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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

O quanto a metafísica ampara as nossa carências



Interessante como que a foto acima, de autor desconhecido, mas amplamente divulgada nas redes sociais da internet, tem feito um grande sucesso mesmo entre pessoas não religiosas. A imagem costuma vir acompanhada de confortantes palavras que dizem: "Mesmo se caírem as folhas, Deus é capaz de garantir o espetáculo".

De fato, ao olharmos para a foto, deparamo-nos ao centro com uma árvore seca já sem nenhum verde em seus ramos. Porém, as nuvens do céu, vistas além dos galhos pelas lentes do fotógrafo, acabam compondo o formato que as folhagens dariam ao vegetal, caso lá ainda estivessem.

De um modo semelhante, a fé proporciona a muitos crentes experiências subjetivas capazes de suprir aquilo que já não se tem mais nesta vida, fortalecendo um sentimento muito poderoso que há em nós - a esperança. É algo que tem ajudado muitos a caminharem em seus desertos existenciais, fazendo com que o peregrino se sinta em paz num oásis cheio de fontes hídricas em sua volta.

Não tenho dúvida de que os crentes, em sua maioria, vivem melhor do que muitos ateus, agnósticos e, principalmente, do que as pessoas alienadas (religiosas ou não) que pouco pesquisam sobre a vida. Pois, se o descrente goza da momentânea sensação de libertar-se das ilusões causadas por uma crença cega, descobrindo o quanto estivera preso a ideias ou conceitos equivocados, aos quais submetia-se pensando que tivessem alguma autoridade divina, eis que os grilhões da realidade física são ainda mais duros de suportar.

Enquanto a fé religiosa pode ajudar a colorir a vida de muita gente, a realidade nos coloca dentro dos limites da nossa finitude material. Restringir-se a ela pode levar o cotidiano de muitos aos níveis da insuportabilidade, principalmente quando o sofrimento torna-se intenso com um prognóstico desanimador.

Inegavelmente, meus amigos, tenho que parabenizar Voltaire, célebre filósofo iluminista, pela frase escrita em seu livro O Ateu e o Sábio que assim diz: "Se Deus não existisse, seria preciso inventá-lo". Pois é graças à metafísica intuitivamente criada que a humanidade tem caminhado por milênios desde os tempos pré-históricos. E daí prefiro ser grato à fé por mais que os homens cometam as maiores loucuras em nome dela, considerando necessário tão somente reavaliarmos as crenças.

Ótima quinta-feira a todos!

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Que tal um suco de noni?



Tal como fiz na postagem do dia 12/02, Papando goiaba, hoje mostro uma outra fruta tropical que cultivo no terreninho daqui de casa - o noni

Trata-se de uma planta exótica cujo nome científico é Morinda citrifolia. Algo que há uns cinco anos atrás, um senhor "aposentado" das Forças Armadas que conheci na praia, seu Neuri, presenteou-me com uma muda dessa planta que ele cultiva há mais tempo na sua residência em Sepetiba, bairro da Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro. 

No entanto, já tinha ouvido falar do noni desde a década passada quando, morando ainda em Nova Friburgo, um dentista de Núbia havia tentado me convencer a entrar num desses negócios sobre market multinível de uma companhia estrangeira, a qual vende produtos do vegetal oriundos do Taiti (Polinésia Francesa). Recordo que, na época, uma garrafa de um litro e meio de suco daquela empresa custava o exorbitante valor de R$ 150,00 (cento e cinquenta reais), mas quem se associava ao negócio podia comprar um kit de quatro embalagens cheias por R$ 450,00 (quatrocentos e cinquenta reais) de modo que se obteria um lucro de 33,33% se a pessoa conseguisse revender tudo. Ou então, bancar o próprio consumo quinzenal.

Como sempre fui um cara muito curioso e aberto para conhecer novos paladares, resolvi adquirir um kit e presentear algumas pessoas da família. Naqueles anos, a minha renda podia vez ou outra bancar tal extravagância sendo que, além de experimentar o noni, dei uma garrafa para cada uma das avós, Darcília e Marisa, que ainda viviam e a última foi para a casa da sogra, dona Nelma. Todas elas, sendo pessoas idosas, sentiram um efeito saudável e muito positivo, proporcionando-lhes um novo ânimo. Já eu e Núbia nem tanto.

Conforme os representantes da tal empresa bem ensinaram nas palestras que assisti em Friburgo e das quais não me esqueço, o noni não é para ser bebido de uma só vez como fazemos com os demais sucos! A orientação é para que o consumidor vá tomando aos poucos pequenas doses de apenas dois dedinhos no copo (tipo uns 50 ml). Uma pela manhã e a outra no final do dia a fim de se ter um funcionamento mais saudável do organismo. E, de acordo com seu Neuri, ajuda até para fins sexuais...

É claro que aquela aquisição foi a única extravagância que fiz, a qual foi suficiente para provar o sabor forte e único do noni, bem como testar o seu efeito nas pessoas idosas, as quais reagem melhor a esse complemento alimentar do que os mais jovens. E, depois disso, só fui voltar a beber da fruta morando aqui no litoral, onde o clima é propício para o seu cultivo.

Pois bem. Nunca imaginei que o noni fosse algum dia se popularizar no Brasil! E, se o marketing multinível da tal empresa parece não ter dado muito certo por aqui, ao contrário do reconhecido sucesso da Herbalife, pelo menos a fruta acabou indo parar nas feiras de rua e nos quintais das residências, sendo comercializada hoje a preços bem acessíveis.

Em 2013, quando seu Neuri me trouxe sua muda de árvore, uma frutinha do noni chegava a custar uns R$ 8,00 (oito reais) em Itaguaí onde um produtor de Mazomba fazia seu o comércio no calçadão da cidade. E ele oferecia as suas mudas a um preço de R$ 30,00 (trinta reais) as menores, colocando valores mais elevados nas maiores. Por exemplo, uma pequena árvore de praticamente um metro estava custando R$ 100,00 (cem reais).

Hoje em dia, porém, minha esposa disse estar o noni ainda mais barato. Nesta semana mesmo, ela me contou que os camelôs de Itaguaí estavam oferecendo cada fruta à bagatela de apenas R$ 1,00 (um real). Ou seja, seria agora a metade do preço que eles pagariam para revender há uns três anos atrás...

Deixando de lado esses valores de mercado, mesmo com o noni agora sendo gratuitamente oferecido, sou grato à muda que ganhei há cinco anos atrás e também das outras árvores que fui plantando pelo quintal (já tenho mais sete). Isto porque, durante vários meses, seu Neuri me trazia algumas de suas frutas colhidas em Sepetiba quando vinha passar dias em Muriqui. E, ao preparar o suco no liquidificador para então jogar no mato as sementes trituradas que coava (a fim de adubar a terra), milagrosamente algumas delas brotavam.



Mesmo que hoje dezenas de frutas sobrem semanalmente e me falte mercado para vendê-las com preço satisfatório, considero uma enorme riqueza ter essas belas plantas crescendo na terra arenosa desse quintal. Pois, afinal, são árvores e como tais devem ser respeitadas visto que, independentemente de nos darem lucros financeiros ou alimentos, elas produzem o indispensável o oxigênio ao retirarem da atmosfera o gás carbônico. Sem contar que também dão sombra e proporcionam vida ao ambiente.

Para quem não sabe como preparar o suco de noni, digo que é super fácil. Basta comprar uma garrafa de suco de uva integral (de preferência orgânico) e bater com as frutas bem maduras no liquidificador. Depois é só coar o líquido e armazená-lo num recipiente que pode ser a própria garrafa do suco, conservando-a fechada na geladeira durante alguns dias. Pela manhã e no final da tarde, bebe-se uma pequena porção tipo aquela dose moderada de vinho do Porto que usamos como aperitivo antes ou depois das refeições.

Já os que desejam cultivar a planta, lembro apenas que o noni se dá bem em terra de clima quente. Por isso, mesmo sendo uma espécie exótica, vinda de muito longe, ele pega em várias regiões do Brasil, inclusive aqui no litoral do Rio de Janeiro, com produção quase que no ano inteiro (mais no verão do que no inverno). Seu fruto atinge de 4 a 7 cm de tamanho enquanto o tamanho da árvore pode chegar a até 9 metros de altura. Só a flor que é pequenininha.



Sinceramente, não vejo a hora de ter esse quintal todo coberto por árvores nas próximas décadas. E, pela quantidade de noni que deverei colher, se realmente a fruta funcionar para manter a potência sexual, é bem provável que irei continuar dando muito trabalho pra esposa depois velho sem precisar das pílulas azuis...

Ótima quarta-feira a todos!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Falta de energia pode gerar dano moral!



Neste tumultuado período de Carnaval, os consumidores de Mangaratiba sofreram por dias seguidos com falta de energia elétrica. Aqui no Distrito de Muriqui, por exemplo, até o momento, sofremos pelo menos duas interrupções no serviço prestado pela concessionária ENEL que incorporou a AMPLA. Uma na madrugada de sábado para domingo e a outra na noite de segunda para terça-feira, sendo que a luz só voltou em torno das 13 horas e 30 minutos de hoje. E, há poucos instantes atrás, sofremos mais uma oscilação.

Nunca é demais informar ao público que, segundo dispõe o artigo 22 caput do Código de Defesa do Consumidor (Lei Federal n.º 8.078/90), 

"Os órgãos públicos, por si ou suas empresas, concessionárias, permissionárias ou sob qualquer outra forma de empreendimento, são obrigados a fornecer serviços adequados, eficientes, seguros e, quanto aos essenciais, contínuos." (negritei e sublinhei)

No caso dos serviços que podemos considerar como essenciais, a exemplo do abastecimento hídrico e da distribuição de energia elétrica, o legislador impôs que, além da adequação, da eficiência e da segurança, o prestador mantivesse a continuidade de sua execução. E, deste modo, se ocorrem falhas por parte da empresa concessionária que fornece luz para a população, a mesma poderá ser responsabilizada pelos danos que vier a causar aos consumidores, sejam estes os titulares das faturas que chegam mensalmente nas suas casas ou apenas moradores dos imóveis atingidos. Isto porque, na definição legal do artigo 2º caput do Código, "consumidor é toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto ou serviço como destinatário final". (destaquei)

Embora o descumprimento de uma obrigação, por si só, não gere direito a uma reparação por danos morais (que seja indenizável), devemos avaliar separadamente o que acontece em cada caso quando o consumidor fica sem energia elétrica por um tempo considerável a ponto de extrapolar a normalidade do cotidiano. Ainda mais quando se tem uma reincidência dos fatos como na defeituosa atuação da AMPLA/ENEL cá no Município de Mangaratiba. E, neste sentido, compartilho aqui a ementa de uma jurisprudência recente da 24ª Câmara Cível do Egrégio Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro na qual a mesma empresa foi condenada a apagar R$ 5.000,00 (cinco mil reais) por danos morais a uma consumidora de Petrópolis, situação em que os desembargadores mantiveram os valores inicialmente arbitrados em primeira instância:

"APELAÇÃO CÍVEL. CONSUMIDOR. AÇÃO DE OBRIGAÇÃO DE FAZER C/C INDENIZATÓRIA POR DANO MORAL. ENERGIA ELÉTRICA. AMPLA. AUTORA ALEGANDO QUE É CLIENTE DA EMPRESA RÉ E QUE NO DIA 06/04/15 HOUVE A QUEDA DE UM POSTE PRÓXIMO A SUA RESIDÊNCIA, TENDO O FIO QUE LEVA A CORRENTE ELÉTRICA ROMPIDO E GERADO A INTERRUPÇÃO DO FORNECIMENTO DE ENERGIA ELÉTRICA POR CERCA DE 02 (DOIS) DIAS. SENTENÇA DE PROCEDÊNCIA DO PLEITO, DETERMINANDO O PAGAMENTO DE R$5.000,00 (CINCO MIL REAIS) A TÍTULO DE INDENIZAÇÃO POR DANOS MORAIS. APELAÇÃO INTERPOSTA PELA RÉ PRETENDENDO A IMPROCEDÊNCIA DO PEDIDO AUTORAL, E, SUBSIDIARIAMENTE, A REDUÇÃO DO QUANTUM INDENIZATÓRIO. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO CONFIGURADA. TEORIA DO RISCO DO EMPREENDIMENTO. RÉU QUE NÃO OBTEVE ÊXITO EM DEMONSTRAR QUE A INTERRUPÇÃO SE DEU POR MOTIVOS DE ORDEM TÉCNICA. HIPÓTESE DE NÍTIDA FALTA DE MANUTENÇÃO E VISTORIA DA REDE ELÉTRICA POR PARTE DA RÉ. SITUAÇÃO QUE PODERIA TER SIDO EVITADA SE A CONCESSIONÁRIA CUMPRISSE COM A OBRIGAÇÃO DE MANTER OS “POSTES DE LUZ” CONSERVADOS. SERVIÇO QUE DEVE SER PRESTADO DE FORMA REGULAR E CONTÍNUO. NÃO INCIDÊNCIA DA SÚMULA Nº 193 DESTA CORTE. INTERRUPÇÃO DO SERVIÇO ESSENCIAL QUE EXCEDEU EM MUITO AS 4H (QUATRO HORAS) CONFERIDAS PELA AGÊNCIA REGULADORA PARA A SUA REGULARIZAÇÃO (ART. 176, § 1º, DA RESOLUÇÃO N° 414/2010 DA ANEEL). DANO MORAL IN RE IPSA. INTELIGÊNCIA DA SÚMULA 192 DESTE TRIBUNAL. QUANTUM FIXADO EM R$5.000,00 (CINCO MIL REAIS) QUE NÃO MERECE REPARO, POR ATENDER AOS REQUISITOS DA PROPORCIONALIDADE E RAZOABILIDADE E POR ESTAR EM CONFORMIDADE COM A MÉDIA USUALMENTE ARBITRADA POR ESTA CORTE ESTADUAL EM CASOS ASSEMELHADOS. PRECEDENTES DESTA CORTE. SÚMULA Nª 343 DO TJRJ. SENTENÇA QUE SE MANTÉM. RECURSO DA PARTE RÉ A QUE SE NEGA PROVIMENTO." (TJERJ – 24ª C. Cível – Apelação n.º 0001036-10.2015.8.19.0079 – Relator Des. Luiz Roberto Ayoub – Julgamento: 22/11/2017) - o destaque é meu

Como se observa, o entendimento da Justiça é que o dano moral suportado pelo consumidor diante da excessiva privação do serviço de energia elétrica é in re ipsa, um latinismo que significa "da própria coisa". Ou seja, casos como a falta de luz torna a lesão moral presumida pois independe da comprovação do grande abalo psicológico sofrido pela vítima, bastando ao consumidor demonstrar ao juiz que vive no imóvel (ou deste usufrui) e que ficou sem energia elétrica por um número "X" de horas para o magistrado entender, conforme suas convicções jurídicas, se caracterizou ou não o dano moral, vindo a fixar o valor da indenização.

Infelizmente, poucos são os consumidores daqui de Mangaratiba que ingressam com ações na Justiça em defesa de seus direitos. Encontro muita gente reclamando nas redes sociais e outros até culpando os políticos locais como se os mesmos fossem os responsáveis diretos pelo problema, porém é raro alguém tomar uma atitude em favor de si mesmo e menos ainda em prol da coletividade. A maioria nem tem a iniciativa de formalizar um protocolo de reclamação junto à concessionária!

Num período conturbado como é o Carnaval, cujas temperaturas são elevadas e pessoas precisam ligar ventiladores ou ar condicionado, enquanto outros desejam assistir a algo único no ano que são os famosos desfiles das escolas de samba, eis que o desconforto causado pela falta de luz torna-se tão insuportável a ponto de bastarem algumas horas sem energia para transtornar a vida do consumidor. Ainda mais quando o indivíduo acaba acordando de madrugada porque o ar condicionado deixou de funcionar graças aos maus serviços da AMPLA/ENEL.

Sendo assim, sugiro que todas as vezes quando houver queda de energia, os consumidores da ENEL imediatamente enviem um torpedo SMS de seus celulares para o número 27389 com o texto: FALTADELUZ mais a tecla espaço e mais o código do cliente sem o dígito. Exemplo: "FALTADELUZ 0000000". Pois é mais prático do que acionar a central de atendimento da empresa no 08002800120 (ou 08002824022 para celulares) que demora vários minutos para a atender através de um funcionário de carne e osso, sendo que, por SMS, o protocolo é enviado imediatamente para o aparelho móvel do consumidor.

Ainda que a AMPLA/ENEL, a princípio, não vá tomar as providências estruturais necessárias para reduzir a reincidência dos problemas de queda e de oscilação de energia que são muito comuns neste Município (e em outras cidades também), pelo menos o registro do protocolo vale como uma prova de que houve um contato do consumidor com a empresa, tornando-se relevante informá-lo à Justiça na hipótese da pessoa entrar com alguma ação de reparação de danos morais e/ou materiais. Inclusive porque a ANEEL, que é a agência reguladora do setor elétrico, exige que o usuário abra uma reclamação prévia junto à concessionária para tratar do problema.

Finalizando, gostaria de compartilhar o quanto considero importante que o consumidor fique ciente de seus direitos e comece a exercê-lo, o que, por sua vez, terá como efeito uma melhor prestação dos serviços na sua região. Pois é o que observo nos bairros mais nobres do Rio de Janeiro e de Niterói, por exemplo, onde há mais conhecimento por parte dos respectivos moradores os quais, na semana seguinte ao prejuízo, logo tratam de agendar uma consulta com os seus advogados para demandarem a LIGHT ou a AMPLA na Justiça.

Ótima noite de terça-feira para todos!

OBS: Ilustração acima extraída de https://www.mprs.mp.br/noticias/consumidor/36788/

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Papando goiaba



“Que seu alimento seja seu remédio e que seu remédio seja seu alimento” (Hipócrates)

Se o paraíso de Adão e Eva tivesse sido no Brasil ao invés do Iraque e, caso eles houvessem cometido o "pecado original" em fevereiro, provavelmente o fruto proibido seria uma deliciosa goiaba. E, como castigo, a mulher não sofreria das dores de parto, porém de uma tremenda prisão de ventre, o que para muitos seria bem pior.

Brincadeirinhas bíblicas à parte, confesso que, neste ano de 2018, dei sorte com os pés de goiaba que tenho plantados no quintal de minha casa em Muriqui. Pois, geralmente, minhas frutas ficam todas bichadas sendo impossível comê-las de olho aberto. Só que, por enquanto, nenhuma delas veio com alguma proteína animal de cortesia se mexendo, conforme a Mãe Natureza costuma me acrescentar.

Por coincidência, tenho nesta terra arenosa as duas qualidades de goiaba: a branca e a vermelha. Ficam bem no fundo do quintal e quase confrontando uma vila vizinha, cujo acesso se dá por uma rua perpendicular à minha. Só que, provavelmente, devido à má fama das bichinhas, não vejo nenhum morador de lá tentando pegar para si as goiabas daqui. Nem mesmo aquelas crianças mais arteiras...


Para quem não sabe, a diferença entre ambas as variedades de goiaba vai muito além da cor. E, de acordo com o portal Mundo Educação (clique AQUI para conferir), hospedado no UOL, a branca seria mais nutritiva do que a vermelha, exceto em termos de proteína. Ou seja, uma unidade de suas 120 gramas da branca contém 80,1 mg de vitamina C (quase o dobro da vermelha), 220 mg de potássio, 33,4 mcg de vitamina A e 16 mg de fósforo.

Fato é que tanto uma quanto a outra, assim como o delicioso tomate, fazem muito bem à saúde, sendo indicados para prevenir o câncer graças à presença de licopeno. Inclusive porque o meu quintal não recebe uma gota de agrotóxico! Pelo menos desde que vim viver aqui, em agosto de 2012, quando fui deixando a própria natureza revitalizar-se sobre uma terra que já não rendia praticamente nada de tão maltratada que estava.

Assim, seguindo os sábios ensinamentos do velho médico grego, considerado o "Pai da Medicina", e que viveu entre os séculos V e IV a.C., nada melhor do que fazermos do bom alimento o nosso remédio. E, por certo, as frutas vermelhas, a exemplo da nossa amiga goiaba, contém muitos antioxidantes que, de acordo com a nutricionista Talita Morbeck, são "capazes de evitar envelhecimento precoce, reduzir os riscos de diabetes, cânceres e doenças cardíacas".

Como tenho o título honorífico de cidadão mangaratibense e nasci dois anos após à fusão do Estado da Guanabara com o Rio de Janeiro (mesmo sendo um carioca "da gema"), creio que tenho direito também de me considerar um "papa-goiaba", que é a alcunha dada aos naturais ou residentes aqui do RJ. Trata-se, pois, de um termo hoje quase desconhecido pela população fluminense mais jovem, mas que já foi bem comum de se usar num passado não tão distante, quando os municípios do interior tinham uma economia essencialmente voltada para as atividades rurais e a goiabeira foi muito cultivada. Principalmente nas regiões de Campos dos Goytacazes e Baixada Fluminense.

Portanto, meus amigos, vamos aproveitar essa estação para comermos goiaba. Afinal, nada melhor do que ingerirmos alimentos in natura, como aconselham muitos nutricionistas.


Ótima segunda-feira a todos!

domingo, 11 de fevereiro de 2018

A questão dos assédios no Carnaval



Um tema que tem sido muito debatido nessa época festiva diz respeito aos assédios dos quais muitas mulheres se queixam, havendo hoje um forte movimento feminista a respeito. Tão importante quanto os governos alertarem à população sobre a necessidade das pessoas fazerem sexo seguro e de moderação no consumo de álcool, é conscientizar os foliões acerca da liberdade sexual alheia.

Inegável é que, durante o Carnaval, tornam-se frequentes tanto os registros de violência doméstica, envolvendo brigas conjugais, quanto os relacionados aos assédios. Durante os quatro dias de Carnaval de 2017, as denúncias de violência sexual contra as mulheres subiram quase 90% em todo o país!

Além das mulheres, sofrem também os LGBTs já que nem sempre há um total respeito pelas minorias sexuais. E, em matéria de homofobia, diga-se de passagem, que o Brasil é um dos campeões desse ranking vergonhoso, sendo um dos países que mais agride gays, o que acaba se manifestando numa maior proporção durante os tenebrosos dias de Carnaval.

Certamente que esses acontecimentos lamentáveis têm a sua origem na cultura machista ainda dominante na educação familiar de muitos rapazes que, por sua vez, é truculenta, intolerante e preconceituosa. Por mais que a mídia e alguns professores tentem passar novos conceitos, os pais pouco ensinam os filhos a respeitar a vontade da mulher e a conviverem com quem é diferente deles.

Neste sentido, há que se ampliar campanhas como Não é não que a TV tem facilitado a sua divulgação, as quais propõem uma reprovação da sociedade diante de condutas onde o homem começa a incomodar a mulher tentando, por exemplo, forçar um beijo, segurá-la ou passar a mão em seu corpo, o que já configura assédio. Pois, a partir daí, torna-se cabível a Polícia e as pessoas próximas intervirem em defesa da vítima a fim de que o agente cesse de imediato a sua atitude inconveniente e abusiva.

Vale lembrar que, recentemente, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) também se manifestou acerca do tema. Na semana passada, o órgão lançou uma campanha sobre direitos e deveres do folião nas redes sociais com a hashtag #carnavalmaisjusto em que cada dia será dedicado a um tema: do assédio sexual à importância do uso de camisinha e os cuidados com a criança. E, em primeira postagem, o CNJ faz um alerta especial às mulheres com esta orientação: 

"É sempre bom lembrar que depois do 'NÃO' é tudo assédio! E não se esqueça: em qualquer situação de violência contra a mulher, disque 180".


Apesar das condutas de assédio, em diversos casos, caracterizarem crime, considero muito mais importante que se invista na conscientização da sociedade em geral. Daí fazermos com que o agressor consiga repensar as suas atitudes e valores terá efeitos muito mais eficazes do que uma atuação estatal repressiva. Esta precisa existir, porém nunca separada de uma abordagem pedagógica e que também dê um apoio correto à vítima, sem culpá-la de qualquer ato provocador.

Que tenhamos um Carnaval mais justo em 2018!

OBS: Imagens acima atribuídas á Agência CNJ, conforme extraído das redes sociais de internet em https://www.facebook.com/cnj.oficial/ 

Apesar do Carnaval, somos ainda um povo muito reprimido...



Quem pouco conhece sobre a realidade brasileira do cotidiano e/ou acerca da sexualidade humana, poderá chegar a equivocadas conclusões de que somos um povo liberado pelo simples fato de uma parcela da população brincar no Carnaval a ponto de sambarem quase nuas. Daí tanto os estrangeiros como os próprios brasileiros podem construir essa falsa impressão. Uns por não saberem como de fato é o Brasil e outros por acharem que liberdade sexual se explique pelo comportamento permissivo que muitos têm no Carnaval.

Mas se você acha que "não existe pecado do lado de baixo do equador", como diz a música feita em 1973 por Chico Buarque e Ruy Guerra, enganou-se. Aliás, diga-se de passagem que a principal frase do frevo, que vez ou outra ainda se ouve no Carnaval dos nossos dias, não foi uma invenção original dos compositores. Pois cuida-se de um antigo ditado europeu surgido ainda na primeira metade do século XVII, como bem explica Natália Pesciotta numa postagem feita no site Atrás da música:

"Chico encontrou o antigo ditado europeu no livro do seu pai, Raízes do Brasil. Sérgio Buarque de Holanda observa, na obra, que a máxima corria pela Europa e foi registrada pelo cronista Barlaeus em 1641. O holandês explicava: “É como se a linha que divide o mundo em dois hemisférios também separasse a virtude do vício”. Claro. Ocupado por desbravadores com espírito de aventura, este trópico era visto no Velho Mundo como verdadeiro antro de perdição. Já para os estrangeiros exploradores, estas terras sem instituições sociais nem religiosas eram o paraíso da utopia e liberdade, onde nada era proibido." - extraído de http://atrasdamusica.tumblr.com/post/93062884100/não-existe-pecado-do-lado-de-baixo-do-equador

Pode ser que, nos velhos tempos da colonização das Américas, a liberdade sexual ainda fosse maior no lado de cá da linha do Equador. Até porque o nosso índio e o negro cativo, este trazido para trabalhar nas lavouras de cana-de-açúcar, ainda não tinham assimilado os valores distorcidos de uma cultura adoecida. E a Europa daqueles tempos, profundamente religiosa, nada tinha a ver com o brilhante continente no qual ela foi se tornando a partir do pós-guerra, onde hoje a ética decorre da racionalidade, não mais da moral eclesiástica.

Fato indiscutível é que a moral dominante por aqui (e em outros países latino-americanos também) encontra-se bem distante do racional. Para muitos, o desejo sexual está relacionado ao "pecado" ou à "safadeza", não como uma expressão natural e positiva do próprio ser humano. É como a psicóloga Regina Navarro Lins acertadamente expôs em seu blogue no UOL ao comentar sobre a empobrecida educação sexual das crianças dentro de casa capaz de causar uma distorção nos valores:

"O sexo é ainda tão reprimido, tão cheio de tabus e preconceitos, que ninguém tem muita clareza do que realmente gosta ou deseja. Desde cedo, as crianças aprendem a associar sexo a algo sujo, perigoso. E dentro das famílias essa ideia ainda ganha um reforço. Por conta de todos os preconceitos, se vive como se não existisse sexo, e ninguém fala com tranquilidade sobre o assunto. Sem ser percebida, a repressão sexual vai se instalando e condiciona o surgimento de valores e regras para controlar o exercício da sexualidade. Tudo isso passa a ser visto como natural, fazendo parte da vida (...) Não é de admirar, portanto, que tanta gente renuncie à sexualidade ou que a atividade sexual que se exerce na nossa cultura seja de tão baixa qualidade. Na maioria das vezes ela é praticada como uma ação mecânica, rotineira, desprovida de emoção, com o único objetivo de atingir o orgasmo o mais rápido possível." - in https://reginanavarro.blogosfera.uol.com.br/2013/11/23/consequencias-do-sexo-reprimido/

Dentro desse contexto, não é muito difícil compreender o que realmente ocorre nessa época onde o ser humano, que é ambíguo por natureza, pode experimentar algo diferente do que habitualmente faz nos demais dias. Para algumas mulheres, por exemplo, o Carnaval torna-se um momento único, aguardado ansiosamente durante 360 dias do ano, tornando-se uma chance de viajar, fantasiar-se, sentir-se livre, conhecer novas pessoas, beijar na boca… e transar.


Não é por menos que, como escrevi na postagem do último sábado (10/02) em meu blogue (clique AQUI para ler), os governos precisam investir de maneira ampla e sem preconceitos na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, tendo em vista a incidência maior do sexo casual por esses dias de festa. Daí não há como um gestor público, seja qual for seu pensamento quanto à sexualidade, negar o fato social porque as coisas não vão mudar de uma hora para a outra como gostaríamos que fosse.

Todavia, há que se investir na educação sexual dos futuros jovens a fim e que os mesmos não criem tantas expectativas nos curtos dias de folia. Pois as pessoas que se relacionam causalmente nesta data, em regra, não tendem a estabelecer algo proveitoso para as suas vidas de modo que poderiam lidar melhor com o Carnaval caso, durante todo o resto do ano, soubessem ter vivências prazerosas que as equilibrassem melhor em relação ao sexo.

Que nesses dias de festa, possamos encontrar um significado proveitoso no Carnaval, no sentido de agirmos com mais moderação em todas as atitudes (inclusive no consumo do álcool) e extraindo o melhor da cultura sambista. Algo que, aliás, está se perdendo ano após ano diante dos horrorosos funks proibidões e de outros gostos musicais de má qualidade. Mas aí já será assunto para um novo texto...

Feliz Carnaval!

sábado, 10 de fevereiro de 2018

As pessoas (e os governos) não podem esquecer do sexo seguro no Carnaval!



O Carnaval está aí e, junto com a festa, muitos são os que praticam o chamado sexo casual ao invés de divertirem-se com o(a) companheiro(a). Porém, longe de mim a pretensão de me meter na vida particular das pessoas ou de ficar dando lições de moral acerca de algo, a meu ver, com baixo potencial de prejudicar terceiros não envolvidos numa relação a dois.

Sendo assim, pensando como se estivesse no lugar de um gestor público, prefiro repassar orientações voltadas para o fato social estabelecido, tendo em vista que, por esses dias, muitas pessoas vão transar pra valer com sérios riscos de contraírem uma gravidez não planejada e/ou uma moléstia sexualmente transmissível, inclusive AIDS. E, deste modo, nunca se pode negar a realidade de que, segundo a OMS, surgem cerca de 12 milhões de casos de DSTs só no Brasil...

Para que as pessoas não entrem nessa lamentável estatística e nem se arrependam pelo resto de suas vidas por causa de uns instantes passageiros de prazer, nunca é demais elas levarem consigo a popular camisinha. Pois, como se sabe, é um objeto que, praticamente, não pesará na bolsa e tão pouco no bolso. Aliás, se for usada de maneira correta, importará numa enorme economia financeira bem como num alívio para a mente, poupando o corpo de vários sofrimentos indesejáveis.

Na atualidade, em que o sexo já não é mais destinado apenas para fins reprodutivos e a maioria das pessoas tem o prazer como sendo o maior foco nas suas relações com o(a) parceiro(a), o uso de pílulas e de preservativos se faz mais do que obrigatório em termos éticos. E, em se tratando de algo casual (sem estabilidade e confiança), mesmo sendo com conhecidos, a camisinha não pode ser dispensada, independentemente da mulher fazer uso de alguns anticoncepcionais, tipo as pílulas, ou o homem haver feito uma vasectomia. E vale dizer que muitos, por haverem se tornado incapazes de gerar filhos por razões cirúrgicas, acabam não se cuidando mais e contraem HIV, sífilis, herpes genital ou gonorreia.

Todavia há que se usar o preservativo corretamente! Daí a importância de que, além de uma ampla distribuição da camisinha nas unidades de saúde, sejam transmitidas orientações para ambos os sexos sobre como fazer uso dessa proteção. Até mesmo porque muitos jovens e adolescentes poderão estar oportunizando o momento permissivo do Carnaval para terem as suas primeiras relações sem a experiência necessária quanto a isso, desconhecendo a maneira como vão colocar...

Sendo assim, quem fizer uso do preservativo, principalmente nós homens, devemos nos certificar do seu prazo de validade, se há o selo do INMETRO, ou se existe alguma danificação capaz de causar o seu rompimento durante o ato. Não podemos guardá-lo em lugares inadequados como no porta luvas do carro ou na geladeira porque, em se cuidando de locais muito quentes ou frios, a segurança do produto pode ficar comprometida.

Deste modo, deve-se entender que o aprendizado sobre como colocar a camisinha é fundamental, sendo algo que não pode deixar de ser ensinado tanto em casa quanto na escola. Inclusive, até as mocinhas adolescentes e que pretendem se casar virgens (ou virar freiras) precisam saber disso visto que poderão mudar de ideia a qualquer dia e nem sempre vão contar exclusivamente com os cuidados preventivos do rapaz por elas escolhido. Logo, é importante informar todas as mulheres acerca da opção pelo preservativo feminino e como usá-lo em seu corpo.


É certo que há vantagens e desvantagens quanto à camisinha feminina e uma delas é o preço que acaba sendo mais caro que o do preservativo masculino. Só que, dependendo do caso, tendo em vista ainda existirem homens obtusos e que se recusam a usar camisinha, a mulher precisa exercer um certo comando num momento que as coloca numa situação de vulnerabilidade. Sem esquecermos de que, na hipótese de alergia ao látex, o poliuretano não causa reações no corpo da usuária, além de abranger uma área maior de contato genital. 

Obviamente que há muitas outras orientações práticas que os órgãos de saúde e educadores precisam repassar sobre essas questões, tipo como proceder se a camisinha estourar ou vazar, a necessidade de não demorar a retirar o preservativo após a ejaculação (antes que o pênis perca a ereção) ou de trocá-lo, caso um outro orifício seja penetrado. Sem esquecer de que, sem a proteção do preservativo, nenhum ato penetrativo deve ser praticado, sendo a masturbação a dois mais aconselhável do que o sexo oral nesse contexto de casualidade. Ou então, se não houver entendimento, o imediato encerramento do ato para que ninguém venha a cair na tentação ou se expor ao assédio de ceder a algo contra a sua vontade.

Certamente que já entramos aqui numa complexa questão cultural, muitas das vezes de caráter machista, a qual também se manifesta nesse período do Carnaval juntamente com o consumo desenfreado do álcool. E aí o fato das pessoas beberem demais, propicia um comportamento sexual de risco. Principalmente quando alguém se embriaga sozinho e acaba entrando de cabeça na curtição a ponto de não tomar os devidos cuidados.

Por último, ninguém pode se esquecer de que hoje em dia, com a popularização dos celulares com câmeras de vídeo e acesso à internet, os tempos de privacidade acabaram. Deste modo, sem que o homem ou a mulher percebam, eles poderão estar sendo filmados em seus atos de intimidade e, quando menos esperam, terão as suas imagens indevidamente divulgadas no meio eletrônico pela iniciativa de indivíduos mal intencionados.

Portanto, quem for pular Carnaval, brinque com moderação e segurança, sendo certo que a alegria da festa independe do álcool nem do sexo casual. Porém, se for sair para transar, então que vista corretamente a camisinha ou use a imaginação.

Quanto aos governantes, que deixem de lado as suas falsas questões morais e promovam uma ampla campanha em favor do sexo seguro. Afinal, o SUS gasta muito menos distribuindo camisinhas do que fornecendo medicamentos para portadores do HIV, além da vida humana não ter preço... 

Ótimo domingo a todos!