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sábado, 28 de dezembro de 2013

A privatização das rodovias e o esquecido cicloturismo




Recentemente, mais uma rodovia federal foi leiloada. Trata-se da maior parte BR-040 (cerca de quase 940 quilômetros), a qual liga o Rio de Janeiro a Brasília atravessando Minas Gerais. Desta vez, foi o grupo Invepar quem venceu a concorrência sendo certo que o trecho que vai do Rio até Juiz de Fora (MG) já é administrado pela iniciativa privada desde a década de 1990, através da concessionária Concer.

Atendendo às exigências estabelecidas pelo governo, estão previstos investimentos na ordem de R$ 1,64 bilhão pela duplicação de 714,5 quilômetros de estrada da cidade de Luziânia (GO) a Paraopeba (MG); do entroncamento com a BR-365 (trevo Ouro Preto) até Barbacena (MG); e de Oliveira Fortes (MG) a Juiz de Fora. O edital determina que a duplicação desses trechos deverá estar concluída nos primeiros cinco anos da concessão. Entretanto, há outras obrigações da empresa para os primeiros cinco anos como a de implantar 59 interseções, 41 passarelas, 56 melhorias em acesso e 148,2 quilômetros de vias marginais em travessias urbanas. Nos 30 anos de concessão, o investimento será de R$ 7,2 bilhões.

Sinceramente, não sou contra que as rodovias sejam entregues à iniciativa privada desde que possamos usufruir de serviços de qualidade que proporcionem mobilidade, conforto e segurança aos usuários. Tendo em vista que uma expressiva parcela da produção agrícola e industrial do país é transportada por meio de caminhões nas rodovias, toda a nossa economia tende a ganhar com as melhorias previstas. Lembremos, por exemplo, de quem faz comércio exterior e depende do transporte terrestre para exportar/importar.

No entanto, faço uma crítica quanto ao fato do governo não ter incluído neste e em outros editais de privatização das estradas a construção de uma faixa cicloviária, o que considero fundamental para alavancarmos o turismo neste nosso Brasil. Trata-se, pois, de considerarmos uma tendência cada vez mais crescente no continente europeu onde os governos dos países membros da UE têm desenvolvido vários trajetos ciclísticas por lá.

Assim, a ciclovia Paneuropa tomou isso como exemplo e ligou diversos caminhos ciclísticos a uma rota de Paris até Praga. Ao todo são 661 quilômetros! Quem já viajou pra Alemanha sabe como o país de Angela Merkel é bem desenvolvido no que diz respeito ao transporte alternativo, fontes renováveis de energia e preservação do meio ambiente. E, se pararmos para refletir, a América do Sul pode e deve seguir esta mesma tendência, sendo certo que o nosso potencial de exploração turística é enorme. Logo, nessa onda de de investimentos em rodovias, pode-se muito bem adotar uma nova visão de Brasil.


OBS: Imagem extraída do site da Agência Brasil de Notícias em http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-08-15/dilma-nega-que-plano-de-concessao-de-rodovias-e-ferrovias-seja-privatizacao

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O que Jesus disse e ainda não conhecemos?




Na fase conclusiva sobre o estudo que fiz neste ano de 2013 sobre o Evangelho de Lucas, deparei-me com alguns questionamentos na internet acerca do período de 40 dias em que Jesus teria permanecido com seus discípulos transmitindo-lhes supostos ensinamentos não divulgados pelos textos canônicos. Embora o referenciado livro bíblico não dê nenhuma indicação de tempo, sabemos pela leitura de Atos dos Apóstolos, uma continuação do 3º Evangelho, que, até o momento de sua ascensão, nosso Senhor havia dado "mandamentos por intermédio do Espírito Santo". E isto realmente abre espaço para várias indagações. Principalmente quando, na literatura não oficial (tida por "apócrifa" pela ortodoxia cristã), encontramos referências a uma suposta "doutrina secreta" do Mestre.

De acordo com algumas histórias, Jesus teria estado com seus seguidores por dezoito meses (Adversus Haereses I 3:2) enquanto que, em outras, o tempo total das aparições do Cristo ressurreto duraram quinhentos e quarenta e cinco dias (Ascensão de Isaías 9:16). Já o Pistis Sophia, um livro "gnóstico" combatido pelo apologeta Irineu de Lyon no mencionado Adversus Haereges (literalmente Contra Heresias), informa que esse espaço de tempo foi de longos doze anos, cerca de quatro vezes o ministério terreno do Senhor na Palestina. E, neste contexto, há quem acredite ser as sentenças do Evangelho de Tomé a reunião dessas "últimas palavras" do Salvador.

Seja como for, o certo é que há inúmeras especulações acerca desses ensinamentos "misteriosos" em que hoje pesquisadores científicos e amadores esforçam-se por restaurar a partir de fontes encontradas/recuperadas pela Arqueologia. O fato do catolicismo que se oficializou em Roma no século IV ter destruído inúmeras obras reputadas como "heréticas" tem levado muitos nessas últimas décadas a alimentarem a crença de que, procedendo assim, aproximarão do que teria sido o cristianismo primitivo ainda mitologizado como um modelo perfeito de Igreja.

Considerando a decepção que há hoje em dia com o meio religioso, tanto entre evangélicos como no catolicismo, com sacerdotes acusados de corrupção e de pedofilia, consigo compreender melhor o porquê dessa busca por um outro cristianismo. Contudo, fico a indagar se o aprendizado de um novo conteúdo informativo fará uma diferença substancial para a humanidade. Questiono se muitos não estariam querendo fazer dos livros redescobertos pela Arqueologia uma espécie de "pílula" para resolverem essa necessidade de orientação/conhecimento espiritual quando, na verdade, podemos encontrar Deus dentro de nós mesmos e sermos guiados pelo seu Espírito Santo.

Não pretendo de modo algum desestimular as pesquisas arqueológicas, históricas e teológicas sobre o outro cristianismo que de fato existiu nos primeiros séculos da nossa era e foi tão perseguido pelos católicos antigos. Muito pelo contrário! A ampliação da nossa enciclopédia sempre haverá de ser algo proveitoso para os mais diversos fins e a e a humanidade tem o seu direito de saber. Paulo mesmo orientou os tessalonicenses que examinassem tudo retendo o que fosse bom (1Ts 5:21). Somente não concordo que a mera leitura de qualquer escrito, por si só, promoverá uma experiência transformadora. E digo isto até mesmo em relação à Bíblia que considero a minha bússola da qual não me desfaço por mais que a ciência avance e várias concepções filosóficas modernas tenham surgido. As Escrituras Sagradas continuam sendo minha companheira de todas as horas e que não deixo aberta num dos Salmos pegando poeira na estante, mas consulto frequentemente.

Voltando a Lucas, consta no verso 45 do capítulo 24 que Jesus abriu o entendimento dos discípulos para que eles compreendessem as Escrituras. E, deste modo, falando numa linguagem popular, penso que a experiência da ressurreição fez "cair a ficha" no coração deles. Os ensinamentos transmitidos durante a vida terrena do Mestre, nem sempre bem compreendidos, começaram então a fazer sentido juntamente com uma nova maneira progressista de interpretação da Bíblia. Lembremos também da palavras dos anjos ditas às mulheres quando foram ao sepulcro levar aromas (Lc 24:5-9) e dos dois discípulos de Emaús (24:30-31). Foi o que tratei nas penúltimas postagens e que se referem ao capítulo final do 3º Evangelho.

Respondendo à pergunta formulada no título deste artigo, eu diria que há ainda muita coisa que hoje precisamos conhecer para darmos um salto de qualidade na nossa caminhada espiritual. Falo em conhecer não apenas com a mente, mas num sentido espiritualmente mais íntimo. Pois não basta alguém simplesmente decorar um conteúdo ou entendê-lo pelas razões da lógica. Deve-se buscar uma experiência com a Palavra da mesma maneira que um homem só conhece a sua esposa quando se relaciona com ela na privacidade matrimonial dentro de um contexto verdadeiramente amoroso.

Sendo assim, precisamos aprender mais sobre o amor fraternal através da prática de atos condizentes com este princípio basilar que rege toda a Lei de Deus e sua aplicação.

Precisamos desenvolver um profundo sentimento de respeito pela Vida que há em nós, no nosso semelhante e também nos seres das outras espécies, pois só assim estaremos verdadeiramente reverenciando o grande Arquiteto do Universo.

Precisamos entender que somos todos iguais em direitos e, portanto, devemos saber partilhar o nosso excedente com quem tenha falta de alguma coisa.

Precismos tomar a consciência de que todos cometemos erros de modo que não podemos ser tão intolerantes, arrogantes e julgadores quanto às falhas dos outros.

Precisamos enfrentar com fé os desafios que se apresentam no nosso cotidiano ao invés de alimentarmos dentro de nós o medo, a inútil ansiedade e a paralisia espiritual que é a falta de esperança.

Precisamos sentir fome e se de justiça, esforçando-nos coletivamente para construir um mundo melhor para a nossa geração e dos nossos descendentes mesmo que não venhamos a ter filhos biológicos.

Precisamos ter a simplicidade de uma criança arrancando de dentro todo o orgulho que nos mata interiormente e impede que contemplemos as coisas do Reino de Deus.

Precisamos não abandonar a vigilância e nem a rotina oracional afim de estarmos sempre prontos para uma boa obra e olhando para os acontecimentos em nossa volta na perspectiva do Cristo, sendo certo que o nosso Jesus sempre buscou cumprir fielmente a vontade do Pai.

Tudo isso e muito mais encontra-se suficientemente documentado nas palavras atribuídas ao Mestre Jesus, o qual, por sua vez, soube dar um adequado significado à Lei de Moisés e aos Profetas numa sensível conexão com o tempo. E, se formos competentes em assimilar a essência dos ensinamentos que ele nos deixou (não basta apenas alguém memorizar), promoveremos uma diferença transformadora neste planeta gestificando a Mensagem pelas ações realizadas.

Que o Espírito de Deus nos ilumine!


OBS: A ilustração acima trata-se de um manuscrito do Evangelho de Lucas datado do século III. Encontra-se na Chester Beatty Library, Dublin, Irlanda. Extraí a foto do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:P._Chester_Beatty_I,_folio_13-14,_recto.jpg

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

Pessoas que ficam deprimidas no Natal




Não pretendia escrever mais nada no blogue até passar o Natal, mas senti no coração o desejo de postar um novo texto aqui. Isto porque tenho encontrado pessoas deprimidas na atual época do ano, o que muito chamou a minha atenção por estes últimos dias.

Por que num período festivo desses alguém se sente tão mal a ponto de, por exemplo, trancar-se num quarto ou afogar a cara num copo de bebida alcoólica? Qual a razão do Natal ser uma data tão difícil para alguns e, ao mesmo tempo, uma celebração maravilhosa para outros?

Pessoas que são muito alegres, ou mais ligadas à religião, como é o meu caso, costumam se chocar quando se deparam com casos assim e, por isso, têm dificuldades para compreender a dor do outro. Recordo que, quando ainda morava na cidade serrana de Nova Friburgo, no centro-norte do estado do Rio de Janeiro, estranhava o fato de muitos jovens passarem o resto da madrugada do dia 25 num evento secular chamado Rock Noel. Tão logo terminavam a ceia natalina, eles se dirigiam para a tal balada que, durante anos seguidos, foi realizada no tradicional Nova Friburgo Country Clube.

Contudo, os encontros do Natal, quase sempre estabelecidos pela moral social, expõem a falência dos relacionamentos em muitas famílias da nossa sociedade. O momento faz com que, ao rever o parente, alguns acabem se recordando de traumas passados em relação a pai, mãe, irmãos, avós, tios, padrasto e madrasta, bem como os sogros e cunhados. Então, inconscientemente, há quem busque na droga da bebida um tipo de anestesia para suportar o momento sendo que, não raramente, a convivência indesejada acaba resultando em brigas violentas e boletins de ocorrência policial. E, neste sentido, os que trocam o lar por uma noitada na boate estariam encontrando um meio de escaparem do assédio provocado pelo familiar que nem sempre sabe conviver respeitando as escolhas e o modo de ser do outro.

Quem sou eu para julgar e condenar meu próximo?! Prefiro procurar entender do que jogar pedra. Mas da mesma maneira como existe gente que se sente mal por estar em família, outros se deprimem porque já não possuem mais a companhia dos seus parentes que partiram. É o que costumo verificar entre os mais idosos de modo que o Natal faz com que velhinhos solitários se lembrem do antigo mundo que tinham num período passado. Mostram assim certa dificuldade em lidar com o perecimento formal das coisas e em se fixarem no que é eterno.

Finalmente, resta considerar os que gastam quantias bem elevadas para o padrão econômico que têm e acabam ficando frustrados bem como endividados. Deixam-se levar pelo comportamento consumista perdulário e a aquisição de bens acaba não proporcionando a felicidade que tanto desejam achar. Esquecem, porém, de procurar dentro de si, em suas consciências, pois é muito mais cômodo qualquer um se iludir achando que a fonte de águas vivas esteja no carro novo ou na TV de plasma com alta resolução.

Creio, meus amigos, que as pessoas estão se esquecendo facilmente do verdadeiro sentido do Natal que está em Jesus Cristo. Lendo a Bíblia, verificamos que a vinda do Salvador ao mundo foi motivo de grande alegria e de louvor a Deus. Quando os pastores receberam o anúncio do anjo do Senhor, este assim proclamou:

"Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo; é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor" (Lc 2:10-11; ARA)

Também o coro celestial entoou esta bênção no verso 14 do mesmo capítulo 2º de Lucas:

"Glória a Deus nas maiores alturas,
e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem."

Quando colocamos Cristo nas nossas vidas, podemos encarar as festividades do Natal e todos os demais momentos numa outra perspectiva. Com Cristo, passamos a perdoar e também reeditar as memórias ruins lidando melhor com o passado. O outro já não é mais visto como o nosso adversário e, sim, como um ser humano carente de Deus. Uma ovelha que, como nós, está buscando chegar ao aprisco do qual se perdera. Então, se vamos a uma celebração natalina na casa de alguém, fazemos isso como uma tarefa missionária. O foco passa a ser alcançar vidas e não a nossa própria curtição.

Igualmente a ausência física das pessoas queridas já não é mais fonte de tristezas porque passamos a enxergar a existência pelo ângulo multidimensional da eternidade. Podemos amadurecer, enterrar nossos pais, envelhecer e sofrer uma perda tipo a partida prematura de um filho ou do cônjuge amado. Só que nada disso deve ser motivo de infelicidade pois a realização plena de cada um de nós encontra-se em nosso Criador. É o que aprendemos com Cristo que soube fazer de Deus o seu Pai.

Embora já tenha desejado a todos os leitores meus votos de feliz Natal, quando concluí na data de ontem o meu estudo bíblico sobre o Evangelho de Lucas escrevendo sobre a ascensão de Jesus, reitero agora o desejo já expresso no final da postagem anterior. Acrescento um forte abraço a todos vocês e que tenham momentos de muita paz, muita luz e experimentem o amor de Deus.


OBS: Foto extraída de uma página do jornal Tribuna do Norte com atribuição de autoria a Alex Régis conforme consta em http://tribunadonorte.com.br/noticia/christmas-blues-a-depressao-natalina/206998

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

Com Jesus Cristo para sempre!



"Então, os levou para Betânia e, erguendo as mãos, os abençoou. Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu. Então, eles, adorando-o, voltaram para Jerusalém, tomados de grande júbilo; e estavam sempre no templo, louvando [e bendizendo] a Deus. [Amém]" (Evangelho de Lucas, capítulo 24, versículos de 50 a 53; versão e tradução ARA)

Por coincidência ou não, estou concluindo esse estudo bíblico sobre o Evangelho de Lucas justamente na época do Natal. Num momento em que se convencionou comemorar a chegada do Salvador ao mundo, venho falar justamente de suas ascensão entendida por muitos como a partida de Cristo para o Pai.

Logo que me tornei um leitor da Bíblia, aos dez anos de idade (1986), sentia uma certa tristeza quando, num estudo sequencial, alcançava esta parte dos evangelhos em que Jesus, aparentemente, separa-se de seus seguidores. Nem toda a brutalidade da crucificação era capaz de causar uma emoção tão nostálgica pois tinha a consciência de que o Senhor ressuscitou e ainda passou um tempinho de quarenta dias instruindo os seus discípulos (At 1:3). Porém, como a companheira leitura do livro terminava com a ascensão, batia logo uma tremenda saudade do seu principal personagem. Pra mim, era como seu eu houvesse caminhado junto com ele, viajado de barco pelo Mar da Galileia, ouvido as suas belas pregações, presenciado os milagres e participado de todas as "aventuras" narradas ali nos textos sagrados.

Hoje em dia, no entanto, guardo uma outra visão a respeito da ascensão. Principalmente quando fico a meditar no estado emocional daqueles discípulos que retornaram para Jerusalém jubilosos e não entristecidos. Aliás, tão pouco encontravam-se solitários, sem rumo, com dúvidas ou perturbados como lido nos versos 37 a 38 deste último capítulo. Podemos dizer que o psicológico deles todos estava então restaurado quanto às lembranças das trágicas experiências relativas à prisão, ao julgamento e à angustiante morte de Jesus.

Chego a concluir, meus amados, que a ascensão não foi encarada pelos discípulos como uma despedida. A ressurreição do Senhor proporcionou-lhes uma visão multidimensional da existência confirmando que nem tudo termina com o falecimento do corpo. Mais do que isso, Jesus mostrou ser possível vencermos a morte abolindo de vez a separação que o próprio homem acabou criando em relação à Vida por causa da alienação produzida pelo pecado. Só que, em Cristo, compreendemos o perdão gracioso e a amplitude da eternidade de modo que nos tornamos livres do obscurantismo no qual a humanidade meteu-se num dia de sua história.

Tal como se iniciou, o 3º Evangelho termina com um culto no Templo de Jerusalém. Em paralelo à figura do sacerdote Zacarias, pai de João Batista, encontramos ao final da narrativa Jesus Cristo impetrando sua bênção. Bênção esta que vem de um sumo sacerdote ordenado para sempre afim de nos assistir diante do Pai.

Assim, a recém-nascida Igreja já não tinha mais motivos para cultivar a solidão. Com Cristo agora presente nas consciências de cada irmão, os discípulos poderiam caminhar progressivamente livres de qualquer confusão mental (conferir o artigo "apalpai-me e verificai"). Embora houvesse terminado a obra como o Jesus de Nazaré, o Cristo continuaria as suas realizações por intermédio do corpo eclesiástico estando conosco em todas as eras. Sempre presente no transformador trabalho missionário para o qual somos comissionados.

Um feliz Natal para todos com as bênçãos de Deus em Cristo Jesus!


OBS: A ilustração acima refere-se aos azulejos da Freguesia portuguesa de Lama, pertencente ao Concelho de Barcelos, Distrito de Braga, na sub-região do Cávado, norte do país. A autoria da foto é atribuída a José Olgon (2011) e foi extraída do acervo virtual da Wikipédia, conforme consta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Lama_Barcelos-Ascensao.jpg

domingo, 22 de dezembro de 2013

Compreendendo as Escrituras



"A seguir, Jesus lhes disse: São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos ao terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão dos pecados a todas as nações, começando de Jerusalém. Vós sois testemunhas destas coisas. Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade [de Jerusalém], até que do alto sejais revestidos de poder." (Evangelho de Lucas, capítulo 24, versículos de 44 a 49; versão e tradução ARA) 

Nos estudos a respeito do capítulo 9º do 3º Evangelho, vimos que, quando Jesus pré-anunciou aos discípulos os eventos principais de sua Paixão, o entendimento deles encontrava-se ainda fechado para o recebimento daquela mensagem (9:45). E tal situação permaneceu até o momento em que o Senhor ressuscitou dentre os mortos e se apresentou aos seus seguidores, sendo o episódio dos dois discípulos no caminho de Emaús (24:13-35) um forte exemplo em forma de narrativa.

A questão posta pelo autor sagrado no texto citado acima diz respeito à obra missionária do Cristo. Jesus não correspondeu ao que as pessoas em geral esperavam acerca do Messias. Nas palavras dos dois discípulos que se afastavam de Jerusalém em direção à aldeia onde residiam, as expectativas de suas mentes estavam voltadas para a vinda de um líder que fosse redimir a Israel (24:21). Ou seja, eles se encontravam ainda presos à figura de um libertador político. Ansiavam por alguém talvez semelhante ao rei Davi que derrotaria os invasores romanos e devolvesse a soberania à nação judaica inaugurando, de imediato, uma nova era planetária.

De fato, dependendo da maneira como alguém lê e interpreta as Escrituras Hebraicas (o Antigo Testamento) que, no cânon do judaísmo, divide-se em Torá, Profetas e Escritos, realmente nos deparamos com várias passagens capazes de levar o leitor a identificar a obra do Mashiach dentro da perspectiva do parágrafo anterior. Assim sendo, como os discípulos aceitariam a ideia de que a salvação pudesse vir através da morte do Cristo? Isso seria demasiadamente frustrante para um povo que já não suportava mais ser massacrado em seu próprio território por estrangeiros que exploravam e humilhavam os israelitas tratando-os como escravos. Certos trechos da Bíblia existente naquela época, como a profecia do servo sofredor de Isaías 53 e alguns versos do livro dos Salmos, não satisfaziam as necessidades materiais dos contemporâneos de Jesus.

Todavia, a ressurreição do Senhor fez com que o entendimento dos discípulos finalmente se abrisse e estes pudessem compreender qual o significado de cumprir as Escrituras dentro do tempo no qual viviam. Pois tendo em vista que as gerações se sucedem, nem sempre a atitude certa a ser tomada numa determinada época deve corresponder literalmente à mesma conduta dos nossos antepassados em sua exteriorização, muito embora a essência dos atos praticados nunca se altere. Deste modo, o Mestre veio ensinar os seus seguidores a interpretarem a Lei progressivamente de acordo com os tempos. Algo que, num determinado momento, a cúpula oficial da Igreja não suportou dar continuidade quando os antigos padres resolveram então estabelecer a ortodoxia cristã e o fundamentalismo religioso.

Certamente que a mensagem bíblica de todas as eras (e que foi continuada por Jesus) jamais pode ser entendida como uma coisa estanque visto que ela evolui com o tempo e vem de encontro às necessidades de cada época. Por isso, o Salvador foi a resposta não só para a sua geração como também para os antepassados de seu povo e ainda para a posteridade na qual nos incluímos. Aliás, a própria profecia que referenciei acima, escrita séculos antes do Natal, faz menção expressa disso (conf. Is 53:10).

Outrossim, Jesus mostrou que ninguém, nem os sacerdotes saduceus e tão pouco os escribas dos fariseus, detinham o monopólio da revelação. Esta pode ser apreendida pelo homem comum do povo como eram os seus discípulos formados por pescadores analfabetos e também em grande parte pelas tão desprezadas mulheres do século I. Consequentemente, já não precisariam obter reconhecimento dos conselheiros do Sinédrio, ou de qualquer outro colégio teológico, pois a recém-nascida Igreja, a partir daí, poderia buscar a interpretação das questões por ela enfrentada com a mesma força dos textos bíblicos básicos através da consciência do Messias existente em todos nós.

Como consequência dessa revolucionária maneira de pensar, os discípulos passaram a ter uma nova tarefa que marcaria o ministério eclesiástico em sua bimilenar existência. Eles receberam a missão de pregar o arrependimento para remissão de pecados "a todas as nações" (v. 47). Em outras palavras, não deveriam permanecer mais restritos ao mundo cultural-religioso de origem. Ainda que começassem a anunciar o Evangelho em Jerusalém, no Templo e nas sinagogas, o novo comissionamento teria como foco a humanidade inteira, incluindo os não judeus.

Tendo se tornado testemunhas do Senhor, aqueles primeiros discípulos deveriam então agir iguais ao Mestre no manejo das Escrituras, o que significa também testemunhar as coisas que Deus tem feito. Isto ocorreria através do dom do Espírito Santo, a promessa feita pelo Pai (conf. com Jl 2:28-32; At 2:1-4) e, desta maneira, os seguidores de Jesus experimentariam em breve um revestimento de poder que os capacitaria para transmitir as boas novas do Reino em todas as nações. Quando interpretassem as Escrituras diante dos desafios do presente, as posições da Igreja gozariam de autoridade espiritual, desde que realizadas em Cristo obviamente.

É certo que tanto a institucionalização eclesiástica quanto o fundamentalismo bíblico causaram enormes desvios nessa caminhada progressiva. Muitos dentro do próprio cristianismo tentaram apagar a tocha da reforma de Cristo Jesus que foi a mesma carregada pelos profetas, por Moisés e pelos patriarcas hebreus. Entre os que tiveram essa chama acesa em seus corações, inúmeros deles acabaram se queimando como hereges nas fogueiras dos inquisidores até hoje entre nós tentando patrulhar o pensamento. Contudo, a revelação jamais morreu fazendo-se viva na consciência de todo indivíduo que busca a vontade de Deus.

Portanto, meus irmãos, oremos para que o Espírito abra o entendimento da Igreja neste século XXI afim de que possamos compreender realmente as Escrituras (e a Jesus) e venhamos a encarar vitoriosamente os desafios apresentados em cada novo momento.

"(...) apalpai-me e verificai (...)"



"Falavam ainda estas coisas quando Jesus apareceu no meio deles e lhes disse: Paz seja convosco! Eles, porém, surpresos e atemorizados, acreditavam estarem vendo um espírito. Mas ele lhes disse: Por que estais perturbados? E por que sobem dúvidas ao vosso coração? Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. Dizendo isto, mostrou-lhes as mãos e os pés. E, por não acreditarem eles ainda, por causa da alegria, e estando admirados, Jesus lhes disse: Tendes aqui alguma coisa para comer? Então, lhe apresentaram um pedaço de peixe assado [e um favo de mel]. E ele comeu na presença deles." (Evangelho de Lucas, capítulo 24, versículos de 36 a 43; versão e tradução ARA)

Abordamos nos dois últimos estudos bíblicos sequenciais do 3º Evangelho o quanto os seguidores do Mestre andavam incrédulos a respeito de sua ressurreição ocorrida no primeiro Domingo de Páscoa. O contato que Maria Madalena e as outras mulheres tiveram com os anjos no sepulcro foi considerado um "delírio" ou "tolice" pelos apóstolos (24:11), conforme visto no artigo "Ele não está aqui, mas ressuscitou". Somente Pedro teve a iniciativa de correr até lá (v. 12) e, embora não saibamos todos os detalhes de sua experiência, a narrativa de Lucas informa ter ele ficado "maravilhado". Depois, com o retorno dos discípulos de Emaús, o relato acrescenta que o Senhor já teria aparecido a Simão (v. 34).

Entretanto, Jesus mostrou-se surpreendentemente compreensivo quanto à incredulidade dos discípulos ainda que não aprovasse tal comportamento incrédulo. As primeiras palavras por ele dirigida aos seguidores reunidos (a futura Igreja) foi uma tranquilizadora mensagem de paz (v. 36). Algo que corresponderia ao termo shalom utilizado comumente nas saudações judaicas. Trata-se de um vocábulo que, traduzido do hebraico para o português, significa um desejo de saúde, harmonia, paz, bem-estar e de bênçãos a quem o cumprimento é dirigido.

Se bem refletirmos, não teremos dificuldades para configurar qual o estado emocional das pessoas naquele final de domingo de acordo com o texto. Deste modo, acredito que, devido aos fortes acontecimentos relativos à morte de Jesus, a maioria ali realmente se achava com medo, dúvidas, precisando de orientação e também de receber algum conforto. Como prosseguir a partir de então sem a presença física do Mestre?!

A crença em ressurreição e espírito era algo aceito entre muitos judeus do século I ainda que os corruptos saduceus rejeitassem a ideia (Lc 20:27). Assim, admitir a eternidade da alma de Jesus, ou que seu espírito pudesse ter sido visto por alguém, não seria novidade para aquela comunidade de seguidores. Afinal, alguns dos grandes líderes da história de Israel, como Moisés e Elias, também partiram de um modo sobrenatural e já não estavam mais entre o povo, exceto os ensinamentos que deixaram.

Ao se apresentar ao grupo, Jesus pediu para ser tocado e apalpado. Mostrou-lhes seus braços e pernas, bem como ainda pediu algum alimento sólido para ingerir no meio de todos. Sua resposta foi que um espírito não possui corpo (v. 39).

Não pretendo aqui perder tempo empreendendo teses sobre como seria o corpo do Cristo ressurreto. Buscar satisfazer a nossa curiosidade carnal querendo entender como ressuscitam os mortos seria uma insensatez na esclarecida visão de Paulo (1ªCo 15:35-36). Daí alimentar indagações desse nível faz com que permaneçamos na superfície da narrativa bíblica de modo que prefiro meditar nos elevados ensinamentos que a mensagem contida no texto acima citado pode nos proporcionar para fins de edificação.

Uma ideia que o autor sagrado me transmite seria sobre o Cristo que se faz presente nas nossas vidas. Nas inúmeras situações que enfrentamos, quer nos encontremos tristes, ansiosos, abalados emocionalmente, com a fé enfraquecida, desesperançados, perseguidos, sentindo medo e até em pecado, jamais estamos sozinhos. Semelhantemente o mesmo se dá nos momentos de alegria e vitória. O Cristo que se deixa tocar e faz uma ceia em nosso meio também é o Cristo que participa da experiência cotidiana de todos nós e deseja que a sua Igreja também aja assim através do companheirismo fraterno tão esquecido nesses últimos dias.

Por mais que sejamos homens limitados, Deus pode fazer com que, em nossos encontros pessoais, a consciência do Messias se presentifique viabilizando a continuidade da caminhada por nós empreendida. Pois tendo em vista que somos seres ambíguos, com ânimo e humor oscilantes, ainda dependentes de resultados positivos nas obras feitas, eis que andar com Cristo em comunidade torna-se a orientação acertada afim de vencermos a hostilidade do mundo com sua bênção de paz.

Nos anos recentes em que as reuniões eclesiásticas foram recebendo uma alta dose de mistificação, muitas vezes até fraudulentamente, creio ser importante a valorização do relacionamento amoroso entre os irmãos. Os encontros da Igreja não podem virar espetáculos e nem se restringir a uma fria formalidade litúrgica. Devemos desenvolver o companheirismo que aprendemos em Cristo Jesus passando a nos importar mais e a cuidar melhor das pessoas próximas, as quais Deus coloca em nosso caminho para convivermos. Portanto, sejamos verdadeiros amigos de oração, de evangelismo, de aconselhamento e de luta por justiça social, construindo o Reino de Deus através das relações que vamos estabelecendo.

Uma ótima semana a todos em Cristo!


OBS: A ilustração acima refere-se à obra do artista italiano Duccio di Buoninsegna (1255 — 1319), pintada entre os anos de 1308 a 1311, e que retrata a aparição de Jesus aos apóstolos. Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Duccio_di_Buoninsegna_017.jpg?uselang=ru

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Caminhando e conversando com Jesus




Uma das passagens que muio me toca no Evangelho de Lucas é a narrativa sobre os dois discípulos no caminho de Emaús, a qual se encontra nos versos de 13 a 35 do capítulo 24. Como vimos no último estudo bíblico, Jesus havia ressuscitado de modo que as mulheres que o seguiam desde a Galileia, quando foram ao túmulo, encontraram o local vazio. Só que os apóstolos não acreditaram nos relatos delas, considerando tal experiência um "delírio" ou "tolice" (Lc 24:11).

Assim, dois discípulos de Jesus resolveram retornar para a casa no primeiro Domingo de Páscoa, caminhando de Jerusalém até uma antiga aldeia de localização até hoje inexata em que a narrativa bíblica diz ficar numa distância de "sessenta estádios" da Cidade Santa (v. 13). Ou seja, cerca de dez quilômetros no atual sistema de medidas. E, ao que me parece, ambos estariam também se afastando do colégio de discípulos e da fé em Cristo. Tanto no sentido físico como no espiritual.

O texto sagrado nos relata que, enquanto andavam pela estrada, conversavam sobre as coisas que tinham acontecido com Jesus. Estavam, evidentemente, entristecidos e sem esperança. Demonstravam uma incompreensão acerca da obra redentora realizada pelo Mestre e, assim como os onze apóstolos (Judas já não fazia mais parte), também não deram crédito ao testemunho das mulheres já que alguns discípulos foram até o sepulcro e nada encontraram de excepcional (v. 24).

Um outro viajante aproximou-se da dupla durante a caminhada, colocando-se ao lado deles. Era o Senhor Jesus já ressuscitado, mas ambos não conseguiram reconhecê-lo de imediato. Agindo terapeuticamente e com uma pedagogia magistral, o Mestre então lhes perguntou acerca da conversa que levavam entre si e qual o motivo daquele estado emocional negativo que expressavam. Criou deste modo uma oportunidade para que se abrissem e, com paciência, soube ouvi-los.

Interessante lermos nas nossas bíblias que, assim como os dois não estavam reconhecendo a Jesus, seus olhos espirituais também permaneciam fechados para a realidade por trás dos fatos que tinham presenciado em Jerusalém. Os rígidos conceitos sedimentados em suas mentes sobre a vinda do Messias, alimentando a expectativa de um livramento político da nação israelita em relação aos romanos, bloqueava-lhes o entendimento quanto à necessária morte do Senhor na cruz conforme era previsto há séculos em Isaías 53.

Amorosamente, Jesus passou a explicar qual seria a missão do Cristo conforme as Escrituras Hebraicas sem revelar aos dois viajantes a sua identidade. Como um bom professor, o Mestre parecia fazer uso de um instigante método indutivo de aprendizado afim de que os seus discípulos exercitassem a capacidade de reformulação da própria percepção da realidade. Permitiu que os destinatários de sua mensagem fizessem uso da reflexão e desenvolvessem a fé.

Todo o diálogo ocorrido naquela caminhada parecia não ter sido ainda suficiente para alargar a visão dos dois discípulos por mais que os seus corações ardessem como nos revela o texto (v. 32). Só que as palavras do Mestre não foram ditas em vão. Jesus sabia como conduzir a situação e, quando chegaram nas proximidades da aldeia, o Senhor disse que continuaria adiante (v. 28). Então, como se tratavam de dois sujeitos piedosos e acolhedores, convidaram o Mestre para albergar-se na casa deles. Certamente estavam também desfrutando de uma agradável companhia e devem ter encontrado em sua sabedoria o direcionamento de vida que tanto precisavam.

Curioso que não foram os hospedeiros mas, sim, o hóspede quem partiu o pão durante a refeição daquela noite (o sol já poderia estar se ponto no finalzinho daquele domingo). Isto porque, se não fosse o anfitrião quem repartia o alimento, as únicas pessoas que agiriam de tal forma apenas poderiam ser um pai de família ou um mestre. Porém, aquela iniciativa fez com que fosse lembrado o gesto ocorrido na Última Ceia (Lc 22:19) de maneira que, finalmente, conseguiram reconhecer a Jesus.

Ora, deve-se indagar por que, no momento em que foi identificado, o Senhor desapareceu no meio daquela dupla? Penso que este outro fato da narrativa também tem os seus motivos dentro do contexto literário e a minha suposição é que seria necessário Jesus deixá-los a sós na casa afim de que continuassem a buscá-lo. Por isso decidiram retornar imediatamente para Jerusalém e, novamente, juntarem-se à comunidade apostólica, a qual veio a formar a futura Igreja semanas depois.

Como podemos verificar no texto bíblico, é na congregação reunida que as experiências são partilhadas e somadas para a edificação de todos. Aprendemos que a vida cristã é um projeto coletivo e jamais individual. Ainda que, circunstancialmente, as pessoas  fiquem afastadas do convívio fraternal (Paulo permaneceu anos de sua vida trancado em cadeias), Jesus nos mostra que o caminho certo está no andarmos juntos, prosseguindo rumo ao propósito messiânico de construção do Reino de Deus na conflituosas relações humanas. Amando verdadeiramente aquelas duas ovelhas que se desviavam, as quais poderiam ser dois irmãos ou até um casal, o nosso Bom Pastor foi buscá-las dando-nos o exemplo de liderança e de cuidado para que façamos o mesmo.

Quantas vezes não temos algum irmão na fé que, devido a um desentendimento, um acontecimento ruim em suas vidas, ou até mesmo uma decepção dentro da Igreja, acabam então se afastando? Nessas horas, ao invés de fofocarmos nocivamente, devemos é nos colocar ao lado dessas almas como fez Jesus. E, na nossa abordagem, não cabe fazer julgamentos ou tratarmos a pessoa com superioridade moral. Precisamos ter a capacidade de dialogar de igual para igual, dando atenção à dor, à confusão mental e ao medo que o outro sente. Só assim é que auxiliaremos o nosso companheiro de caminhada a recuperar o seu propósito e voltar "para Jerusalém".


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro Caminho de Emaús pintado em 1877 pelo artista suíço Robert Zünd (1826-1909). A obra encontra-se atualmente no Kunstmuseum St. Gallen, Suíça. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Z%C3%BCnd_Gang_nach_Emmaus_1877.jpg

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

"Ele não está aqui, mas ressuscitou"



"As mulheres que tinham vindo da Galileia com Jesus, seguindo, viram o túmulo e como o corpo fora ali depositado. Então, se retiraram para preparar aromas e bálsamos. E, no sábado, descansaram, segundo o mandamento. Mas, no primeiro dia da semana, alta madrugada, foram elas ao túmulo, levando os aromas que haviam preparado. E encontraram a pedra removida do sepulcro; mas, ao entrarem, não acharam o corpo do Senhor Jesus. Aconteceu que, perplexas a esse respeito, apareceram-lhes dois varões com vestes resplandescentes. Estando elas possuídas de temor, baixando os olhos para o chão, eles lhes falaram: Por que buscais entre os mortos ao que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou. Lembrai-vos de como vos preveniu, estando ainda na Galileia, quando disse: Importa que o Filho do Homem seja entregue nas mãos de pecadores, e seja crucificado, e ressuscite no terceiro dia. Então, se lembraram das suas palavras. E, voltando do túmulo, anunciaram todas estas coisas aos onze e a todos os mais que com eles estavam. Eram Maria Madalena, Joana e Maria, mãe de Tiago; também as demais que estavam com elas confirmaram estas coisas aos apóstolos. Tais palavras lhes pareciam como um delírio [ou tolice], e não acreditaram nelas. Pedro, porém, levantando-se, correu ao sepulcro. E, abaixando-se, nada mais viu, senão os lençóis de linho; e retirou-se para casa, maravilhado do que havia acontecido." (Evangelho de Lucas 23:55 – 24:12; versão e tradução ARA)

Vimos no último estudo bíblico que José de Arimateia havia tirado o corpo de Jesus da cruz, envolvido-o num lençol de linho e fez o sepultamento num túmulo aberto em rocha (Lc 23:53). Soubemos também pela narrativa do 3º Evangelho que as mulheres que seguiram o Senhor desde a Galileia acompanharam todas as etapas do sofrimento do Mestre rumo ao Calvário. Agora, porém, elas serão as primeiras testemunhas da ressurreição e para tanto tomaram nota do lugar onde o corpo fora colocado afim de retornarem após o término do sábado.

Entretanto, como também havia compartilhado no estudo anterior, as circunstâncias não permitiram que Jesus viesse a ter um funeral. Por mais que fosse louvável a atitude dessas valorosas discípulas, todos os preparativos feitos por elas acabaram sendo desnecessários. Quando chegaram ao local, o Mestre já tinha ressuscitado.

Curioso foi que Jesus, antes mesmo de empreender a sua última peregrinação da Galileia até Jerusalém, havia predito a sua morte e ressurreição (9:22), o que se repetiu novamente no caminho para a Cidade Santa (18:31-33). E o autor bíblico não deixou de registrar a lentidão dos discípulos homens em acreditarem na ressurreição sendo certo que eles nada entendessem a este respeito porque "o sentido destas palavras era-lhes encoberto" (18:34). Em tal caso, o medo, ou, quem sabe, o sentimento de insegurança de ficarem sem o Mestre, impedia-lhes de tirar suas dúvidas. Afinal, era um assunto que, talvez, parecesse ao mesmo tempo tão metafórico quanto real de modo que devesse ser mais cômodo não obterem a confirmação do que temiam. Suponho que resolveram pensar que todo aquele papo de morte fosse mais num sentido figurado e acabaram esquecendo-se das palavras ditas anteriormente pelo Senhor.

"Como todos se maravilhassem de quanto Jesus fazia, disse aos seus discípulos: Fixai nos vossos ouvidos nas seguintes palavras: o Filho do Homem está para ser entregue nas mãos dos homens. Eles, porém, não entenderam isto, e foi-lhes encoberto para que o não compreendessem; e temiam interrogá-lo a este respeito." (9:43b-45)

Esta bem poderia ser uma análise freudiana do episódio bíblico já que o pai da psicanálise afirmava serem todos os esquecimentos intencionais. Mas a demora aqui está relacionada à lembrança de uma notícia feliz - a ressurreição. E suponho que, quando Jesus predisse a sua morte, as mentes de seus seguidores ficaram tão atordoadas que eles se bloquearam tornando-se incapazes de ouvir atentamente o restante da mensagem, a qual falava de vida e de um final feliz.

Interessante lermos nas entrelinhas que as mulheres estavam mais atentas e receptivas ao novo do que os discípulos homens. Os apóstolos consideraram a versão delas fantasiosa como se as mentes de todas tivessem produzido um alucinante equívoco quando foram até o túmulo. Não souberam ouvi-las conforme deveriam e permaneceram por um tempo apegados a enrijecidos conceitos sobre a existência humana.

Todavia, Pedro saiu apressadamente em direção ao sepulcro. Justamente ele, o único dentre os apóstolos que havia negado confessionalmente a Jesus por três vezes (22:54-62), parece ter sido o primeiro varão a crer nas boas novas anunciadas pelas mulheres. E, uma vez confirmando a notícia, maravilhou-se com o ocorrido (24:12).

Suponho que nenhum outro milagre de Jesus tenha superado a experiência da ressurreição sem a qual a sua obra ficaria incompleta. Aquela foi uma verdadeira lição de esperança em relação à vida pois revela ser a morte física de todos nós uma mera aparência sem nenhum poder sobre a alma eterna. Além do mais, o fato do Mestre ter ganhado um novo corpo (transformado) veio nos ensinar sobre a plenificação do Reino de Deus entre a humanidade porque voltaremos a viver e somos convocados a fazer parte de uma era futura que aguarda pela necessária renovação planetária. Por isso é que precisamos trabalhar firmemente pela concretização desse ideal através do Evangelho de Cristo cujas sementes foram plantadas há dois mil anos pelo nosso Senhor.

Verdade é que nada pode matar essa esperança de um novo amanhecer. A realidade não se restringe às dimensões da fisicalidade limitadas pelos nossos cinco sentidos. Nosso Pai Eterno é Deus de vivos e não de mortos como Jesus bem havia respondido aos saduceus (20:37-38). Portanto, se somos chamados para a eternidade, precisamos conceber a existência a partir deste ponto de vista revolucionário e darmos um novo sentido a tudo o quanto fazemos aqui.

Finalmente, não podemos deixar de valorizar o papel das mulheres em todos os eventos relacionados à Paixão de Jesus (sua prisão, julgamento, crucificação e ressurreição), o que foi contado em todos os quatro evangelhos. A demora dos apóstolos em dar crédito ao testemunho delas expressa de certa maneira a lentidão de uma sociedade patriarcal em abrir seus espaços para a participação feminina. Até hoje, nas comunidades eclesiásticas e na hierarquia das instituições cristãs, as discípulas do Senhor ainda encontram dificuldades semelhantes para se posicionarem. Em diversas denominações, esse direito nem chega a ser reconhecido tendo se tornado hoje uma forte reivindicação entre os católicos. Porém, aprendemos com a memória da ressurreição do Senhor sobre a importância da cooperação dos dois sexos nesse contínuo caminhar em direção a um futuro mais justo, pacífico e solidário, onde o cuidado e a compaixão para com o próximo tornam-se valores centrais.


OBS: A ilustração acima refere-se à obra Mulheres no túmulo vazio do artista italiano Giovanni da Fiesole, nascido Guido di Pietro Trosini, sendo mais conhecido como Fra Angelico (1387 — 1455). A pintura encontra-se na cidade de Florença e estima-se que tenha sido concluída entre os anos de 1437 a 1446, final da Idade Mèdia. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Fra_Angelico_019.jpg

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Manifestações pró-globalização na Ucrânia




Venho acompanhando as notícias sobre as manifestações na Ucrânia, as quais são contra as aproximações econômicas com a Rússia e propõem um acordo comercial do país com a União Européia. Centenas de milhares de pessoas têm comparecido à Praça da Independência, em Kiev, na capital, pedindo a demissão do então presidente Viktor Ianukovych. Os protestos já duram cerca de três semanas!

Embora existam várias outras questões em pauta, entre elas a defesa de um regime de governo mais justo e honesto bem como o fim da violência usada pela polícia durante os protestos, fico a indagar se, realmente, esses manifestantes não estariam trocando o seis por meia dúzia quando reclamam da rejeição de um acordo de cooperação com os europeus. Não que a Rússia seja maravilhosa e a UE o simbolize o capeta. Mas fico surpreso com o fato dessas vozes na Ucrânia parecem não estar refletindo o suficiente sobre o que significa ser periferia numa economia de mercado globalizada. Uma vez ingressando no bloco, eles teriam uma inserção ativa e proveitosa para a maioria da população?!

Verdade é que a Ucrânia encontra-se no meio de uma disputa geopolítica entre duas potências econômicas. Algo que tem sua origem na história recente do país nascido após a desintegração da ex-URSS. Não foi por menos que o presidente russo, Vladimir Putin, chegou a dizer que os movimentos políticos na Ucrânia seriam uma tentativa de abalar os governantes legítimos da nação e alegando que:

"Isso não é uma revolução, mas um protesto muito bem preparado que, na minha opinião, não estava preparado para hoje, mas... para a campanha eleitoral presidencial (da Ucrânia) em março de 2015 (...) Esta é uma tentativa de abalar os atuais e - quero enfatizar - legítimas autoridades no país"

Contudo, a TV brasileira pouco tem mostrado que, por trás dessas manifestações, está a extrema-direita. Seriam os ultranacionalistas, os quais se formaram após a Revolução Laranja (2004/2005), liderados por Oleh Tyahnybok. E também existe uma outra agremiação de extrema-direita, o Bratstvo ("irmandande"), que estaria instigando os enfrentamentos com a polícia durante os protestos.

Tenho pra mim que as décadas de repressão política que a população ucraniana viveu debaixo do jugo da União Soviética acabaram alimentando mais ainda as ilusões do povo em relação ao capitalismo. Se pensarmos bem, países periféricos da UE, como Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda, têm sofrido com a recessão e a adoção de políticas contrárias aos interesses dos trabalhadores. Vale lembrar que, atualmente, os gregos estão das mãos de credores que exigem medidas impopulares como a demissão de dezenas de milhares de funcionários do setor público, o qual emprega cerca de 600 mil pessoas.


OBS: Foto acima extraída do site da rádio Voz da Rússia, conforme consta em http://portuguese.ruvr.ru/2013_12_15/Manifesta-es-na-Ucr-nia-9777/

Um gesto de fé e de amor



"E eis que certo homem, chamado José, membro do Sinédrio, homem bom e justo (que não tinha concordado com o desígnio e ação dos ouros), natural de Arimateia, cidade dos judeus, e que esperava o reino de Deus, tendo procurado a Pilatos, pediu-lhe o corpo de Jesus, e, tirando-o do madeiro, envolveu-o num lençol de linho, e o depositou num túmulo aberto em rocha, onde ainda ninguém havia sido sepultado. Era o dia da preparação, e começava o sábado." (Evangelho de Lucas, capítulo 23, versículos de 50 a 54; versão e tradução ARA)

Conforme tratamos no estudo anterior, Jesus havia morrido na "hora nova" da sexta-feira que correspondia às três da tarde. E, de acordo com a lei mosaica, o cadáver de um condenado à morte não poderia permanecer exposto no madeiro (Dt 21:22-23). O corpo do Mestre precisava ser enterrado antes do anoitecer e havia pouco tempo para isso. Até mesmo porque, com o por do sol, começaria o Shabat e ninguém mais poderia executar qualquer tipo de trabalho em cumprimento ao 4º mandamento.

Foi então que José de Arimateia, conselheiro do Sinédrio, teve a ousadia de ir até Pilatos pedir que lhe concedesse o corpo de Jesus. De acordo com o texto de Lucas, esse personagem, que só aparece no episódio do sepultamento (mas é citado nos quatro evangelhos), teria sido um "homem bom e justo". Informa ainda a narrativa que ele "esperava o reino de Deus", dando a entender o autor que se tratava de um discípulo do Senhor confirmando o relato de Mateus 27:57. Mesmo que o seguisse anonimamente de acordo com João 19:38.

Contudo, o 3º Evangelho parece reforçar a atitude de fé daquele homem quando diz não ter ele "concordado com o desígnio e ação dos outros". Assim, independe de ter estado ou não presente na reunião do Sinédrio que havia condenado Jesus (Lc 22:66-71), José veio a tomar uma posição bem clara e impossível de ser escondida. Ele proporcionou ao Mestre um sepultamento digno, não permitindo que fosse enterrado numa cova qualquer. Tendo envolvido o corpo num lençol de linho, depositou-o num túmulo novo "aberto em rocha". Fez ele uma doação exclusiva que, indubitavelmente, só estaria ao alcance de pessoas ricas.

Embora hoje os funerais estejam perdendo a importância em nossa cultural ocidental, não era assim entre os judeus e ainda presenciamos honrarias semelhantes entre diversos outros povos (vejamos, pois, como foi demorada a despedida de Nelson Mandela neste mês de dezembro em África do Sul). A Bíblia diz que o patriarca Jacó, depois de embalsamado, foi chorado por setenta dias no Egito (Gn 50:3). Contudo, as circunstâncias não permitiram que Jesus viesse a ter um funeral por causa da chegada do sábado e da maneira fundamentalista como era observado o 4º mandamento pelos judeus do primeiro século.

De qualquer maneira, mesmo que aquele local tenha tornado a ficar vazio, a conduta de José não foi esquecida por nenhum dos quatro evangelistas. Quer fosse por sua fé corajosa, demonstrada mais por atitudes do que por palavras, e também pelo amor que devemos entender em conformidade com os valores culturais da época, sabendo ele dar as devidas honras a Jesus na medida de suas posses.

Igualmente vejo que também os nossos pequenos gestos de fé e de amor não ficam esquecidos diante do Pai Celestial. Deus conhece o coração de cada ser humano e se alegra quando seus filhos fazem a sua vontade cuidando fraternalmente uns dos outros das mais diversas maneiras. Mesmo quando estamos protegendo a honra de uma pessoa justa que já partiu, dando a ela o devido respeito e consideração. Independentemente da valorização da sociedade, seremos sempre reconhecidos diante do Pai pelo bem que praticamos.

Tenham todos uma excelente semana cheia das mais ricas bençãos dos céus!


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro A deposição da cruz do artista gótico flamengo Rogier van der Weyden, também conhecido como Rogier de Bruxelles, cujo nome verdadeiro era Rogier de la Pasture (1399/1400 - 1464). A obra encontra-se atualmente no Museu do Prado, Madri. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://commons.wikimedia.org/wiki/File:El_Descendimiento,_by_Rogier_van_der_Weyden,_from_Prado_in_Google_Earth.jpg

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

"Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito!"



"Já era quase a hora sexta, e, escurecendo-se o sol, houve trevas sobre a face da terra até à hora nona. E rasgou-se pelo meio o véu do santuário. Então, Jesus clamou em alta voz: Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito! E, dito isto, expirou. Vendo o centurião o que tinha acontecido, deu glória a Deus, dizendo: Verdadeiramente, este homem era justo. E todas as multidões reunidas para este espetáculo, vendo o que havia acontecido, retiraram-se a lamentar, batendo nos peitos. Entretanto, todos os conhecidos de Jesus e as mulheres que o tinham seguido desde a Galileia permaneceram a contemplar de longe estas coisas" (Evangelho de Lucas, capítulo 23, versículos de 44 a 49; versão e tradução ARA)

Interessante saborearmos na Bíblia como que a natureza participou da morte de Jesus. Conforme nos relatam o 3º Evangelho e também os demais sinóticos, teria ocorrido uma escuridão do meio dia ("hora sexta") até às três da tarde ("hora nona"). Um episódio que deve nos motivar para investigar não a sua historicidade, tipo se houve um eclipse ou não, mas, sim, qual a mensagem teológica existente por trás desta narrativa.

Se no batismo do Salvador o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele (Lc 3:21-22), eis que, no Calvário, o firmamento se fechou e o Filho entregou seu espírito ao Pai. Algo que nos lembra as trevas que antecederam a morte dos primogênitos do Egito (Ex 10:22) e também uma profecia de Amós dirigida a Israel, a qual assim diz:

"Sucederá que, naquele dia, diz o SENHOR Deus, farei que o sol  se ponha ao meio-dia e entenebrecerei a terra em dia claro. Converterei as vossas festas em luto e todos os vossos cânticos em lamentações; porei pano de saco sobre todos os lombos e calva toda cabeça; e farei que isso seja como luto por filho único, luto cujo fim será como dia de amarguras." (Am 8:9-10)

Teria essa escuridão sobrenatural uma conexão com algum julgamento divino? Bem, o texto dos evangelhos não nos explicam claramente o motivo, mas podemos entender que a alegria daquela celebração pascal em Jerusalém acabou sendo substituída por um luto pela morte de Jesus (Lc 23:48). Por outro lado, podemos ver nessas trevas a obscurecedora ignorância daqueles que pediram a condenação do Senhor. E, se rejeitaram ao Mestre, da mesma maneira que a geração de Amós não havia prestado a devida atenção ao seu profeta, eis que, em outras palavras, ficariam desorientados (Am 8:11-12). A opção por Barrabás representou a má escolha por um caminho de rebeldia contra o conquistador estrangeiro e que custou a destruição da Cidade Sagrada junto com o seu Templo.

A narrativa também nos fala do rompimento do véu do santuário, uma cortina que separava o inacessível compartimento do Santo dos Santos do restante do Templo pois era lá que ficava a Arca da Aliança, símbolo da Divina Presença, onde apenas o sumo sacerdote entrava uma vez ao ano para fazer a expiação pelos pecados no Yom Kippur ("Dia do Perdão"). Assim sendo, pode-se entender que o rasgo desse véu significou teologicamente a abertura do acesso entre os homens e Deus. É o que nos explica o autor da epístola anônima aos Hebreus ensinando que, ao ter sido ferido o corpo de Cristo, seu sangue nos abriu caminho para o santuário celestial. Com isso, tornavam-se inúteis os sacrifícios de animais realizados na época bem como todo aquele sistema penitencial que mantinha o corruptível sacerdócio sadoquita:

"Quando, porém, veio Cristo como sumo sacerdote dos bens já realizados, mediante o maior e mais perfeito tabernáculo, não feito por mãos, quer dizer, não desta criação, não por meio de sangue de bodes e de bezerros, mas pelo seu próprio sangue, entrou no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção (...) Porque Cristo não entrou em santuário feito por mãos, figura do verdadeiro, porém no mesmo céu, para comparecer agora, por nós, diante de Deus; nem ainda para se oferecer a si  mesmo muitas vezes, como o sumo sacerdote entra cada ano no Santo dos Santos com sangue alheio (...) Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de  Jesus, pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura." (Hb 9:11-12,24-25, 10:19-22)

Prosseguindo, não há no 3º Evangelho o desolado grito de abandono do Filho registrado em Marcos e repetido em Mateus. Em Lucas, o autor sagrado parece ter optado por não acentuar o quão terrível foi a morte de Jesus, mas deixou registrada o que pode ter sido a última oração do Mestre, dando a entender o reconhecimento por ele de que a sua morte estava de acordo com a vontade do Pai. Temos aí a citação re-significada de um trecho do Salmo 31 onde Davi exprimiu a sua fé em Deus mesmo diante das adversidades e da angústia.

O fato de Jesus ter recitado este poema bíblico, chamando Deus de "Pai" quando estava morrendo, sugere-nos um ensinamento que deve ser conservado no coração do crente nas vezes em que nos encontramos gravemente doentes ou sofrendo perseguições. Consideremos, pois, os sábios comentários do teólogo namibiano Paul John Isaak da Igreja Evangélica Luterana:

"As palavras finais de Jesus morrendo sobre a cruz Pai nas tuas mãos entrego o meu espírito! também refletem sua fidelidade. Imediatamente após pronunciar essas palavras ele expirou (23:46). Jesus encerrou seu ministério terreno com uma oração tranquila, extraída de Salmos 31:5: "Nas tuas mãos, entrego meu espírito; tu me remiste, SENHOR, Deus da verdade". Nesta oração, o crente declara sua absoluta confiança de que Deus o remirá. A versão de Lucas sobre a crucificação insiste em que Jesus confiou e teve fé em Deus até o fim. Após orar essas palavras, ele morreu. Deus nunca o perdeu de vista." (Comentário bíblico africano. São Paulo: Mundo Cristão, 2010, pág. 1279)

Sem dúvida essa é a preparação que necessitamos ter para enfrentarmos corajosamente a nossa passagem e também para fortalecermos os que estão prestes a partir por causa de alguma enfermidade ou acidente. Trata-se de uma situação com a qual muitos ainda não sabem lidar, quer sejam os próprios pacientes de um hospital ou os familiares do doente. Podemos e devemos orar pelo restabelecimento da saúde da pessoa, mas nunca nos esquecendo de que a morte física é um destino natural de todos. Um momento que precisamos encarar com fé e com esperança, colocando nas mãos de Deus tanto o corpo quanto a alma. O Eterno é fiel para nos salvar e não nos deixar perecer no mundo da inexistência.

Curioso é que, no Salmo, o escritor bíblico anteviu o livramento divino em seu favor não permitindo que ele fosse entregue aos seus inimigos (Sl 31:8). No Calvário, porém, o Mestre estava aparentemente nas mãos dos soldados romanos e dos seus opositores que dele zombavam (Lc 23:35-36). Se Deus protegeu Davi de Golias, dos exércitos dos filisteus, da cólera de Saul, da revolta de Absalão e das espadas de tantos outros adversários, eis que, desta vez, permitiu que Jesus viesse a ser morto pelos seus perseguidores. E penso que um bom aprendizado pode ser encontrado quando voltamos ao capítulo 12:

"Digo-vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer (...) Não se vendem cinco pardais por dois asses? Entretanto, nenhum deles está em esquecimento diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais! Bem mais valeis do que muitos pardais." (Lc 12:4,6-7)

Assim, podemos entender que, no Calvário, o Senhor nos ensinou sobre a vitória que seu discípulo tem sobre a morte. Pois, compreendendo a realidade dessa maneira multidimensional, tornamo-nos capacitados para encarar os mais diversos desafios que se apresentam, inclusive as ameaças e tribulações por causa do Evangelho. Nada poderá nos fazer o homem!

Até então, a situação aparente de abandono havia motivado a zombaria das autoridades e dos soldados em relação a Jesus. Entretanto, assim que o Mestre expirou, o centurião ali presente soube reconhecer a integridade do nosso Senhor. Aquele oficial romano, provavelmente o responsável pelo destacamento encarregado de executar a sentença injusta de Pilatos, foi capaz de confessar algo que, dificilmente, alguém diria acerca de um condenado conforme os valores daquela época. Isto porque, no entendimento comum das pessoas, um homem justo jamais poderia morrer daquela maneira porque a Divindade não permitiria. Logo, a cruz de Cristo veio inaugurar uma nova maneira de pensar e o primeiro a crer nesta mensagem desafiadora foi exatamente um estrangeiro. Alguém que podemos reputar por ignorante em relação às Escrituras Sagradas mas que agiu com sabedoria superior a muitos sacerdotes e escribas, os quais seriam os teólogos da época.

Quanto às multidões ali reunidas, a morte de Jesus provocou uma angustiosa perturbação a ponto das pessoas se auto-flagelarem batendo no peito. Tratava-se, assim, de um sinal de profundo lamento que parece ter tomado conta de todos. Porém, a narrativa nada diz acerca da reação tida pelos discípulos. Estes testemunharam "de longe" os acontecimentos juntamente com as mulheres que acompanharam o grupo desde a Galileia (v. 49).

Certamente que a morte de Jesus nos leva a refletir sobre o porquê da peregrinação que fazemos aqui nesta Terra. O Mestre não caminhou da Galileia para Jerusalém afim de cumprir com mais uma romaria religiosa. Ele veio entregar a sua vida numa cruz! Ali, como seus seguidores ainda distantes dessa compreensão, muitas das vezes contemplamos os fatos procurando entender qual o sentido dessa nossa missão. Aonde Deus pretende nos levar quando estivermos prontos?!

Muito aprendemos com as experiências daqueles primeiros discípulos que testemunharam o sacrifício de Jesus. Mas é certo que tudo o que hoje sabemos ainda deveria estar encoberto para eles de modo que, desde a prisão do Senhor, todos estariam profundamente abalados e precisavam se manter distantes talvez por motivo de proteção. Mas o dia ainda chegaria em que muitos daqueles seguidores também precisariam passar pela cruz. Deste modo, entendemos que, assim como o Salvador deu a sua vida para nos resgatar do pecado, da ignorância e da morte espiritual, também somos chamados para nos dedicarmos ao ideal amoroso de Cristo. Trata-se de cumprir aquilo que Paulo recomendou numa de suas cartas afim de que apresentemos os nossos corpos "por sacrifício vivo, santo e agradável a Deus" (Rm 12:1), o que, em outros temos, significa uma inteira submissão à vontade divina participando de sua obra.

Tendo essa visão, irmãos, não dá para permanecermos de braços cruzados enquanto tantas vidas se perdem por causa das drogas, da criminalidade, da violência, da miséria, da alienação espiritual, da falta de fé e de esperança. Precisamos sair e proclamar as boas novas do Reino de Deus, anunciando que um outro mundo é possível. Declarando o quanto é grandioso esse amor do Criador, o qual nos aceitou incondicionalmente. Graças a Jesus, podemos convocar todos os homens para que se aproximem de Deus com acessibilidade total e irrestrita, sabendo que serão acolhidos pelo Pai Eterno.

Um ótimo descanso semanal para todos!


OBS: A ilustração acima refere-se a quadro Morte de Jesus pintado pelo artista francês James Tissot (1836-1902). A Obra encontra-se atualmente no Museu do Brooklyn, Nova York. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Brooklyn_Museum_-_The_Death_of_Jesus_(La_mort_de_J%C3%A9sus)_-_James_Tissot.jpg

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

"Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino"




"Um dos malfeitores crucificados blasfemava contra ele, dizendo: Não és tu o Cristo? Salva-te a ti mesmo e a nós também. Respondendo-lhe, porém, o outro, repreendeu-o, dizendo: Nem ao menos temes a Deus, estando sob igual sentença? Nós, na verdade, com justiça, porque recebemos o castigo que os nossos atos merecem; mas este nenhum mal fez. E acrescentou: Jesus, lembra-te de mim quando vieres no teu reino. Jesus lhe respondeu: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso." (Evangelho de Lucas, capítulo 23, versículos de 39 a 43; versão e tradução ARA)

O 3º Evangelho nos fala com exclusividade de um diálogo que teria ocorrido na cruz envolvendo Jesus e dois outros homens que também tinham sido igualmente executados naquele mesmo dia junto com o Mestre. Embora haja quem considere não se tratarem de "malfeitores" propriamente ditos, mas, sim, de prováveis revoltosos contra Roma, talvez até membros do partido dos zelotes, pretendo seguir aqui o texto bíblico acima citado tirando dele o melhor proveito para a nossa edificação sem me preocupar com a exatidão de fatos históricos. Aliás, vale lembrar que muitos cometem crimes motivados por seus ideais políticos chegando a roubar, matar e praticar outros atos de violência/vandalismo por pensarem que os fins justificam os meios. Isto quando não são bandidos usando a máscara de rebeldes idealistas.

Assim como fizeram os soldados e a autoridades presentes no Calvário, um dos crucificados também zombava do Senhor. É possível que para ele Jesus fosse uma decepção nacional e o homem demonstrou incompreender o pacífico papel messiânico do nosso Salvador. Em sua visão estreita do Cristo, este deveria ter os poderes de um super herói e ser capaz de não permitir o seu sofrimento nas mãos do dominador estrangeiro.

A atitude daquele condenado lembra-me as temerárias orações que alguns líderes religiosos da atualidade instigam os seus seguidores a fazer. Isto porque já escutei certos pregadores falando na mídia que seus ouvintes tinham que "brigar com Deus", exigindo dos céus uma bênção conforme a interpretação bíblica que eles próprios fazem. Chegam, inclusive, a ameaçar sair do ministério, ou ainda largarem a fé, caso as pessoas convidadas para participarem de suas programações e campanhas religiosas não sejam beneficiadas.

Podemos dizer que aquele primeiro malfeitor na cruz estava tentando a Jesus da mesma maneira como o diabo tinha feito no deserto após o batismo de João (Lc 4:1-13). Ele não só questionou a identidade do Mestre como também queria impor uma condição para ter fé. Creria no Senhor desde que ele se salvasse dos romanos bem como a ele e a seu companheiro.

Ora, como pode haver fé sem sujeição à vontade divina?! Pois aquele que confia obedece. Assim, a conduta desse malfeitor expõe toda a incoerência dos que exigem um benefício de Deus para crer. Trata-se de um comportamento espiritualmente imaturo de quem se recusa a crescer. Mesmo estando nos últimos momentos para partir deste mundo.

Já o outro crucificado teve a atitude correta e soube reconhecer a sua condição. Foi apenado merecidamente pelos atos criminosos que praticara. Quer tenha sido ele um revoltoso político ou não, Roma condenou-o à morte porque, na certa, ele deve ter violado as leis imperiais. E, neste sentido, a conduta de Barrabás, informada em Lc 23:19, seria a chave para formularmos as hipóteses mais prováveis que expliquem o motivo de ambos estarem ali.

Reconhecer o próprio erro é um passo de fundamental importância para mudarmos de vida. Sem admitirmos essa verdade existencial a nosso respeito, a conversão não se opera de modo que continuamos impenitentes e perdidos dentro de falsas presunções. Tanto é que, na 1ª epístola de João, consta claramente que, se dissermos não ter pecado nenhum, caímos numa espécie de auto-engano (1ªJo 1:8).

Uma vez reconhecendo a condição na qual se encontrava, esse segundo malfeitor conseguiu ver toda a injustiça cometida no julgamento de Jesus. Foi quando ele declarou não ter o Senhor feito mal algum para ser apenado com a morte. O Mestre era inocente sendo que o próprio Pilatos já tinha admitido isso por três vezes conforme já foi abordado no artigo "Então, Pilatos resolveu atender-lhes o pedido".

Tendo ali confessado a sua culpa, o segundo crucificado submeteu-se então à autoridade de Cristo. Independente daquele estado no qual Jesus se achava, sendo torturado e humilhado numa cruz, o homem sentenciado passou a crer na existência de um outro reino além de Roma. Apesar daquela aparente derrota diante do conquistador estrangeiro que pisava a sua nação, ele foi capaz de perceber um triunfo eterno da justiça fazendo menção daquilo que sempre caracterizou o centro das pregações de nosso Senhor - a vinda do Reino de Deus. Encontramos no seu pedido uma alta dose de confiança ao invés de pensar que tudo fosse aniquilado com a morte física.

Por outro lado, sua oração expressa tudo o que um cristão sente ao se aproximar de sua passagem para o outro plano de existência. Trata-se de um pedido sincero de misericórdia para não ser abandonado confiando exclusivamente na graça já que o tal homem sabia estar despossuído de qualquer valor meritório que o justificasse.

A resposta de Jesus mostra-nos a extensão infinita dessa maravilhosa graça e de nossa aceitação incondicional por Deus. O Mestre lhe disse que, naquele mesmo dia, o homem estaria com ele no "paraíso", uma palavra de origem persa (avéstica) que, literalmente, quer dizer "jardim". Significa pois, no contexto bíblico, o lugar para onde as almas dos mortos justos iriam após o falecimento.

Observem que a aceitação da consciência daquele criminoso arrependido foi imediata e, como havia dito, incondicional. Jesus não lhe disse que antes fosse batizado, passasse por qualquer ritual religioso, frequentasse aulas numa escola bíblica ou reencarnasse por outras vezes para poder ascender ao paraíso. Suas confortantes palavras, mesmo se utilizando de uma figura mítica dos orientais para descrever o outro lado da vida, ensinam quando alguém entra na dimensão do Reino de Deus. O "hoje" pode muito bem significar aqui e agora de maneira que o verdadeiro estado paradisíaco é vivido na dimensão da eternidade e não exclusivamente no tempo futuro, o que deve revolucionar o modo como encaramos os desafios do presente. Mesmo sofrendo as consequências pelos erros praticados, como o cumprimento de penas legais, passa a existir um "jardim" no nosso interior.

Sem dúvida que essa passagem bíblica em comento ilustra a caminho salvífico de todos nós. Também nos mostra a exemplar missão de Jesus de resgate das pessoas rejeitadas pela sociedade, "dos publicanos e pecadores" (Lc 7:34) aos quais o Reino é graciosamente estendido. Algo que deve fazer com que os nossos corações transbordem de gratidão e de júbilo por mais uma comemoração natalina que se aproxima.

Muito obrigado, Jesus! Aleluia!


OBS: A ilustração refere-se ao quadro Jesus na cruz entre os dois ladrões do artista flamengo Peter Paul Rubens (1577-1640). A obra encontra-se atualmente no Museu Real de Belas Artes de Antuérpia, Bélgica. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia cnforme consta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Peter_Paul_Rubens_-_Christ_on_the_Cross_between_the_Two_Thieves_-_WGA20235.jpg

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Jesus também sofreu bullying




No estudo bíblico anterior, no qual escrevi sobre os versículos de 32 a 38 do capítulo 23 do Evangelho de Lucas, acabei focando mais num aspecto do episódio da crucificação relacionado ao perdão. Agora, porém, antes de prosseguir na leitura sequencial, pretendo refletir sobre outras questões encontradas no texto sagrado referenciado, as quais me despertaram um certo interesse e podem ser aplicadas a um tema muito debatido na atualidade - o bullying.

Curiosamente, com a inscrição da epígrafe zombeteira colocada na cruz, os próprios soldados romanos teriam formulado a identidade de Jesus como o "Rei dos Judeus" (v. 38). Também as autoridades [religiosas] ali presentes falavam do Mestre em tom de escárnio como sendo ele o "Cristo" e o "escolhido", muito embora o nosso Senhor jamais pareça ter referido a si próprio com qualquer um desses títulos, segundo os evangelhos sinóticos.

Não podemos nos esquecer que todos ali se encontravam debaixo do jugo opressor do Império Romano. Quer fossem os soldados ou mesmo os líderes religiosos que, na qualidade de sacerdotes, ou de escribas, eram conselheiros do Sinédrio (Lc 22:66). Pagavam caros tributos a um rei que maltratava e humilhava seus súditos conforme Jesus bem havia ensinado aos discípulos durante um momento íntimo da Ceia:

"Mas Jesus lhes disse: Os reis dos povos dominam sobre eles, e os que exercem autoridade são chamados benfeitores." (Lc 22:25).

De fato, o Salvador portava-se como um legítimo príncipe no meio de seu povo que, diferentemente dos monarcas deste mundo, resolveu compartilhar um reino conosco. Ele veio aqui para nos servir ao invés de ser servido e para isso deu a própria vida derramando a sua alma em amor naquela cruz. Propôs tratar o ser humano como seu amigo, seu igual, não um serviçal.

Apesar disso, muitos preferiram continuar como súditos de César. Aqueles que o crucificaram estavam, naquele momento, optando por uma condição não muito diferente do escravo. Aliás, não foi por menos que, certa vez, o psiquiatra austríaco Wilhelm Reich (1897-1957) assim teria escrito em seu manifesto Escuta, Zé Ninguém! publicado postumamente: "tu és o teu próprio [navio] negreiro".

Essa passagem bíblica sobre a zombaria que fizeram com Jesus na cruz faz-me lembrar de um tema muito debatido atualmente - o bullying. Recordo que sofri muito disso em meu tempo de escola por ter sido um aluno com um comportamento diferente da maioria. Só o fato de fazer perguntas frequentes ao professor e de mostrar interesse por determinados assuntos já causava uma reação entre os colegas de classe. Recebi muitos apelidos, vaias, comentários negativos sobre minha sexualidade, ameaças e até agressões físicas. Posso dizer que o convívio colegial foi um dos mais dolorosos momentos de minha vida assim como continua sendo para muitos estudantes do nosso país que não se encaixam no comportamento padronizado da maioria.

Ainda assim, nenhuma criança ou adolescente sofreu na escola uma brutalidade tão perversa quanto foi a cruz do nosso Senhor. Temos no Calvário um forte exemplo da covardia humana praticada por adultos e não pelas mãos de menores. Porém, como tratei na penúltima postagem deste blogue, Jesus foi capaz de compreender aquelas pessoas e perdoá-las.

Verdade é que quem pratica qualquer tipo de bullying está escarnecendo de si mesmo. A conduta é típica do indivíduo que recusa a enfrentar a própria realidade pois prefere viver atacando nos outros as coisas existentes na própria personalidade e que tanto o incomodam. O diferente faz com que o agressor se lembre do que ainda lhe falta e das dificuldades encontradas para obter determinadas conquistas pessoais.

Ora, Jesus era livre e a liberdade do Mestre perturbava muitos dos seus opositores. Nosso Senhor não precisava ficar medindo palavras para dizer o que fosse mais conveniente ou agradável aos ouvidos dos outros e nem dependia da manutenção de uma máscara/reputação no meio social. Suas atitudes muitas das vezes chocavam a opinião pública e, apesar de tudo, ele prosseguia sem se retrair. Nenhum bullying afastou-o do foco de sua missão resgatadora!

Assim como no episódio de Lc 4:1-13, abordado no artigo A importância das tentações na formação de um líder, Jesus parece ter sido novamente testado em relação à sua identidade para que demonstrasse poder publicamente salvando a si próprio. Ali as autoridades, os soldados e também um dos malfeitores crucificados (v. 39) quiseram instigá-lo para que resolvesse sair da cruz.

Se no deserto Jesus respondeu ao diabo fazendo menção reiterada das Escrituras Sagradas, eis que, na cruz, ele optou pelo silêncio. Embora se encontrasse fisicamente fraco, o seu interior não se abalou com aquelas palavras contra ele proferidas. O Mestre sabia que não precisava provar nada para ninguém e nem desejava criar nas pessoas uma fé infantil baseada em exibições de poder e/ou de força sobrenatural. Ele bebeu até o final do cálice que lhe era destinado por mais que a cruz fosse aos olhos dos outros a mais absoluta derrota.

Infelizmente, enquanto escarneciam de Jesus, nenhum dos zombadores conseguia ver a si próprio pendurado no madeiro. Quando o Império Romano crucificava alguém, estava, ao mesmo tempo, dando uma mensagem para os demais súditos e dizendo que todos também estavam sujeitos à mesma pena capital caso se tornassem insubmissos contra César. E, se considerarmos a morte como um "castigo" em decorrência do pecado, o que é admissível do ponto de vista teológico (Gn 2:17), quem ridicularizava Jesus estava tentando sem sucesso mascarar a sua impossibilidade de ser meritoriamente justificado perante Deus. É por este ângulo que podemos compreender a profecia de Isaías 53 cujos versos de 4 a 6 assim declaram:

"Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi transpassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniquidades; o castigo que nos trás a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos."

Realmente foi necessário Jesus passar por tudo aquilo sendo certo que a cruz inaugurou um novo tempo para toda a humanidade. Digo isto sem qualquer pretensão religiosa proselitista porque todas as culturas do planeta podem saborear com acessibilidade essa graciosa mensagem de amor e de perdão do nosso Salvador. Em Cristo Jesus, descobrimo-nos incondicionalmente aceitos por Deus e estamos em paz com o Criador. É o que pretendo abordar no próximo estudo de Lucas que fala dos dois malfeitores que foram crucificados com Jesus.

Encerro desejando uma ótima terça-feira para todos os meus leitores!


OBS: Ilustração acima de autoria desconhecida e utilizada em várias postagens e campanhas contra o bullying.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Valeu, Mandela!




"Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar." (Nelson Mandela)

Não é com uma amargurada tristeza, mas, sim, com enorme admiração, que me despeço de Nelson Mandela (1918-2013), o qual, sendo já farto de dias, com seus 95 anos, partiu deixando para todo o planeta um legado de luta social e de promoção da paz.

Apesar de ter governado a África do Sul como presidente, de 1994 a 1999, a história de Mandela chega a ofuscar o elevado cargo que ocupou. Aliás, pode-se dizer também que ele transcendeu as fronteiras de seu país por ter se tornado um líder global na defesa dos direitos humanos.

Para nós advogados, Mandela deve ser visto como um grande exemplo. Quer seja pelo seu esforço para conseguir se formar em Direito, devido à sua origem tribal, como também pelo fato de ter se dedicado à defesa dos interesses das coletividades oprimidas de seu país. Ou seja, ele escolheu ter como seus principais clientes justamente os seus irmãos negros, os quais não tinham tantos recursos para pagar por honorários profissionais no excludente regime segregacionista do Apartheid. E, neste sentido, Mandela foi um grande doador do seu talento e do tempo que dispunha a ponto de sofrer uma prisão que durou 27 anos.

Numa época em que parecem predominar na política pessoas medíocres, vejo em Mandela um ser excepcional. Alguém que marcou decisivamente o século XX na luta pelos direitos civis, ao lado de líderes inspiradores como Mahatma Gandhi (1869-1948) e Martin Luther King Jr. (1929-1968), mas que também teve a sensibilidade de trilhar o caminho do diálogo e da negociação. Chegando à Presidência, não abusou do poder a ponto de querer se vingar, mas soube conduzir a África do Sul rumo ao desenvolvimento, buscando superar as enormes dificuldades sociais e enfrentando os novos desafios que se apresentavam como o combate à AIDS.

Conforme a BBC de Londres, como seu epitáfio, Mandela havia um dia declarado que gostaria de ter escrito somente: "Aqui jaz um homem que cumpriu o seu dever na Terra". E, sem dúvida, que essa afirmação é condizente com a sua vida pública.


OBS: Foto extraída de uma página da Agência Brasil de Notícias.

"Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem"



"E também eram levados outros dois, que eram malfeitores, para serem executados com ele. Quando chegaram ao lugar chamado Calvário, ali o crucificaram, bem como aos malfeitores, um à direita, outro à esquerda. Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Então, repartindo as vestes dele, lançaram sortes. O povo estava ali e a tudo observava. Também as autoridades zombavam e diziam: Salvou os outros; a si mesmo se salve, se é, de fato, o Cristo de Deus, o escolhido. Igualmente os soldados o escarneciam e, aproximando-se, trouxeram-lhe vinagre, dizendo: Se tu és o rei dos judeus, salva-te a ti mesmo. Também sobre ele estava esta epígrafe [em letras gregas, romanas e hebraicas]: ESTE É O REI DOS JUDEUS." (Evangelho de Lucas, capítulo 23, versículos de 32 a 38; versão e tradução ARA)

Uma coisa que muito chama a minha atenção nos evangelhos foi o fato de Jesus não ter manifesto nenhum sentimento de vingança ou de auto-comiseração na cruz. Mesmo sofrendo horrores, o Mestre ainda foi capaz de pensar no bem do seu povo quando se preocupou com o futuro daquela geração (Lc 23:28-31), como vimos no estudo anterior. Pendurado entre dois malfeitores, ele proferiu as comoventes palavras de perdão do versículo 34, as quais compõem o título deste artigo. Algo que se encontra muito bem gravado na memória da Igreja como o maior símbolo da misericórdia humana conhecido até hoje. Um exemplo que, posteriormente, foi seguido por Estêvão (At 7:60) e também por muitos outros mártires nas perseguições de Roma.

Como liberar perdão sendo tão agredido, ridicularizado, traído, humilhado e ainda tratado imerecidamente igual a um bandido?

Creio que somente chegamos a esse nível elevado pelo desenvolvimento da compreensão. Pois, no próprio verso 34, foi o que Jesus teria feito em sua breve oração ao Pai. Quando disse "eles não sabem o que fazem", o Mestre soube reconhecer as limitações dos seus torturadores entendendo o motivo de eles agirem com tamanha estupidez e brutalidade.

Mesmo sem concordarmos com os erros das pessoas, devemos desenvolver semelhante compreensão. Jesus nos mostrou que é possível ao homem perdoar ficando implícito nas suas palavras como fazermos isto. Trata-se de tomar o caminho inverso ao raciocínio que, diabolicamente, costumamos aplicar diante das falhas cometidas pelos outros quando assim remoemos: "Fulano bem que poderia ter agido desta ou daquela maneira..."

Penso que, se alguém nos rouba, podemos não somente considerar as necessidades do próximo como também as suas compulsões ainda carentes de tratamento. Isto não significa que, em via de regra, deixaremos de chamar a polícia para prender o ladrão que tentar nos assaltar. Acho até correto alguém acionar o 190 e/ou dar parte na Delegacia do local do crime afim de protegermos a sociedade de uma pessoa que tende a delinquir novamente. Porém, não quer dizer que o sujeito infrator vai se tornar odioso aos nossos olhos. Ele continuará precisando do nosso apoio para ser ressocializado em todos aspectos. A própria vítima terá a oportunidade de ajudá-lo no futuro! Aliás, a pena imposta a um condenado jamais deverá conduzir o indivíduo à marginalização como, infelizmente, ainda acontece no mercado de trabalho em relação aos egressos do sistema penitenciário nacional.

Igualmente pode-se tomar posições semelhantes num caso de divórcio ou de separação de casal. Por motivo verdadeiramente considerável, quer seja diante de um adultério ou de uma agressão física, por exemplo, o cônjuge traído/violentado deve, também em via de regra, cortar os seus vínculos matrimoniais. Trata-se aí de uma questão de pureza sexual (Dt 24:2-4), bem como da própria saúde, de respeito à auto-estima e de preservação da própria vida. Ainda assim, não há motivo que justifique cultivarmos o ódio dentro de nós. Para perdoarmos basta que aprendamos a reconhecer o outro como alguém impulsivo e incapaz de controlar os seus desejos/emoções. Uma pessoa que faz mal a si mesma de modo que ela precisa do nosso apoio.

Foi assim também que, pregado na cruz, Jesus olhou para os soldados que repartiram suas vestes e para as autoridades que dele escarneciam. Em meio a tanta crueldade, o coração do Mestre manteve-se íntegro pois a sua reação amorosa foi, indubitavelmente, surpreendente. Assim, pode-se dizer que, no Calvário, entendemos como que pessoas em diferentes níveis de aprendizado espiritual podem conseguir conviver. Pois não adianta exigirmos do outro a conduta mais apropriada, uma mudança ética conforme as nossas exigências, sendo que, nessas horas, o que mais precisamos fazer é nos tornar ainda mais compreensivos.

Que Deus ilumine os nossos caminhos!


OBS: A ilustração acima refere-se ao curioso quadro Crucificação vista a partir da cruz do artista francês James Joseph Jacques Tissot (1836 – 1902). A obra encontra-se atualmente no Museu do Brookyn, em Nova Iorque. Extraí a figura do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Asseenfromthecross-vi.jpg onde é possível visualizá-la num tamanho mais ampliado.