados, mediante pressão popular, através de ato do Chefe de Estado distinto do Chefe de Governo, com a convocação e novas eleições, conforme acontece em muitas democracias sólidas de países parlamentaristas.

Pacificaria o Brasil o cidadão ser tratado com mais dignidade e ter os seus direitos respeitados em todas as esferas estatais e por todos os Poderes da República. Desde um simples atendimento em balcão num órgão público até nos atos praticados pelas autoridades que passariam a dar o exemplo.

Pacificaria o Brasil passarmos a encarar os problemas com os pés no chão, sem alimentarmos ilusões, sem darmos crédito a promessas populistas, sem adiamentos e sem taparmos o sol com a peneira diante da realidade do cotidiano.

Do mais, meus leitores, é tudo conversa fiada esses discursos pró-Lula ou anti-Lula como se o elemento em tela fosse o melhor ou o pior político que o país tem. Pois somos um povo já exaurido de tantos problemas até agora nada resolvidos, roubado há muitas décadas por governantes e empresários ladrões que se apropriam daquilo que pertence a todos nós.

Tenha consciência, Brasil!

domingo, 25 de março de 2018

Palavras ou pedras?



Tradicionalmente hoje, o último domingo antes da Páscoa, é comemorado pela cristandade como sendo o "Domingo de Ramos", quando muitos devotos, cultivando as tradições, participam de algum culto religioso trazendo consigo ramos de palmeiras rememorando a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém montado num burrinho.

No entanto, observo nessa passagem bíblica, mais precisamente no Evangelho de Lucas, uma interessante resposta dada por Jesus aos fariseus que exigiam dele que repreendesse a voz de louvor dos seus discípulos. Vamos ao texto:

"Quando ele já estava perto da descida do monte das Oliveiras, toda a multidão dos discípulos começou a louvar a Deus alegremente, em alta voz, por todos os milagres que tinham visto. Exclamavam: 'Bendito é o rei que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas alturas!' Alguns dos fariseus que estavam no meio da multidão disseram a Jesus: 'Mestre, repreende os teus discípulos!' 'Eu lhes digo', respondeu ele, 'se eles se calarem, as pedras clamarão.'" (Lucas 19:37-40; NVI)

Na manhã desta data, eu estava lendo uma entrevista dada pelo Frei Beto ao UOL e achei bem interessante a resposta que ele deu ao jornalista sobre quem teria matado a vereadora do PSOL Marielle Franco e com qual objetivo. O religioso, seguidor da Teologia da Libertação, que não é nenhum investigador policial e nem poderia dar esse tipo de esclarecimento ao repórter (sem agir de maneira leviana se acusasse alguém), aproveitou então para fazer uma sábia aplicação da passagem bíblica em tela:

"Aqueles que se sentem incomodados com as bandeiras que ela encarnava e defendia. Nunca prestaram atenção nestas palavras de Jesus: 'Se calarem as suas vozes, as pedras gritarão'" (Evangelho de Lucas, 19, 38-40). Agora somos todos(as) Marielle." (Veja mais em https://eleicoes.uol.com.br/2018/noticias/2018/03/25/entrevista-frei-betto.htm?cmpid=copiaecola)

A tradução empregada por Frei Beto me pareceu bem interessante e oportuna pois mostra a importância de se dar a palavra ao povo para que clame pelos seus direitos e anseios tal como fazia Marielle em defesa dos negros, das mulheres, dos homossexuais e dos moradores das comunidades carentes do Rio de Janeiro. Pois, embora fosse vereadora num país democrático, ela era a voz de quem até hoje não conquistou o seu essencial direito de expressão por viver em locais dominados pelo tráfico e as milícias, onde o ser humano se torna vulnerável às mais diversas covardias. Inclusive aos abusos que também podem ser cometidos por alguns maus policiais que deveriam combater o crime.

Certo é que, quando se tira do povo a palavra na voz de seus representantes, os representados tendem a clamar e muitas das vezes com "pedras", sendo que a consequência disso nem sempre é positivo para o bem estar de uma sociedade democrática, podendo ou não produzir resultados construtivos. Isto porque nem sempre a mobilização dos que se revoltam é feita objetivamente, embora sempre cause impactos.

Tornando à mensagem do Mestre, creio que Jesus não deva ter tirado do nada aquela resposta que me faz lembrar uma passagem do Antigo Testamento, mais precisamente do profeta Habacuque que viveu na época da reconstrução do Templo de Jerusalém:

"Você tramou a ruína de muitos povos, envergonhando a sua própria casa e pecando contra a sua própria vida. Pois as pedras clamarão da parede, e as vigas responderão do madeiramento contra você. 'Ai daquele que edifica uma cidade com sangue e a estabelece com crime!'" (Habacuque 2:10-12)

Fazendo aqui uma última reflexão, vejo o quanto esse país e suas cidades carecem de justiça social. É urgente que essa casa chamada Brasil, cujas pedras são o seu sofrido povo, seja limpa de tanto crime e do sangue que se derrama pelas ruas. E mais do que nunca há que se usar da palavra para que denunciemos corajosa e continuamente todas as ilicitudes cometidas contra a população ao mesmo tempo em que devemos nos abster de praticar o mal.

Ótima semana a todos!

OBS: Texto originalmente publicado nesta data por mim no blogue da Confraria Teológica Logos e Mythos, sendo que a imagem acima foi extraída de http://sombradoonipotente.blogspot.com.br/2016/03/as-pedras-clamarao.html