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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

"Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não vos assusteis"



Dando sequência aos estudos bíblicos sobre o livro de Lucas, eis que iniciamos, nesta terça-feira (29/10), a abordagem do pequeno "apocalipse" de Jesus também chamado de Sermão Profético e que se se encontra presente nos três primeiros evangelhos (Mt 24-25; Mc 13; Lc 21:5-38). Algo que, segundo a tradição dos sinóticos, teria ocorrido no Monte das Oliveiras, de frente para o Templo de Jerusalém.

No artigo "não ficará pedra sobre pedra", tratamos do tema da destruição do 2º Templo judaico, um fato histórico que ocorreu no ano 70 da nossa era poucas décadas depois da morte de Jesus, quando as tropas do general romano Tito invadiu a Cidade Santa. Assim, na intimidade do ambiente discipular, tendo em vista a predição feita pelo Mestre, seus seguidores o perguntam sobre quando aquele acontecimento sucederia e também que "sinal" revelaria a aproximação do cumprimento da profecia (Lc 21:7). Ao respondê-los, nosso Senhor pareceu demonstrar mais preocupação com os falsos messias e profetas mentirosos do que com os acontecimentos catastróficos conforme podemos observar através das seguintes palavras:

"Respondeu ele: Vede que não sejais enganados; porque muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu! E também: Chegou a hora! Não o sigais. Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não vos assusteis; pois é necessário que primeiro aconteçam estas coisas, mas o fim não será logo. Então, lhes disse: Levantar-se-á nação contra nação, e reino, contra reino; haverá grandes terremotos, epidemias e fome em vários lugares, coisas espantosas e também grandes sinais do céu." (Evangelho de Lucas, capítulo 21, versículos de 8 a 11; versão e tradução ARA)

Verdade é que secas, enchentes, furacões, doenças, tremores de terra, tsunamis, guerras, atentados terroristas, revoltas populares e badernas nas ruas são coisas que compõem a nossa realidade cotidiana nesta era atual da humanidade. Os cataclismos naturais, por exemplo, fazem parte do próprio movimento da Terra embora muitos deles tenham hoje a frequência e a intensidade aumentadas por causa da nossa ação danosa sobre o meio ambiente (aceleração do efeito estufa). Quanto aos conflitos bélicos e políticos, não podemos jamais perder a consciência de que o mundo passou mais tempo lutando do que em paz. Saibamos que, no final da Idade Média, França e Inglaterra brigaram durante um século na Guerra dos Cem Anos. E isso vem se repetindo em todos os períodos históricos até que as próprias armas de destruição em massa e, principalmente, a bomba atômica tornaram-se uma espécie de freio/disciplina dos conflitos militares juntamente com os diretos humanos. Pois, se esse nocivo armamento das potências for algum dia usado, certamente que não restarão vencedores.

Há 2000 anos atrás, quando discursou sobre o fim do Templo e do mundo, Jesus preveniu os seus discípulos contra qualquer baboseira apocalíptica que surgisse. E essa era também uma preocupação dos líderes das comunidades cristãs da época em que os evangelhos teriam sido escritos. Após a destruição do Templo no ano 70, uma nova revolta contra Roma foi preparada na década de 30 do século II por Simão Bar Kochba, o qual se auto-proclamava messias e era assim aceito pelos seus seguidores. Devido à insanidade daquele líder, os judeus foram novamente massacrados e expulsos da Terra Santa pelo então imperador Adriano. Logo, era preciso prevenir a Igreja para não embarcar numa canoa furada. O messianismo vivido por Jesus foi antes de mais nada humilde e pacífico como já pude tratar numa outra postagem sobre a sua entrada em Jerusalém montado num burrinho, a qual não considero como triunfalista.

Creio que esses alertas proféticos do Mestre também têm a ver com os outros momentos da Igreja posteriormente aos séculos I e II, bem como com a nossa atualidade. Ainda hoje há oportunistas tirando proveitos através de um sensacionalismo alarmista e desviando pessoas do verdadeiro foco da mensagem do Evangelho. São os falsos pregadores do terceiro milênio que, mesmo usando o nome de Jesus, associam as notícias dos jornais com o cumprimento de uma profecia específica como se estivessem adivinhando algo. Aliás, pode-se dizer que, ultimamente, o meio evangélico ficou impregnado dessas besteiras a ponto de uns saírem por aí divulgando que Bush, Obama, Bento XVI, o papa Francisco, a Dilma e até o cantor irlandês Paul David Hewson, o Bono Vox da banda U2, fossem o "anticristo". No ano passado, então, por causa de uma absurda interpretação das tradições dos antigos maias, inventaram que o mundo acabaria em 2012, o que rendeu até um filme de catástrofe dirigido pelo cineasta Roland Emmerich. Ou seja, há toda uma indústria que se mantem por causa das preocupações com o "fim do mundo".

Penso que, nessas horas, precisamos refletir e termos a mesma sobriedade com a qual agia Martinho Lutero, o qual tinha os pés no chão diante de qualquer histeria escatológica. Conta uma lenda popular na Alemanha que, certa vez, teriam perguntado ao ilustre reformador da Igreja sobre o que ele faria caso soubesse que o mundo iria acabar no dia seguinte. A isto Lutero respondeu com sensatez e demonstrou fé no amanhã dizendo: "Eu plantaria uma macieira hoje!"

No texto paralelo de Marcos, do qual Lucas depende, há um detalhe justaposto à passagem em estudo que talvez não interessasse ser transmitido ao leitor gentílico do 3º Evangelho. É que muitos judeus daquela época esperavam por um período de sofrimento antes da vinda do Messias. Então, neste sentido, Jesus caracterizou as guerras e os terremotos como o princípio das dores de um parto (Mt 24:8; Mc 13:8), algo que deve ser compreendido mais como uma mensagem de esperança e de encorajamento para enfrentarmos o presente. Pois o que segue depois do nascimento com vida de um bebê é justamente a alegria da mãe pela chegada de mais um ser no mundo. Toda a agonia da gestante sofrida antes de dar a luz é superada pela genitora.

Assim também penso que devemos caminhar crendo na plenificação do Reino de Deus que já se encontra no nosso meio e em nós (Lc 17:20-21), como pude abordar no artigo Um reino que vem sem aparência visível. Nosso presente ainda marcado pelos sofrimentos, em decorrência da errada conduta humana, um dia há de se converter num tempo de amor e de justiça. As coisas não permanecerão para sempre do jeito como se encontram. Deus está no controle da História e somos chamados por Cristo para escrevê-la através da vivência construtiva do Evangelho nas nossas relações pessoais. Portanto, meus amigos, não desanimemos de plantar árvores! Quer ocorra um incêndio na floresta e tenham sido derrubadas as matas pela motosserra, precisamos crer que a terra devastada ainda pode virar um bosque ambiental ou um delicioso pomar orgânico de fruteiras. Jamais desistamos e nem nos deixemos alienar porque o fim dos tempos é também um novo começo.


OBS: A imagem acima trata-se de uma foto que mostra a infantaria nas trincheiras com máscaras de gás durante a 1ª Guerra Mundial conforme extraí do acervo da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Australian_infantry_small_box_respirators_Ypres_1917.jpg

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Por que os nossos manaciais ainda continuam sujos?



A edição desta tarde do Jornal Hoje trouxe uma interessante matéria em que dois ambientalistas brasileiros, Alberto Pego e Paulo Rodrigues, resolveram descer remando pelas águas do Sena, na França, percorrendo 800 quilômetros de caiaque da nascente até a foz, afim de mostrarem ser possível salvar um rio.

"Eles remaram de 20 a 30 quilômetros todos os dias. Os ambientalistas contam que já desceram muitos rios de caiaque no Brasil para denunciar a destruição. Agora, a ideia é mostrar que é possível recuperar um rio condenado. O Sena é o mais importante rio da França. Os franceses investiram na recuperação do rio e os estudos mostram que a água está mais limpa. Os remadores conferiram de perto. (...) Os remadores viram que o que as pesquisas indicavam. Os peixes voltaram e em 40 anos, passaram de quatro para mais de 30 espécies. Os franceses medem a qualidade da água que sai das estações de esgoto e das indústrias que ficam à margem do Sena o tempo todo (...) Para eles, o Sena pode servir de exemplo para o Brasil." 

Achei curioso que o Brasil, na segunda metade da década de 1990, inspirou-se justamente no modelo francês de gestão dos recursos hídricos. Lá a Lei n.º 64-1.245, de 16 de dezembro de 1964, criou os "Comitês de Bacia" e as "Agências Financeiras de Bacia", tendo passado depois por sucessivas alterações. É o que informa o jurista Paulo Affonso Leme Machado na 8ª edição de seu livro Direito Ambiental Brasileiro, publicado pela editora Malheiros, pág. 475:

"As bacias - quadro administrativo dos Comitês de Bacias e das Agências de Águas - são determinadas por decisão do Primeiro-Ministro. São seis: Artois-Picardie (com sede em Douai), Rhin-Meuse (com sede em Metz), Seine-Normandie (com sede em Nanterre), Loire-Bretagne (com sede em Orleans), Adour-Garonne (com sede em Toulouse) e Rhône-Mediterranée-Corse (com sede em Lyon) (arrêté do Ministro do Meio Ambiente de 14.11.1991). Assevera o Prof. Michel Prieur: 'Os Comitês de Bacia são compostos de representantes das regiões e das coletividades locais, de representantes dos usuários e pessoas competentes (estas duas categorias detêm pelo menos dois terços dos votos) e de representantes designados pelo Estado entre os meios sócio-profissionais. O número de representantes dos Comitês de Bacia oscila de 61 membros (Rhin-Meuse) e 114 membros (Loire-Bretagne)'. A tutela sobre as Agências de Águas 'é exercida pelo Ministro do Meio Ambiente depois de 1971. As deliberações são executórias, salvo caso de oposição desse Ministro, no prazo de 30 dias. As deliberações financeiras (orçamento, contabilidade financeira, empréstimos, condições gerais de empréstimos e subvenções) são submetidas à aprovação do Ministro do Meio Ambiente e do Ministro de Finanças'. Acentua, outrossim, que as Agências de Águas 'são estabelecimentos administrativos dotados de personalidade civil e de autonomia financeira. Devem facilitar as ações de interesse comum na bacia e para isto coletam as redevances e as redistribuem' (Droit de l'Environnement, 3ª ed., Paris, Dalloz, 1996)"

Assim, foi no contexto das inovadoras ideias da segunda metade do século XX, em que, tardiamente, o nosso Congresso Nacional aprovou a Lei n.º 9.433/97, instituindo a Política Nacional de Recursos Hídricos e criando o Sistema Nacional de Gerenciamento de Recursos Hídricos - SINGREH. Juntamente vieram outras normas estaduais que se tornaram praticamente cópias da legislação federal. Só que, apesar de seus quase 17 anos de existência, ainda falta muito a ser concretizado para mudarmos a nossa realidade como nos mostra o jurista Édis Milaré, autor do livro Direito do Ambiente, 5ª edição, publicado pela Revista dos Tribunais, págs. 462 e 463, sendo meu os destaques em negrito a seguir:

"A Política Nacional de Recursos Hídricos - PNRH, atrelada à Lei 9.433, de 08.01.1997, foi, em vários sentidos, um 'divisor de águas'. Ela introduziu, na doutrina e na prática, critérios indiscutivelmente renovadores, como a seu tempo poderemos constatar, à medida que adentramos no seu conteúdo (...) Essa lei impõe a necessidade de serem editadas várias normas regulamentadoras, o que, em grande parte, ainda não ocorreu. No entanto, mesmo sem a sua necessária complementação, ela altera profundamente a disciplina da aplicação do Código de Águas, alteração que será cada vez maior na medida em que as normas regulamentares forem estabelecidas."

O certo é que a efetiva proteção das águas ainda não saiu completamente da esfera legislativa assim como acontece em inúmeras outras coisas no Brasil. Vários Comitês de Bacia Hidrográfica já foram criados, porém o nível e a qualidade de participação das associações da sociedade civil e das comunidades locais interessadas ainda não são suficientemente expressivos nesses organismos colegiados de gestão. Não raramente, os representantes de tais entidades são cooptados pelos governos e/ou empresas poluidoras através da participação da ONG em projetos, da nomeação de pessoas para preenchimento de cargos públicos, pelos compromissos eleitoralmente assumidos, etc. Trata-se do reflexo das fragilidades das nossas instituições populares que acabam se somando aos graves problemas sócio-habitacionais das cidades, à baixa renda dos consumidores das empresas prestadoras dos serviços de saneamento básico, às deficiências do Ministério Público, à corrupção dos órgãos ambientais e à maneira conivente como o Judiciário lida com certas questões na hora de tomar um posicionamento corajoso.

Ultimamente, em que as ruas brasileiras tornaram-se palcos de inúmeras manifestações políticas, é preciso que a preservação dos nossos rios e lagoas entre na pauta das reivindicações. O Brasil, que detém mais de 13% da água doce do planeta, precisa tomar a consciência de que a disponibilidade desse indispensável recurso está ficando cada vez menor. Algo já sentido de maneira crônica no Nordeste sendo que, no Sul e no Sudeste, a qualidade da água vem sendo absurdamente comprometida pela poluição dos mananciais. Enfim, é a estupidez humana a principal de todas as causas. Lutemos, portanto, pelo direito das futuras gerações!


OBS: Foto acima extraída de uma página da Agência Brasil de Notícias numa matéria sobre o lançamento in natura de esgoto nos rios do Paraná, conforme consta em http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2012-09-20/presidente-interino-da-sanepar-nega-lancamento-de-esgoto-nao-tratado-em-rios-do-parana

"não ficará pedra sobre pedra"



Muitos estudiosos consideram que o capítulo 21 do 3º Evangelho contém um pequeno "apocalipse" que vai do versículo 5 ao 38. Trata-se da reunião de alguns ensinamentos proféticos de Jesus sobre a destruição de Jerusalém ocorrida no ano 70 de nossa era, quatro décadas depois de sua morte, mas que se relacionam também com os últimos tempos da história da humanidade. De acordo com os outros dois sinóticos, esse Sermão Profético teria acontecido no Monte das Oliveiras (Mt 24:3; Mc 13:3), geograficamente situado em frente ao antigo Templo. Narra o texto de Lucas que para lá o Senhor ia repousar de noite com os seus seguidores após pregar durante o dia (verso 37).

Tudo começou quando os discípulos do Mestre admiraram-se sobre a beleza e a ornamentação do prédio 2º Templo (v. 5). Afinal, era uma construção e tanto que, embora tivesse já alguns séculos de duração, fora reformada pelo rei Herodes sendo então o maior patrimônio cultural de Jerusalém. Algo que, apesar da dominação dos romanos, certamente era motivo de orgulho nacional para os judeus e também deveria servir de encorajamento para as pessoas sonharem com uma futura emancipação política.

Mesmo sendo filho de um tekton, palavra grega que tanto pode significar carpinteiro como um trabalhador da construção civil, Jesus parece não nutrir nenhum sentimento de admiração por aquela obra. Seus olhos analisavam as coisas por um outro ângulo da perspectiva dos pequeninos. Se quando menino ele pôde ter encontrado prazer em debater teologia entre os doutores da Lei (2:46), a ponto de ter deixado temporariamente a companhia dos familiares, eis que sua postura tornara-se bem crítica contra os sacerdotes e os escribas. Aquela estrutura religiosa tinha virado um ícone abominável de um sistema apodrecido pela hipocrisia dos seus líderes.

Como se pode verificar ao longo de todo o Evangelho de Lucas, o Mestre iniciou o seu ministério pela Galileia. Ou seja, Jesus preferiu começar pela periferia de Israel, estar entre os pobres e os excluídos do seu povo ao invés de agradar os ricos. Embora tivesse pregado em sinagogas e aceitado o convite de fariseus para fazer refeições em suas casas, nosso Senhor permaneceu mais focado na recuperação das "ovelhas perdidas": os publicanos, as meretrizes, os leprosos, as viúvas, os lunáticos e os portadores de deficiência. Era com o ser humano que ele realmente se importava! Não com prédios religiosos e menos ainda com o palácio dos reis.

Ainda assim Jesus precisava pregar naquela casa e deixar lá a sua mensagem de boas-novas, o que fez ludicamente expulsando os vendilhões do local (19:45-46). Nosso Senhor desafiou a falsa autoridade de um sacerdócio decadente a exemplo do que fizera o profeta Jeremias nos últimos anos do 1º Templo. E, na intimidade do ambiente discipular, transmitiu ensinamentos escatológicos aos seus seguidores mais próximos, desconstruindo ideias e conceitos incutidos em suas mentes:

"Falavam alguns a repeito do templo, como estava ornado de belas pedras e dádivas; então, disse Jesus: Vedes estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada." (Lc 21:5-6; ARA)

O anúncio da destruição física do Templo, fato histórico que sucedeu quando as tropas do general Tito invadiram Jerusalém, significou também o fim de um sistema religioso que se tornara incoerente e espiritualmente estéril. Os ricos sacerdotes estavam viciados no poder, mais preocupados com a satisfação dos próprios interesses do que ministrarem sobre as necessidades daquele povo sofrido. Arrecadavam as ofertas da nação inteira e falhavam na distribuição dos recursos. Todas essas maldades escondiam-se por trás do "sagrado", não muito diferente do que hoje em dia no cristianismo.

De modo algum podemos achar que a profecia de Jesus teve o seu cumprimento somente entre o povo judeu ou que se restringiu apenas a uma época passada. Justamente por ser uma mensagem que é profética, ela nunca se fechará num acontecimento só, mas se relaciona com a história de todas as gerações, nas diversas épocas e lugares diferentes. A destruição de Jerusalém no ano 70 foi uma segunda versão da invasão de Nabucodonosor no século VI a.C., conforme havia prevenido Jeremias.

Para a Igreja de hoje tudo isso continua fazendo sentido. Não podemos viver num falso triunfalismo achando que o cristianismo teria suplantado o judaísmo e, por isso, seríamos o novo povo escolhido. Nada disso! Antes toda a estrutura eclesiástica erguida nesses dois mil anos é passível de semelhante perecimento, quer sejam os prédios das igrejas, suas obras de arte, os cargos dos seus ministros ou toda a riqueza acumulada pelo Vaticano e demais instituições cristãs. A História cobra o fato dos pastores que sucederam os apóstolos terem cometido os mesmos pecados dos saduceus sendo certo que até hoje no nosso meio ainda encontramos pequeninos na mais absoluta miséria.

O ensino do Novo Testamento faz com que compreendamos qual é o verdadeiro templo onde Deus quer habitar que é o nosso coração. Por isso, toda a preocupação da Igreja precisa voltar-se para o ser humano e penso que devemos ser persistentes na eliminação da pobreza o meio cristão. Considero inadmissível termos irmãos e irmãs em Cristo passando por necessidades enquanto outros membros do Corpo vivem luxuosamente. Pessoas carentes ainda saem dos cultos/missas sem que seus problemas nem ao menos sejam notados pelas lideranças da respectiva congregação. Só que, na hora de se promover obras de restauração ou de ampliação dos prédios das igrejas, os padres e pastores inventam logo suas campanhas de arrecadação financeira. Lamentável.

Edificar um lugar de reunião coletiva de adoração a Deus e onde seja ministrado o ensino regular de sua Palavra pode até refletir um saudável sentimento de preocupação com as coisas espirituais, mas não deve virar uma espécie de idolatria. O ser humano será sempre maior do que qualquer templo por mais majestosa que seja a construção. Cuidarmos uns dos outros é o que realmente importa sendo certo que o espaço onde a Igreja se encontra durante a semana independe do local escolhido, podendo ser, inclusive, nas casas dos irmãos ou em áreas abertas. O mais importante sempre será a prática do amor verdadeiro de uns para com os outros de maneira que as "pedras" desse fraternismo jamais serão derrubadas assim como a fé e a esperança.


OBS: A foto acima refere-se às pedras escavadas a partir da parede do 2º Templo de Jerusalém, as quais foram jogadas pelos soldados romanos quando invadiram a Cidade Santa no ano 70 da nossa era. Trata-se da base do monte do Templo onde as paredes oeste e sul encontravam-se. Extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:NinthAvStonesWesternWall.JPG

domingo, 27 de outubro de 2013

Guardemo-nos dos que devoram o pobre!


"Ouvindo-o todo o povo, recomendou Jesus a seus discípulos: Guardai-vos dos escribas, que gostam de andar com vestes talares e muito apreciam as saudações nas praças, as primeiras cadeiras nas sinagogas e os primeiros lugares nos banquetes; os quais devoram as casas das viúvas e, para o justificar, fazem longas orações; estes sofrerão juízo muito mais severo." (Evangelho de Lucas, capítulo 20, versículos de 45 a 47; versão e tradução ARA)

Temos aprendido desde o mês de maio nesses estudos sequenciais sobre o 3º Evangelho que o nosso Senhor Jesus Cristo jamais mudou a sua posição em ter denunciado a hipocrisia e os privilégios dos religiosos. Ousadamente foi assim que o Mestre sempre pregou, mesmo estando no Templo de Jerusalém, expondo ali as condutas erradas dos sacerdotes e dos escribas doutores da Lei.

Na passagem bíblica acima citada, o escritor sagrado faz uma pequena e importante modificação em relação ao texto original do 2º Evangelho (Mc 12:38-40). Por algum motivo, o ensino de Jesus em Lucas foi direcionado "a seus discípulos" (verso 45). Ou seja, já em seu tempo o autor deve ter notado a necessidade de re-significar uma mensagem já conhecida para as comunidades eclesiásticas destinatárias de sua epístola. Possivelmente já deveriam existir líderes no cristianismo helenizado que estivessem tirando proveitos da fé das pessoas. Logo, essa memória da Igreja não poderia continuar restrita a um momento passado ou apenas servir de alerta para o povo.

Penso que, nos dias de hoje, essa mensagem nunca foi tão atual quando nos deparamos com pastores locomovendo-se escandalosamente em seus carrões de luxo e ainda ouvirmos uma notícia na mídia sobre um bispo católico na Europa esbanjando fortunas para restaurar um prédio religioso e ainda viajando de primeira classe afim de fazer obras de caridade na Índia. Pois parece até que certos "pregadores" inspiraram-se equivocadamente nas críticas de Jesus para devorarem as economias das pessoas humildes e repetindo os mesmos erros cometidos pelos sacerdotes e pelos escribas nas últimas décadas do 2º Templo judaico.

Não raramente esses lobos em pele de ovelhas costumam se vestir bem, tentam aparentar ser homens "espirituais" pelo modo exibicionista de se expressarem/orarem e são hábeis em arrecadarem altos valores com as ofertas que pedem. Aproveitam-se da vulnerabilidade das pessoas humildes, dos que são socialmente menos favorecidos e têm suas carências afetivas ou emocionais mal resolvidas. Só que, por trás de um terninho pomposo, esconde-se um grande charlatão e aproveitador.

Tanto o povo quanto os seguidores de Jesus precisavam estar prevenidos contra os mercenários da fé! Em Lucas, os que iriam pastorear as futuras igrejas são advertidos para não andarem pelos mesmos caminhos daqueles escribas e se guardarem de um comportamento que foi tão combatido por Jesus (ler o artigo Cuidado com o "fermento" da hipocrisia!, de 18/08/2013). Aliás, o Mestre foi bem claro quando fez menção de que haverá um julgamento severo contra esses falsos obreiros. Tanto é que, numa passagem anterior, abordada no texto referenciado, é aplicada a metáfora da Gehenna que é traduzida nas bíblias como o "inferno". Isto é, os discípulos e todas as pessoas um dia vão responder por seus atos perante o Juiz de todo o Universo, encarando então toda a verdade. Inclusive o que conseguiram ocultar dos homens.

Não é por menos que a narrativa sobre a viúva pobre encontra-se justaposta às advertências feitas por Jesus. Sem que originalmente os evangelhos fossem enumerados e divididos por capítulos e versículos, pode-se notar uma forte ligação entre a crítica aos escribas e a atitude de uma senhora de condição humilde capaz de dar tudo o que tinha para a tesouraria do Templo depositando duas moedinhas no gazofilácio. Vale dizer que ela foi mais uma vítima de um sistema religioso que o Mestre jamais aprovou:

"Estando Jesus a observar, viu os ricos lançarem suas ofertas no gazofilácio. Viu também certa viúva pobre lançar ali duas pequenas moedas; e disse: Verdadeiramente, vos digo que esta viúva pobre deu mais do que todos. Porque todos estes deram como oferta daquilo que lhes sobrava; esta, porém, da sua pobreza deu tudo o que possuía, todo o seu sustento." (Lucas capítulo 21, versículos de 1 a 4; ARA)

Curioso que os exploradores da fé costumam fazer da atitude da viúva pobre um estímulo para as pessoas lhes entregarem suas ofertas com boa disposição. Fazem assim uma leitura forçada da Bíblia ignorando muitas das vezes o próprio contexto literário. Alguns chegam a falar até que era Jesus quem estaria pedindo aquelas contribuições para seu ministério dentro de um Templo que, como sabemos, era administrado pelos sacerdotes, onde o dinheiro ali arrecadado destinava-se, dentre outras coisas, para sustentar os saduceus.

Certamente que aquela viúva, por causa de sua pobreza extrema, deveria ser a destinatária da receita do Templo e não uma ofertante. Embora Jesus tivesse reconhecido com louvor a sua atitude sincera e visto maior valor em sua oferta de duas pequenas moedas de cobre (gr. lepta), se comparada à contribuição dos ricos, podemos extrair dessa passagem a crítica de um sistema religioso que, inclusive, seria mantenedor das desigualdades sociais. Afinal, os endinheirados poderiam doar quantias maiores de seus valores excedentes sem abrirem mão do status financeiro-social que possuíam e menos ainda comprometer o próprio sustento.

Apesar de tudo, a oferta da viúva foi verdadeira. Ela que era um dos "pequeninos" teve o desprendimento necessário para dispor de tudo quanto havia em sua bolsa. Segundo o 2º Evangelho, as duas moedas equivaliam a um "quadrante" (Mc 12:42), algo que correspondia à sexagésima quarta parte de um denário romano, importando este na diária de um trabalhador. Ou seja, a contribuição daquela mulher (possivelmente uma idosa) talvez mal desse para ela comprar uns pães na padaria. Comparando a grosso modo, eu diria que ela tivesse menos do que uns R$ 2,00 hoje.

No Sermão da Planície, Jesus havia proclamado que dos pobres é o Reino de Deus (Lc 6:20). Ainda assim, o Evangelho de nenhum modo propõe que as pessoas permaneçam na miséria. Lembremos que João Batista determinou que quem tivesse duas túnicas repartissem com quem não tem (3:11). Logo, por mais que a viúva estivesse dando todo o seu sustento para manter o privilégio dos ricos sacerdotes de Jerusalém, inexistia nela qualquer sentimento de apego aos bens materiais. A mulher estava totalmente apta para ser uma construtora do Reino na Terra.

Certamente os olhares de Jesus não eram os mesmos dos sacerdotes e dos escribas intérpretes da Lei de modo que o Senhor notou a contribuição da viúva e fez pertinentes comentários com os seus discípulos. Por isso creio que o Mestre estava instruindo os seus seguidores para que, quando eles fossem pastorear as futuras comunidades eclesiásticas, tivessem uma preocupação especial para com o pobre. E, segundo o capítulo 4 de Atos dos Apóstolos, foi o que a Igreja Primitiva realizou quando o produto da voluntária venda dos bens dos seus membros era distribuído para o suprimento das necessidades visto que tudo lhes era comum (At 4:32-35).

Mais do que nunca precisamos retomar esse amor dos primeiros cristãos do passado não permitindo que haja no meio de nossas igrejas pessoas passado por necessidades financeiras. Tanto o estilo de vida luxuoso de certos pastores quanto a opulência egoísta dos membros mais avantajados são coisas que precisam ser revistas porque comprometem a unidade do Corpo de Cristo. E não foi por menos que Paulo teria criticado os coríntios quando celebravam entre si a Ceia do Senhor (1Co 11:20-21), o que refletia o relacionamento desigual dentro da comunidade de modo que não compreendiam ainda o significado daquele ritual simbólico.

Vejo que, na atualidade, há maneiras até mais inteligentes de se praticar a caridade sendo certo que a miséria hoje no Brasil tem sido reduzida graças à Previdência Social e os programas assistenciais do governo de maneira que já não vejo mais necessidade das pessoas terem que sair por aí vendendo tudo o quanto têm. Basta direcionarem suas riquezas para a promoção do Reino deixando de lado a satisfação egoísta. Assim mesmo, não podemos jamais nos esquecer que ainda há muito o que se fazer, sendo certo que, em determinados bolsões regionais e em outros países, há irmãos e irmãs passando por dificuldades, sobretudo nas zonas de guerras e de conflitos políticos, ou onde há perseguição religiosa. E, nestas horas, não tenho dúvidas de que a verdadeira Igreja possa fazer diferença no planeta.

Uma ótima semana para todos!


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro O óbulo da viúva (1876) do artista carioca João Zeferino da Costa (1840-1916), o qual se encontra atualmente no Museu Nacional de Belas Artes, na cidade do Rio de Janeiro. Foi extraída do acervo da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Jo%C3%A3o_Zeferino_da_Costa_-_O_%C3%B3bolo_da_vi%C3%BAva,_1876.jpg

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A pergunta formulada por Jesus


"Mas Jesus lhes perguntou: Como podem dizer que o Cristo é filho de Davi? Visto como o próprio Davi afirma no livro dos Salmos:
    'Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés,'
Assim, pois, Davi lhe chama Senhor, e como pode ser ele seu filho?"
(Evangelho de Lucas, capítulo 20, versículos de 41 a 44; versão e tradução ARA)

Como temos visto nesses últimos estudos bíblicos sobre o 3º Evangelho, iniciados aqui no blogue desde maio, Jesus encontrava-se no Templo de Jerusalém onde teve a sua autoridade questionada (Lc 20:1-2), foi provado na controvérsia acerca do pagamento do tributo a César (vv. 19-26) e os saduceus tentaram ridicularizá-lo com um falso problema sobre a ressurreição dos mortos (vv. 27-40). Agora, porém, é o Mestre quem parte para um contra-ataque finalizando aquelas discussões maliciosas.

Antes de empreender a longa caminhada de peregrinação a Jerusalém (9:51-19:44), uma outra pergunta parecida havia sido proposta por Jesus acerca da sua identidade dentro do ambiente da intimidade discipular (9:18). Mas Pedro parece ter sido o único quem soube responder ao dizer: "És o Cristo de Deus" (9:20). E, na ocasião, todos ali foram proibidos pelo Mestre de declararem tal coisa (ler o artigo "Quem dizeis que sou eu?").

Como Jesus não queria se auto-proclamar Messias e nem desejava promover uma cristolatria em torno de sua pessoa, não me parece que, no episódio em comento, ele tenha pretendido chamar a atenção sobre si diante dos escribas e sacerdotes. Muito pelo contrário! Percebo que a pergunta do Mestre foi certeira afim de que seus opositores não mais armassem ciladas. Foi uma solução sábia tendo em vista que o debate, da mesma maneira que qualquer diálogo, é uma via de mão dupla.

Conforme vimos na questão trazida pelos saduceus, suscitada com um manifesto propósito escarnecedor, podemos concluir que eles foram bem infelizes em tocarem num tema que era controvertido em relação aos fariseus. Aliás, não foi por menos que alguns escribas presentes resolveram elogiar a Jesus pela resposta dada (verso 39). Para esses teólogos da Lei, representantes dos fariseus junto ao conselho judaico, Jesus poderia ter sinalizado que pretendia aproximar-se do grupo religioso deles.

Contudo, Jesus em momento algum foi tolerante com a cretinice dos escribas e fariseus que viviam na hipocrisia religiosa e, consequentemente, não cogitava em se associar com eles. Sendo assim, sua pergunta irá colocá-los contra a parede obrigando-os a se posicionar contra os privilégios sacerdotais, caso oferecessem resposta. Sabiamente o Mestre faz menção de Salmo 110, um poema messiânico que também foi muito utilizado pela Igreja Primitiva (At 2:34-35).

Tradicionalmente entende-se que Jesus, ao citar esse salmo, teria afirmado que o Cristo, na época tão esperado pelos judeus, possui uma messianidade superior a dos antigos reis de Israel, os quais também recebiam uma unção (tanto o termo grego khristós quanto o hebraico mashíach significam "ungido"). Davi, mesmo governando Israel com autoridade divina, reconheceu ter um senhor acima dele. E, se formos ao texto das Escrituras Sagradas em seu idioma semita original, veremos que é Deus (YHWH) quem fala para o Adon do monarca. Senão leiamos os pertinentes comentários da Bíblia de Estudos de Genebra, edição de 1999:

"Por definição popular, Davi era mais importante do que qualquer um de seus descendentes. Como poderia Davi chamar o Messias de seu 'Senhor' (Sl 110.1)? Jesus está ensinando que o Messias não é simplesmente o Filho de Davi; ele é o Filho de Deus e, assim, Senhor de Davi. A messianidade de Jesus pode ser entendida, em parte, a partir deste título 'Filho de Davi', porém há outros aspectos também. Ele não pode ser olhado simplesmente como outro 'Davi', uma mera repetição." (pág. 1216)

De fato, podemos reconhecer essa superioridade pelo ministério de Jesus e os ensinamentos revolucionários que o Mestre nos transmitiu. Apesar de toda a sua fé, seu senso de justiça e disposição para louvar a Deus, Davi deve ser mais caracterizado como um guerreiro militar. Por isso, o salmista reconhece o senhorio de um outro ungido que fará obras ainda maiores do que as dele. Mesmo submetendo os adversários de Israel e se tornando vitorioso nas guerras, havia outras batalhas em diferentes aspectos da existência humana para serem travadas, as quais não foram vislumbradas por causa de suas limitações pessoais e das condições evolutivas de sua época. Afinal, tratava-se de um tempo em que, por exemplo, o ódio pelo inimigo era normalmente aceito como atitude positiva a ponto de integrar as orações dos homens justos.

O texto de Lucas, assim como o de Marcos, nos faz concluir pela ausência de resposta dos escribas e fariseus. Sabemos, por intermédio do 1º Evangelho, que o interrogatório acabou depois disto (Mt 22:46). De acordo com o teólogo italiano Sandro Gallazzi, havia uma polêmica histórica entre os judeus acerca da legitimidade da unção dos sumo-sacerdotes do 2º Templo, os quais eram escolhidos conforme a aceitação dos romanos. Aliás, segundo ele, esta teria sido uma das causas de uma dissidência que fora aberta pelos fariseus que vieram a ser ferozmente perseguidos pela ditadura asmoniana até chegarem a um acordo. Ainda assim, fariseus e saduceus sempre mantiveram suas divergências.

"Ao proclamar, no templo de Jerusalém, que o ungido era o 'filho de Davi', os fariseus são obrigados a tomar distância dos saduceus e dos sacerdotes, e a se posicionarem contra os interesses do império e a se somar às esperanças gritadas pelas multidões uns dias antes, quando Jesus entrou na cidade (...) Este mesmo salmo, porém, na boca de Jesus, nos lembra que, mais do que no filho de Davi, nós devemos pensar no 'senhor' de Davi. É assim que o próprio Davi o chama movido pelo Espírito. Davi não é 'o' sujeito da história. Davi foi 'um' sujeito, de uma história que é de salvação, porque é do Senhor: ele dá o cetro, ele desperta o povo, ele constitui sacerdotes (Sl 110, 2-4). Salvação é estar a serviço do Senhor e não se substituir a ele. O ungido é filho de Deus. Nós, filhos de Deus, somos os ungidos do único senhor da história, da nossa história (...) O senhor de Davi é, também, senhor de todos nós. Todos somos filhos do senhor de Davi; todos somos os ungidos, a manifestação viva da presença atuante de Javé na história do povo." (O Evangelho de Mateus - uma leitura a partir dos pequeninosComentário Bíblico Latinoamericano. São Paulo: Fonte Editorial, 2012, págs. 466 e 467)

Deve-se notar que o Salmo 110 fala em seu verso 4º que o Messias é um sacerdote eterno "segundo a ordem de Melquisedeque". Este então foi um personagem do livro de Gênesis, citado como rei e sacerdote do Deus Altíssimo na cidade de Salém (mesmo local da futura Jerusalém), para quem Abraão pagou o dízimo (Gn 14:18-20). Apesar da instituição do sacerdócio araônico por Moisés (Ex 30:30-33), as Escrituras já falavam de uma curiosa figura surgida anteriormente na época dos patriarcas, no princípio e nas origens de tudo. Alguém que nem israelita poderia ser porque tanto Isaque quanto Jacó ainda não haviam nascido.

Outrossim, ser considerado "sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque", significa uma colocação do Messias acima dos saduceus. Em outras palavras, Jesus teria levantado dúvidas sobre a autoridade dos sacerdotes do Templo, os quais, tal como os monarcas antigos de seu povo, também eram ungidos para a função religiosa que exerciam.

Penso que a aplicação prática desse estudo possa se relacionar aos abusos cometidos hoje por aqueles que se auto-proclamam ungidos do Senhor para devorarem o rebanho de Deus com a desculpa de estarem pastoreando almas. No discipulado de Jesus, somos feitos com ele reis e sacerdotes (Ap 1:6), sem que um tenha direitos de alegar que possui alguma autoridade sobre os demais dentro da Igreja de Cristo. Inclusive, não pode haver entre nós privilégios que induzam a uma obediência cega às lideranças ou a um colégio de obreiros. Qualquer exaltação neste sentido torna-se abominável porque tenta ocupar o lugar de Deus. Vira uma espécie de cristolatria.

Ao mesmo tempo que ninguém deve fazer uso indevido da unção, não se deve de modo algum recusá-la omitindo-se quanto ao exercício ministerial. Jesus pode não ter se auto-proclamado o Cristo mas ele agiu como um tipo de messias que ninguém em sua geração seria capaz de prever. O Mestre não se omitiu quanto ao seu papel e nos deixou o exemplo para que continuemos aqui a sua obra. Ele hoje nos chama para sermos agentes/construtores do Reino de Deus através das posições que assumimos e das relações amorosas estabelecidas com o próximo.

Como podemos conferir na sequência da narrativa do Evangelho, Jesus vai censurar esses mesmos escribas dos fariseus, acusando-os de serem "devoradores das casas das viúvas" (verso 47). E, tendo o Mestre denunciado a hipocrisia e a superficialidade dos religiosos de seu tempo, hoje não podemos deixar também de combater comportamentos semelhantes dentro da Igreja, posicionando-nos contra a exploração da fé das pessoas nos novos templos pelos que se auto-proclamam "ungidos".


OBS: A ilustração acima refere-se a um antigo mosaico da arte bizantina do século XIII encontrado na Basília de Santa Sofia (Hagia Sophia), na cidade de Istambul, Turquia. Foi extraído do acervo virtual da Wikipédia em http://en.wikipedia.org/wiki/File:Christ_Pantocrator_Deesis_mosaic_Hagia_Sophia.jpg

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Direita ou esquerda?

Em seu informativo de ontem (22/10), o ex-prefeito do Rio de Janeiro Dr. César Maia divulgou seu breve artigo intitulado DIREITA: O VOTO ESTÁ NO CONSERVADOR E NÃO NO LIBERAL!, onde ele diz que:

"Em grandes rasgos, podem-se identificar dois grandes ramos da direita: o Conservador e o Liberal. O que as eleições dos últimos 20 anos na América Latina mostram é que o discurso Liberal é perdedor e o discurso Conservador é vencedor ou competitivo. Desde a crise financeira de 2008 que na Europa essa tem sido a regra (...) Menem e FHC venceram suas primeiras eleições com compromissos socialdemocratas, foram reeleitos sob o prisma da insegurança e do caos no caso da vitória de seus adversários e governaram com programas liberais. Mas viveram o desgaste da “acusação” pela oposição de serem liberais. O segundo turno em 2006 mostrou isso. E o segundo turno em 2010, de forma mais acentuada ainda, pela questão dos valores cristãos. No Brasil, o discurso Conservador reforça o papel do Estado e questiona o Mercado como “Deus Ex Machina”. Nesse sentido, é percebido pelo eleitor como um discurso semelhante à esquerda. Diferencia-se em relação aos Valores Cristãos ou da Família, tanto da esquerda quanto da direita liberal. Afirma o império da lei e da Autoridade, sem tergiversações quanto à propriedade e a necessidades fluídas de mudanças constitucionais. Aliás, autoridade algo demandado hoje no Brasil. Nesse sentido, faz o discurso da estabilidade institucional e sócio-familiar. Afirma os valores da identidade nacional. Sua política externa é independente e não atrelada nem às grandes potências nem ao terceiro-mundismo. As funções precípuas do Estado –Educação, Saúde, Segurança Interna e Externa, Fiscalização, Justiça- são sublinhadas na sua comunicação. As relações com o Poder Legislativo são institucionais, afirmando a independência dos poderes, sem barganhas (...) Na medida em que a direita brasileira, desde a eleição de 1989, se encantou com a modernidade liberal, nunca mais foi opção de poder. 2014 está aberto –mais uma vez- a esta opção."

Embora eu concorde que hoje exista uma preferência em parte do eleitorado de direita pelo conservadorismo em relação ao liberalismo, podemos avaliar que a tendência da sociedade caminha no sentido de buscar mudanças. Neste contexto, o discurso conservador pode apenas vir a conquistar apoio eventualmente conforme as crises que vão surgindo daqui e dali, mas o que as pessoas têm buscado seriam melhorias nos serviços públicos em geral que, por sua vez, tem a ver com um anseio por satisfação. Algo que governo nenhum tem conseguido preencher. Seja de que partido for.

Apesar dos avanços sociais das últimas duas décadas e do surgimento da nova classe média, eu diria que o brasileiro deste século XXI não está hoje se sentindo feliz e tal fator induz a uma instabilidade com reflexos na política. Assim, minha crença é que um governo para ter sucesso em seu trabalho precisa basicamente ser sensível às mudanças de melhoria, sempre progredindo, e, ao mesmo tempo, conservando bons valores através de um outro tipo de educação escolar tornando-se capaz de promover uma nova disciplina social. Seria uma tarefa para verdadeiros estadistas de fibra que não estão preocupados apenas consigo mesmos ou com o corporativismo político, mas que consiga resgatar a confiança do cidadão nas suas instituições. Era o que já ensinava o grego Aristóteles há uns dois milênios e meio atrás...

terça-feira, 22 de outubro de 2013

"Deus não é Deus de mortos"


"Chegando alguns dos saduceus, homens que dizem não haver ressurreição, perguntaram-lhe: Mestre, Moisés nos deixou escrito que, se morrer o irmão de alguém, sendo aquele casado e não deixando filhos, seu irmão deve casar com a viúva e suscitar descendência ao falecido. Ora, havia sete irmãos: o primeiro casou e morreu sem filhos; o segundo e o terceiro também desposaram a viúva; igualmente os sete não tiveram filhos e morreram. Por fim, morreu também a mulher. Esta mulher, pois, no dia da ressurreição, de qual deles será esposa? Porque os sete a desposaram. Então, lhes acrescentou Jesus: Os filhos deste mundo casam-se e dão-se em casamento; mas os que são havidos por dignos de alcançar a era vindoura e a ressurreição dentre os mortos não casam, nem se dão em casamento. Pois não podem mais morrer, porque são iguais aos anjos e são filhos de Deus, sendo filhos da ressurreição. E que os mortos hão de ressuscitar, Moisés o indicou no trecho referente à sarça, quando chama ao Senhor o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. Ora, Deus não é Deus de mortos, e sim de vivos; porque para ele todos vivem. Então, disseram alguns do escribas: Mestre, respondeste bem! Dali por diante, não ousaram mais interrogá-lo." (Evangelho de Lucas, capítulo 20, versículos de 27 a 40; versão e tradução ARA)

Como temos acompanhado nos últimos estudos bíblicos feitos neste blogue, nosso Senhor Jesus Cristo foi tentado pelos religiosos de sua época enquanto esteve no antigo Templo de Jerusalém. No episódio anterior, tendo os sacerdotes e escribas (estes possivelmente representantes dos fariseus) enviado seus emissários para verem se conseguiriam alguma oportunidade para acusá-lo de subversão em relação a Roma, levantando uma controvérsia sobre o pagamento de tributos a César, não obtiveram êxito. Narra o autor sagrado que "não puderam apanhá-lo em palavra alguma diante do povo, e, admirados de sua resposta, calaram-se" (verso 26).

Todavia, o fato de terem se calado não significou que os opositores de Jesus converteram-se de suas maldades. O texto bíblico fala a seguir de uma questão trazida pelos saduceus, os quais buscaram então ridicularizar o Mestre, o que se trata de uma outra estratégia sórdida de quem se encontra no poder. Trouxeram um falso problema bem hilário que, provavelmente, despertaria muitas gargalhadas entre os ouvintes presentes mas que não seria nem um pouco estratégico para unir todos os religiosos israelitas contra Jesus.

O Evangelho define os saduceus como "homens que dizem não haver ressurreição". Porém, o que sabemos a respeito desse grupo social dos tempos de Jesus, segundo a compreensão de boa parte dos pesquisadores, seria que eles só aceitavam como sendo de inspiração divina a Torá (os cinco livros de autoria atribuída a Moisés). Ou seja, o restante do conteúdo bíblico, como os profetas, os salmos e os demais livros históricos ou de sabedoria, bem como a tradição dos fariseus e a literatura apocalíptica judaica, não teriam sido considerados pelos saduceus teologicamente. Sabe-se ainda que os tais eram conservadores e aristocratas, provenientes de uma rica nobreza agrária e contavam os sumos sacerdotes entre os de sua classe.

Assim sendo, como apenas se baseavam no Pentateuco bíblico, onde inexiste qualquer menção aparentemente expressa quanto à vida além-túmulo, não criam na doutrina da ressurreição dos mortos que tanto os fariseus quanto o grupo de Jesus pregavam. E, segundo o teólogo italiano Sandro Gallazzi, as razões para tanta descrença estariam relacionadas com a alta posição que os saduceus ocupavam na sociedade israelita naquele período histórico:

"O motivo é claro: eles estão no poder, não têm nenhum interesse que as coisas mudem, não precisam de nenhum mecanismo que os leve a sonhar num outro Israel possível. O mundo, como está, é perfeito para eles. São descendentes e sequazes dos grupos que chegaram ao poder com Esdras e Neemias e que, há séculos, vêm convivendo, numa harmonia dependente, com todos os impérios que se sucederam no horizonte político dos judaítas. Uma leitura fundamentalista e reducionista da torá proclama que a 'bênção de Deus' se manifesta na abundância e na fartura que ele reserva para seus escolhidos (...) Eles, ricos e abençoados, não precisam crer na ressurreição. Isso é coisa de pobre que não quer se conformar com sua situação!" (O Evangelho de Mateus - uma leitura a partir dos pequeninosComentário Bíblico Latinoamericano. São Paulo: Fonte Editorial, 2012, pág. 452)

Interessante como que as classes dominantes são capazes de elaborar uma ideologia que lhes favoreça na manutenção do status quo vigente! Curioso é que isso veio a se repetir muitas vezes depois no cristianismo. Os burgueses calvinistas, por exemplo, viam nas suas riquezas acumuladas "sinais da graça de Deus" , como uma consequência da salvação. Logo, se tinham bens e confessassem a Jesus como o Salvador deles, o Paraíso lhes parecia como um destino garantido. Na certa, deram pouca importância à advertência de que "é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino de Deus", conforme estudamos em Lucas 19:25 (ler o artigo "O que fazer para ter a vida eterna?").

Creio que, através da leitura de um trecho do capítulo 25 de Deuteronômio, conseguiremos compreender melhor a questão. A lei mosaica, ao instituir o chamado levirato (hebr. yibum), estabelecia o casamento do irmão do falecido com a cunhada viúva afim de suscitar descendência para aquele que havia partido sem deixar sequer um filho. Senão vejamos o que consta nas Escrituras:

"Se irmãos morarem juntos, e um deles morrer sem filhos, então, a mulher do que morreu não se casará com outro estranho, fora da família; seu cunhado a tomará, e a receberá por mulher; e exercerá para com ela a obrigação de cunhado. O primogênito que ela lhe der será sucessor do nome do seu irmão falecido, para que o nome deste não se apague em Israel." (Dt 25:5-6)

Pois bem. Embora a cunhada se tornasse mulher do irmão do falecido, o primogênito seria considerado filho do ente que desencarnou de modo a Torá não se preocupa com quem será a esposa de quem (na ausência/recusa de irmãos, as tribos israelitas passaram a considerar como resgatador/redentor um outro parente próximo). O foco deve estar na preservação do nome de uma pessoa dentro da memória da comunidade. Em outras palavras, o antigo costume dos judeus era uma maneira de prestigiar a continuidade da vida.

Só que os saduceus achavam que tinham autoridade para escolherem quais as partes da Bíblia estariam de acordo com os seus interesses e ideias. E, ao agirem daquela forma, fizeram uso de um trecho das Escrituras que aponta para o mesmo motivo/objetivo da ressurreição. Pois, quando Deuteronômio fala de suscitar nome/descendência ao falecido, teremos que, necessariamente, considerar a perpetuidade da vida. O levirato, portanto, teria prefigurado a vida após a morte. E vale acrescentar que o termo anastasis ("ressurreição" em grego) possui uma significação ampla no seu idioma original e não estaria restrito apenas ao ato de alguém ser levantado dentre os mortos.

Jesus, no entanto, responde fazendo uma analogia com os anjos. Primeiramente ele diz que as relações conjugais são coisas deste mundo (verso 34). Fazem parte do nosso ambiente social que é marcado pelo domínio dos ricos sobre os pobres e dos homens sobre as mulheres. Principalmente naquela época. Mas, quando falamos em ressurreição, devemos aí considerar a possibilidade de uma outra realidade distinta da que humanamente percebemos, cujos valores seriam celestiais e não terrenos.

Sem perder tempo em discutir qual o sexo dos anjos, poderíamos dizer que, na era vindoura, quando a ressurreição tornar-se plena, seremos semelhantes a esses seres celestiais em nosso modo de existência. E, uma vez revestidos da imortalidade, não haverá mais a necessidade de nos preocuparmos com a preservação do nosso nome ou da nossa descendência porque estas seriam questões relativas ao meio sócio-cultural no qual estamos inseridos. No porvir, talvez como consequência de uma evolução/mutação humana, tudo isso serão águas passadas e suponho que estaremos envolvidos com novas relações baseadas no amor divino construindo algo totalmente diferente no Universo.

Prosseguindo, eis que Jesus fundamenta a sua resposta dentro do Pentateuco, quando o Eterno se declara o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó (Ex 3:6). E, quando Moisés recebeu essa revelação, devemos ter em nossa mente a cronologia dos acontecimentos bíblicos porque, em tal ocasião, os três citados patriarcas, ancestrais dos israelitas, já estavam mortos fazia séculos.

Ora, se Deus mencionou Abraão, Isaque e Jacó como se estivessem vivos, seria porque o seu relacionamento com eles não havia terminado. O Eterno continuou e continua sendo o Deus dos pais da nação israelita e chamou Moisés para cumprir a promessa de resgatá-los da escravidão egípcia. As almas dos patriarcas jamais deixaram de existir após essa experiência terrestre na fisicalidade e eles permanecem vivos mesmo que numa forma diferente da que conhecemos. Neste sentido, vale a pena citar os brilhantes comentários do teólogo namibiano Paul John Isaak sobre essa passagem do livro de Lucas que ele soube enriquecer acrescentando a cosmovisão dos povos africanos:

"A ressurreição não é uma fantasia inventada por sonhadores fora da realidade; é uma consequência necessária do caráter e da natureza de Deus. De uma perspectiva teológica africana, essa discussão naturalmente levanta a questão dos ancestrais. Na visão africana de mundo, a origem da vida é Deus, o qual está relacionado com o povo e com toda a criação. A vida vindo de Deus, flui para toda a sua criação, isto é, para os ancestrais, para os vivos, e, então, para as árvores, os rios, as montanhas, as florestas, os pássaros, os animais e para toda a criação. A criação inteira compartilha de proximidade e solidariedade. A união das comunidades é mantida mediante seu relacionamento com um ancestral comum que fundou a comunidade ou clã, o qual é composto dos vivos e dos mortos. Enquanto todos os mortos compartilham de uma imortalidade coletiva, aqueles ancestrais que ainda são relembrados pelo nome são referidos como 'vivos mortos' e são objeto imediato de culto dos ancestrais. Esses são os ancestrais a respeito dos quais podemos dizer que ainda permanecem conosco. De fato, a presença e a influência dos ancestrais é tão real para a maioria dos africanos que, em muitos aspectos, eles permanecem como parte da comunidade em seu papel de 'espíritos anciãos'" (Comentário Bíblico Africano, editora Mundo Cristão, 2010, pág. 1275)

Esta transcrição acima certamente é de deixar muito cristão fundamentalista perplexo. Porém, não se pode negar que a tão preconceituada cultura tradicional africana, fortemente hostilizada no meio evangélico pentecostal, pode ser uma chave para nos ajudar a compreender a visão de mundo na época bíblica. Até mesmo porque os antigos hebreus eram animistas.

Para nós que estamos no lado de cá da existência, mais importa, em termos práticos, significarmos a ideia de ressurreição quanto às ações que tomamos. Citando novamente o Sandro Gallazzi, ela deve ser encarada como "um processo permanente que começa e recomeça aqui, toda vez que o Pai do céu nos faz reerguer e nos sustenta" (op. cit; pág. 456). Ou seja, se estamos abatidos, desanimados, sem direção ou faltando propósito, o Eterno nos levanta e faz com que andemos novamente em seu caminho. Em meio às mais densas trevas, a luz divina é despertada no nosso coração por meio da fé.

Meu caro leitor, se você está prostrado, saiba que o nosso Deus é Deus de vivos. Sem fé é impossível agradar o Eterno! Portanto, levante-se do chão e vamos trabalhar pela construção do Reino nas nossas relações pessoais e comunitárias. Viva no aqui e agora a ressurreição! Um outro amanhã é possível assim como um novo Brasil com uma sociedade mais justa e uma política diferente da qual temos assistido. Podemos e devemos ser os agentes da mudança! A fé tem o potencial de escrever o futuro dessa jovem nação com letras de ouro.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro A ressurreição de Cristo, do pintor alemão Mathis Gothart Niethart, conhecido como Matthias Grünewald, (1470 - 1528). Foi extraído do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Isenheimer.jpg

A invasão do laboratório Royal por ativistas defensores dos animais



"A todo aquele que derramar sangue, tanto homem como animal, pedirei contas" (Gênesis 9:5)

Conforme foi noticiado amplamente pela imprensa, dezenas de ativistas defensores dos direitos dos animais invadiram, na tarde desta última sexta-feira (18/10), o laboratório do Instituto Royal, em São Roque, situado a 59 km de São Paulo. Usando veículos próprios, eles salvaram dezenas de animais (178 cães da raça beagle) que estavam sofrendo maus-tratos no local para fins de experiências científicas de novos medicamentos.

Na edição do Jornal Nacional desta segunda-feira (21/10), fiquei sabendo que a Polícia Civil de São Paulo abriu um inquérito para investigar a libertação dos animais. De acordo com o delegado Marcelo Carriel, a atitude dos protetores dos animais seria vista como uma conduta criminosa:

“Se há esse inconformismo com relação à legislação, que se mude a legislação, mas que não se cometam outros crimes com a justificativa de estarem salvando os animais”.

Data venia do ilustre delegado de polícia, ouso discordar de seus posicionamentos. Vamos supor se, ao invés daqueles dóceis cãezinhos, estivessem enjaulados no laboratório seres humanos. Imaginemos 178 crianças indefesas usadas para testes de remédios como faziam os nazistas na época da 2ª Guerra Mundial! Ora, será que os princípios  basilares do Direito e que inspiram a nossa Constituição não autorizariam que cidadãos do bem invadissem o local e colocassem em liberdade os outros entes da nossa própria espécie?!

Em sua nota divulgada sexta-feira, o Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) afirmou que o Instituto Royal tem permissão legal para o uso de animais em estudos científicos e que está de acordo com as normas do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal  (Concea), órgão do ministério que coordena e regulamenta os procedimentos de uso científico de animais no país. Há menção no documento do Decreto 6.899, de 15 de julho de 2009, que criou o Cadastro de Instituições de Uso Científico de Animais (Ciuca), e da Lei 11.794, de 08 de outubro de 2008, que define que qualquer instituição legalmente estabelecida no Território Nacional que crie ou utilize animais para ensino e pesquisa deverá requerer credenciamento.

Contudo, há que se questionar a constitucionalidade de tais normas, com base nos direitos fundamentais à vida e à liberdade, bem como precisamos levar em conta a ineficiência investigativa dos órgãos públicos. Pois, como também foi mostrado na mídia, a Promotoria estava investigando o Instituto Royal  desde o ano passado sem que uma solução prática tivesse sido alcançada diante de um caso que é grave.

Segundo disse à TV Brasil a professora de medicina da Universidade Federal do ABC, Odete Miranda, é possível fazer testes sem o uso de animais:

“Existe pele sintética, existem testes in vitro, toxidade em célula em hemácias, é possível sim”.

Na verdade, estamos diante de uma questão ética. Será que as outras espécies de animais não deveriam possuir os mesmos direitos à integridade e liberdade física que os humanos? Sinceramente, penso que a evolução nos conduz a abolir essas práticas retrógradas e cruéis dentro da ciência.


OBS: Foto dos beagles resgatados do Instituto Royal (Divulgação: Adote um animal resgatado do Instituto Royal), conforme extraído da Agência Brasil em http://www.ebc.com.br/cidadania/2013/10/resgate-dos-caes-beagles-nao-foi-premeditado-diz-ativista

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Coisas de César e coisas de Deus


"Naquela mesma hora, os escribas e os principais sacerdotes procuravam lançar-lhe as mãos, pois perceberam que, em referência a eles, dissera esta parábola; mas temiam o povo. Observando-o, subornaram emissários que se fingiam de justos para verem se o apanhavam em alguma palavra, afim de entregá-lo à jurisdição do governador. Então, o consultaram, dizendo: Mestre, sabemos que falas e ensinas retamente e não te deixas levar de respeitos humanos, porém ensinas o caminho de Deus segundo a verdade; é lícito pagar tributos a César ou não? Mas Jesus, percebendo-lhes o ardil, respondeu: [Por que me tentais?] Mostrai-me um denário. De quem é a efígie e a inscrição? Prontamente disseram: De César. Então, lhes recomendou Jesus: Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Não puderam apanhá-lo em palavra alguma diante do povo; e, admirados de sua resposta, calaram-se." (Evangelho de Lucas, capítulo 20, versículos de 19 a 26; versão e tradução ARA)

Como vimos no estudo bíblico anterior, Jesus havia proferido a parábola dos lavradores maus através da qual denunciou claramente os líderes religiosos de sua época. Antes disto, os sacerdotes e os escribas tinham questionado a sua autoridade por expulsar os vendilhões e ensinar ao povo num lugar sagrado cuja administração pertencia exclusivamente aos primeiros. Só que não conseguiram levar adiante aquela repreensão quando o Mestre lhes respondera com uma outra pergunta indagando sobre a origem do batismo de João ser dos céus ou dos homens (20:4), de modo que preferiram se evadir do debate.

Agora, porém, são os sacerdotes que usam de um estratagema semelhante afim de obrigarem Jesus a se posicionar. Tentaram induzi-lo a entrar numa situação de rebeldia contra Roma. Se respondesse abertamente que não, o Mestre seria fatalmente denunciado às autoridades imperiais como um criminoso político subversivo e não era seu desejo morrer como mais um rebelde contra o dominador estrangeiro muito embora ele viera para Jerusalém para ser martirizado. Vejamos que, no texto paralelo do 2º Evangelho, do qual Lucas e Mateus dependem, diz ali que a cilada fora armada com a participação dos fariseus e dos "herodianos" (Mc 12:13). Ou seja, os religiosos teriam buscado a ajuda dos partidários do rei Herodes que, por sua vez, era uma vassalo dos romanos na região. Um líder provincial cuja autoridade vinha de César.

As poucas diferenças entre o texto bíblico em comento e o original de Marcos não são capazes de causar nenhuma alteração substancial no relato acerca deste episódio. Embora Lucas tenha usado o termo genérico "tributo" (verso 22), sabemos pelo contexto que o autor sagrado só poderia ter falado mesmo do "censo" (gr. kensos). Isto é, os opositores de Jesus estavam referindo-se a um imposto específico pago ao imperador com um duplo objetivo: (i) servir como prova da submissão servil da população conquistada por Roma e (ii) recensear cadastralmente pessoas e propriedades para fins de controle estatal. Tinha, portanto, um caráter interpretado como idolátrico porque, ao contrário dos demais recolhimentos tributários, colocava um monarca no lugar de Deus. Aliás, vale dizer que o termo césar (lat. caesar), antes de ter virado nome de gente, significava "senhor" sendo sinônimo de kyrius em grego, de modo que o pagamento daquela obrigação foi vista pelos judeus como um reconhecimento ou legitimação da autoridade romana.

De acordo com o historiador Flávio Josefo, desde o censo do governador Quirino, no século 6 da nossa era, os moradores da Judeia e de Samaria começaram a ter de pagar o tal imposto a Roma (Guerra Judaica 2:17; conferir com Lc 2:1-3). Só que um grupo de revoltosos na Palestina passou a protestar contra a submissão ao cadastramento fiscal romano provocando sérios conflitos na região. Para eles era acima de tudo uma questão de fé religiosa já que os recenseados deviam jurar submissão e fidelidade a César. Muitos radicais, então, preferiram o martírio e há quem considere que o movimento dos zelotes começou por causa desse fato com uma revolta liderada por Judas de Gamala, na Galileia, vindo a receber apoio do fariseu Zadoque, discípulo do mestre Shammai.

Ao ser testado, Jesus não se deixou enredar por toda aquela lisonja feita pelos homens que vieram a mando dos sacerdotes. Percebendo que queriam arrumar pretexto para acusá-lo de sedição, pediu que lhe dessem uma moeda do denário romano, a qual continha a efígie de Tibério, seu nome e o título "divino" que utilizava. E, embora a legislação mosaica proibisse o uso de imagens esculturais (Ex 20:4), algo que encontramos claramente no primeiro dos Dez Mandamentos, alguém entre os opositores do Mestre estaria fazendo uso daquele dinheiro idólatra como moeda corrente. Nem que fosse em segredo. Logo, havia incoerência da parte daqueles homens pois seria de esperar que pagassem alguma coisa com aquilo. E, se trouxeram um denário até o Senhor, foi porque, na certa, supunham que ele praticaria algum ato desrespeitoso para com os romanos, talvez destruindo o objeto perante o público.

Sem entrar no jogo dos caras, Jesus soube posicionar-se com maestria. O Mestre não precisou dizer que seus ouvintes deveriam resistir ao recenseamento. Era suficiente afirmar que César não tem os mesmos direitos de Deus, como a glória e o louvor que são devidos unicamente ao nosso Criador, mas o mero ato de pagar o tributo, alistando-se em Belém como fizera José esposo de Maria (2:4-5), não teria importância alguma. Bastava o contribuinte ter esse discernimento.

Talvez seja por isso que o escritor do 3º Evangelho falou da questão do pagamento do censo como sendo um tributo normal, diferente dos outros sinóticos. Numa provável releitura de Marcos, o texto de Lucas mostra-nos como Jesus retirou todo o veneno daquela situação conflituosa. E, ao se posicionar de tal maneira, ele também desencorajou a conduta dos radicais da sua época em se rebelarem contra Roma por causa do alistamento que, de tempos em tempos, repetia-se nas províncias dominadas pelo império.

A admiração causada pela resposta de Jesus foi seguida por um silêncio na plateia. Os seus opositores preferiram ficar temporariamente calados ao invés de se converterem. Apenas recuaram pois, no verso 2 do capítulo 22 de Lucas, sacerdotes e escribas estarão se reunindo novamente para decidirem como tirar a vida do Senhor.

A lição deste episódio não se relaciona, a meu ver, com a legitimação da cobrança dos tributos estatais e menos ainda com os dízimos e ofertas nas igrejas. Até mesmo porque, mais adiante, o Mestre criticará os escribas por desejarem as "primeiras cadeiras" e os "primeiros lugares" bem como "devorarem as casas das viúvas" (20:46-47) . Logo, não creio que Jesus concordasse com a exploração que faziam do pobre cuja renda familiar era comprometida para manter os privilégios dos dominadores romanos e dos religiosos de seu tempo.

É justa a cobrança de tributos estatais ou de contribuições numa organização religiosa quando o dinheiro arrecadado se presta para promover o bem da coletividade. Numa situação de colonialismo ou de apartheid social, o imposto torna-se um vil instrumento de opressão de modo que o seu pagamento só poderá ser feito por motivo de coação como num assalto, para o cidadão não sofrer as consequências de sonegar algo que uma lei feita pelos homens impõe.

Portanto, não me parece que Jesus, com toda a sua cautela de se expressar, possa ter assumido uma alienante postura apolítica. O Mestre compreendia o sentimento de exploração e de injustiça dos seus compatriotas que se revoltavam contra Roma, mas preferiu apresentar um messianismo humilde e pacífico tal como pude abordar no estudo sobre sua entrada nada triunfal em Jerusalém. Interessava-lhe mais combater a opressão dos sacerdotes e dos escribas do que a dos estrangeiros. Tanto é que o seu protesto no Templo esteve focado mesmo foi no repugnante comércio da fé (Lc 19:45-46). Afinal, a desobediência civil, nas vezes excepcionais em que for praticada, precisa ser feita de modo coerente e em conformidade com a vontade de Deus e Jesus nos ensinou que seus discípulos não devem sair atirando para todos os lados.


OBS: A imagem acima refere-se a uma moeda mostrando a imagem do imperador romano Tibério no anverso contendo a inscrição que, traduzida, significa "César Augusto Tibério, filho do divino Augusto". Foi extraída do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Tiberius,_R6195,_BMC_49.jpg

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O juízo histórico contra os "lavradores maus"


"A seguir, passou Jesus a proferir ao povo esta parábola: Certo homem plantou uma vinha, arrendou-a a lavradores e ausentou-se do país por prazo considerável. No devido tempo, mandou um servo aos lavradores para que lhe dessem do fruto da vinha; os lavradores, porém, depois de o espancarem, o despacharam vazio. Em vista disso, enviou-lhes outro servo, mas eles também a este espancaram e, depois de o ultrajarem, o despacharam vazio. Mandou ainda um terceiro; também a este, depois de o ferirem, expulsaram. Então, disse o dono da vinha: Que farei? Enviarei o meu filho amado; talvez o respeitem. Vendo-o, porém, os lavradores, arrazoavam entre si, dizendo: Este é o herdeiro; matemo-lo, para que a herança venha a ser nossa. E, lançando-o fora da vinha, o mataram. Que lhes fará, pois, o dono da vinha? Virá, exterminará aqueles lavradores e passará a vinha a outros. Ao ouvirem isto, disseram: Tal não aconteça! Mas Jesus, fitando-os, disse: Que quer dizer, pois, o que está escrito? A pedra que os construtores rejeitaram, esta veio a ser a principal pedra, angular? Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó." (Evangelho de Lucas, capítulo 20, versículos de 9 a 18; versão e tradução ARA)

Até hoje a parábola dos lavradores maus, presente também em Mt 21:23-27 e Mc 12:1-12, bem como no Evangelho não oficial de Tomé 65-66, ainda é mal interpretada por muitos no cristianismo como se Jesus estivesse falando sobre sua rejeição pela nação israelita. Padres e pastores de outras épocas fizeram dessa passagem um perigoso discurso contra judeus capaz de induzir os ouvintes a um anti-semitismo sendo que, na verdade, a metáfora tratava-se de uma crítica referida aos sacerdotes e escribas como o próprio texto de Lucas mostrará mais à frente (20:19). Afinal, o Mestre teria falado dos vinhateiros e não da vinha.

Não tenho dúvidas de que, ao proferir a parábola, Jesus teria inspirado-se no Cântico da Vinha que se encontra nos versos de 1 a 7 do capítulo 5 do livro de Isaías. Só que ali o profeta fala dos frutos que eram ruins para o consumo e a comercialização - as "uvas bravas". E, realmente, a crítica de Isaías foi dirigida à casa de Israel de um modo geral por estar vivendo em apostasia e pecado. Já na parábola de Jesus, não há qualquer menção de que o fruto fosse de má qualidade. O problema estava nos lavradores que eram maus, ingratos, capazes de retribuir uma oportunidade de trabalho com espancamentos e assassinatos. Queriam o lugar do dono da vinha para si numa repetição concreta do pecado de Adão, confundindo o uso laboral da terra com o direito de posse/titularidade. Pensavam que, uma vez matando o herdeiro, a gleba ficaria um dia sem dono e eles substituiriam o proprietário.

Sem dúvida isso é o que ocorre até hoje no ministério pastoral! Quer fosse nos tempos de Isaías, de Jesus e na atualidade em relação aos líderes da Igreja, eis que a conduta jamais se restringiu a um povo específico ou determinada religião. Os que deveriam cuidar do rebanho começam a abusar da fé das pessoas esquecendo-se de que existe Deus. Através do discurso religioso e/ou político, passam a manipular, extorquir dinheiro, reprimir e excluir seres humanos visando um interesse próprio.

"Muitos pastores destruíram a minha vinha e pisaram o meu quinhão; a porção que era o meu prazer, tornaram-na em deserto." (Jr 12:10)
"O SENHOR entra em juízo contra os anciãos do seu povo e contra os seus príncipes. Vós sois os que consumistes esta vinha; o que roubaste do pobre está em vossa casa." (Is 3:14)

A troca de vinhateiros, no entanto, não significa o fim do povo judeu, mas sim de um sacerdócio que havia se corrompido ta como na época do Primeiro Templo. A destruição de Jerusalém, feita pelas tropas de Tito no ano 70 de nossa era, vai de algum modo emoldurar o contexto no qual se desenvolve o ensino dos evangelistas através da parábola atribuída a Jesus. Porém, jamais podemos cometer o engano de achar que o seu cumprimento teria se dado exclusivamente naquele período pretérito de revoltas judaicas contra Roma. A história continua se repetindo hoje ainda dentro da Igreja e creio que o autor sagrado já estivesse preocupado com algumas situações nas comunidades eclesiásticas de sua época. Tanto é que a ausência do dono da vinha faz lembrar faz a espera do segundo advento de Cristo. Ou seja, a mensagem já teria um duplo direcionamento, valendo ressaltar que os seguidores primitivos e seus pastores nunca foram perfeitos.

Importante destacar também que a transferência da vinha para outros não deve ser vista como coisa ruim. Os ouvintes da parábola no Templo parecem ter compreendido que a mesma tragédia de destruição da época do profeta Jeremias iria repetir-se novamente (verso 16). Contudo, Jesus lhes respondeu citando uma metáfora do festivo Salmo 118 que, originalmente, seria aplicada ao rei de Israel quando este teria vivido uma desesperadora situação de batalhas militares em que a derrota se apresentasse como inevitável. E, naquele momento, a própria liderança do monarca estaria talvez ameaçada perante o próprio povo por causa de uma sequência de resultados negativos ou porque o adversário atacou-o com um exército mais numeroso.

Na releitura de Jesus e da Igreja, o verso bíblico citado teria aplicação imediata à sua pessoa que, dentro de uma análise mais profunda, corresponderia às boas-novas do Reino de Deus anunciadas pelos profetas de todas as eras. Se o poema fez menção de uma total inversão de valores através da mudança da sorte do rei que não deixou de ter fé em meio ao aperto, o messianismo humilde do Salvador com sua revolucionária proposta evangelizadora não teria pronta aceitação.

Só que Jesus vem a se tornar a "principal pedra" (literalmente "a cabeça da esquina"). Mesmo covardemente assassinado, o Mestre passa a ser o sólido fundamento de um outro edifício que começou a ser erguido. Seu exemplo e ensino norteiam a caminhada do povo de Deus na construção de uma nova realidade. E foi neste sentido que a ressurreição do Senhor parece ter sido significada pelos primeiros seguidores.

A parábola é encerrada com uma advertência de juízo (verso 18), a qual requer bom compreendimento para não gerar interpretações proselitistas equivocadas. A questão posta aí não se limita a alguém tornar-se ou não adepto da religião cristã. Isto seria errar em relação ao processo revolucionário do Reino ignorando o desígnio de Deus em relação à História.

Assim, o Salmo 118, muito lembrado na época pascal entre os judeus, torna-se o recado de Jesus para os ouvintes do seu tempo e também do nosso presente. O povo que o saudara jubilosamente na estrada de Jerusalém louvando a Deus (Lc 19:38) agora precisava conhecer em seus corações o sentido da mensagem por ele anunciada. Dizer "bendito o que vem em nome do SENHOR" precisa ser muito mais do que uma simples confissão verbal porque inclui decisão, atitude e comprometimento com a causa do Reino.

Que isso seja "maravilhoso aos nossos olhos", como diz o verso 23 do poema bíblico, e passemos a nos tornar agentes da obra de Deus na terra, fazendo história nos passos de Jesus. Assim, no dia que se chama hoje, iremos nos alegrar num estado de eternidade e celebrando tão grandiosa salvação de um Pai infinitamente misericordioso que jamais deixou de amar a humanidade.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro O filho do dono da vinha, pintado pelo artista francês James Tissot (1836-1902). Encontra-se atualmente no Museu do Brooklyn, em Nova York. Eu extraí a imagem do acervo virtual da Wikipédia em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Brooklyn_Museum_-_The_Son_of_the_Vineyard_(Le_fils_de_la_vigne)_-_James_Tissot.jpg

domingo, 13 de outubro de 2013

De volta à Ilha Grande



Quando eu ainda estava morando em Nova Friburgo, no outro lado do estado, escrevi o artigo Saudades da Ilha Grande, de 11/12/2010, lembrando as duas ocasiões anteriores em que havia estado lá. Desde o mês de agosto do ano passado, porém, vim então residir em Muriqui, uma localidade praiana no litoral sul-fluminense de onde é possível avistar a parte leste da ilha. Deste modo, passei a me situar numa distância de apenas meia hora da cidade de Mangaratiba de onde partem as barcas para lá diariamente às oito da manhã. Só que apenas contemplava-a de longe e não conseguia tomar a iniciativa de viajar novamente.

Assim, catorze meses depois de estar vivendo tão perto da Ilha Grande, a ponto de olhar para ela quase sempre quando andava pela orla marítima, finalmente decidi tirar um tempinho para viajar neste curto feriado do dia 12/10. Dei um direcionamento ao meu desejo e, após ter feito umas pesquisas na internet, escolhi um roteiro que ainda não havia realizado nas outras duas vezes que tinha estado na ilha, em janeiro de 1999 e de 2001. Resolvi então subir até o Pico do Papagaio afim de ter uma vista panorâmica da região desenvolvendo melhor o meu conhecimento geográfico, pelo que fiz o cuidadoso planejamento para ir e retornar na mesma data conforme os horários da barca. Com a ajuda do Google, descobri sites que atestavam as boas condições do caminho, a distância a ser percorrida até o cume e afastando os riscos de acontecer o que houve na vez quando me perdi no Parque Nacional da Tijuca, em junho de 2012.

Desta vez, deixei minha esposa previamente ciente do que pretendia fazer, levei o celular e fui bem cedinho tomar uma condução de Muriqui para Mangaratiba. Chegando ao atracadouro das barcas, cerca de uma meia hora antes, fiquei perplexo com o gigantesco tamanho da fila. Pessoas aguardavam em pé somente para comprar o bilhete sem terem a certeza se conseguiriam entrar no veículo por causa da lotação máxima de mil passageiros. Era gente com mochila, portando barracas de acampamento, muitos grupos de jovens, casais de namorados e famílias com crianças. Por ter direito à prioridade, um senhor idoso desavisadamente embarcou antes das filhas deixando-as preocupadas se entrariam lá ou não para se encontrarem com o pai. A empresa nem ao menos foi capaz de construir uma sala de espera coberta e com assentos para proporcionar um mínimo de conforto aos usuários como existe no Rio de Janeiro e em Niterói, num serviço prestado pela mesma concessionária de transporte.

Mas como eu estava passeando, deixei aquele mal momento de lado. Fui logo construindo um plano alternativo em minha mente. Se não conseguisse ingressar na embarcação, poderia fazer uma caminhada na região rural de Ingaíba ou então pegar uma das vans de Mangaratiba até Junqueira e de lá contratar algum barqueiro para me atravessar até à Ilha de Guaíba. Em todos os casos, eu estaria explorando novos recantos paradisíacos.

Felizmente deu para todo mundo entrar no veículo, mas saímos com uns trinta minutos de atraso sem que houvesse mais assentos disponíveis. A velha embarcação apitou, deu meia volta e partiu deixando para trás a Enseada do Saco onde está Mangaratiba. Ficando no lado direito, avistei Conceição do Jacareí, último distrito mangaratibense antes de Angra dos Reis. Procurei prestar a atenção em cada detalhe afim de me situar cada vez mais dentro da geografia regional.

Dentro de uns noventa minutos de viagem, chegamos à Enseada de Abraão que é a principal porta de entrada para a Ilha Grande, mas a minha passagem pela vila acabou sendo bem rápida. Fui direto pegar a estrada de terra que segue para a praia de Dois Rios. O caminho para o Pico do Papagaio fica bem no comecinho desse trajeto sendo que não tive dificuldade para encontrar a trilha. Havia uma placa indicando-a e a minha atenção estava bem focada no que pretendia alcançar.

A subida ao Pico do Papagaio é um mergulho no verde! Realmente o seu aspecto estava como lido na internet. Tudo bem cuidadinho, sinalizado e com orientações suficientes para o turista respeitar o meio ambiente. Podemos dizer que a única dificuldade ali seria a subida que é íngreme. Afinal, você vai estar saindo do nível do mar, no cais da Vila do Abraão, até atingir uma altitude de seus 982 metros.

No trajeto, há alguns córregos, mas é bom levar uma garrafinha d'água para o caso de alguma necessidade. Até mesmo porque, no topo do pico, não há nada para beber. No trajeto, deve-se ficar atento com as muitas pedras e raízes das árvores para evitar um tropeço. Alguns animais silvestres podem surpreender aparecendo durante a caminhada e algo que notei logo no início foi o som dos bugios (Alouatta guariba clamitans), conhecido também como "macaco barbado". O barulho que eles fazem mete um pouco de medo, mas saiba que tal primata da fauna brasileira não é nenhum gorila africano. Aliás, desconheço qualquer relato de turista que tenha sido atacado por macacos na Ilha Grande.

Se tivesse visto um bugio ali, seria a primeira vez que encontro um bicho desses solto na natureza. Já pude observar em outras ocasiões micos e saguis. Desta vez, entretanto, tive que me contentar só com pássaros e esquilos, sendo estes exóticos ao bioma da Mata Atlântica e foram indevidamente introduzidos na ilha pelo homem. Todavia, por já estarem adaptados, penso que talvez seja melhor o Inea mantê-los no ambiente do local. Os danos provocados por essas criaturinhas que lembram os personagens do Tico e Teco dos desenhos animados de Walt Disney parecem ser menores até do que os causados pelos micos-estrelas oriundos das matas da Bahia e de Goiás. Estes também foram importados para os ecossistemas do Sudeste.

Não nego que a conquista do pico foi árdua, bem sacrificante, mas foi algo que valeu a pena. O cenário de lá é incrível e, dependendo do dia, dá para ver até a Pedra da Gávea no Rio de Janeiro e o Dedo de Deus entre Guapimirim e Teresópolis. Neste último sábado, contudo, as nuvens só permitiam que eu avistasse as ilhas da Baía de Sepetiba, o Pico do Frade, entre Angra dos Reis e a cidade paulista de Bananal, além das serras de Campo Grande, a Marambaia, e a "muralha" de montanhas que separa os dois estados sendo protegida pela extensão do Parque Nacional da Serra da Bocaina. Dentro da ilha, reconheci fácil a Vila do Abraão, a praia de Lopes Mendes, Dois Rios e outros paraísos mais.

Apesar de sua elevada altitude, o Pico do Papagaio não é o ponto mais elevado da Ilha Grande. Maior do que ele é o Pico da Pedra D'Água com 1.031 metros. Só que a trilha de acesso para lá encontra-se fechada devido à política ambiental do Inea. Aliás, pude constatar que vários caminhos foram retirados dos roteiros turísticos de lá por conta do atual governo estadual fortemente influenciado pelo Carlos Minc nas questões ecológicas preservacionistas. Verifiquei que, atualmente, já não se pode mais dar a volta toda na ilha pois o trajeto entre a Parnaioca e o Aventureiro tornou-se restrito aos funcionários da Reserva Biológica Estadual Praia do Sul permitindo-se a visitação apenas de pesquisadores autorizados. Aliás, as normas tais normas já existiam antes porque o Decreto de criação da unidade é de 1981. Só não eram cumpridas.

Se for para o bem da natureza, amém. Posso dizer que achei a gestão territorial da ilha muito boa neste sentido se comparada com a realidade da maioria dos parques estaduais do Rio de Janeiro a exemplo dos Três Picos, Desengano e o Cunhambebe, todos com uma considerável área florestal no continente. Porém são unidades que continuam carecendo de uma melhor atenção do Poder Público sendo certo que dinheiro da atividade petrolífera é o que não falta ao Palácio da Guanabara.

Tendo me despedido das pessoas que encontrei no Pico do Papagaio, retornei para a Vila do Abraão. Cheio de fome fui almoçar no primeiro restaurante simples que achasse aberto. Ainda assim, os preços não estavam nada baratos. O prato individual mais acessível custou R$ 15,00 (quinze reais) fora a gorjeta e fiquei surpreso com o valor de R$ 7,00 (sete reais) cobrados pelo suco de laranja.

Na volta, a fila da barca estava menor do que na ida. Foi fácil comprar o bilhete e não houve atrasos na partida cujo horário é às 17 horas e 30 minutos. Contudo, peguei o mar bem mais agitado e, quando os passageiros precisavam ir ao banheiro, tinham que tomar cuidado por causa da instabilidade do veículo em meio às ondas. Quando cheguei a Mangaratiba já estava de noite.

Posso dizer que valeu a pena o passeio e ter feito tudo com planejamento e uma boa dose de segurança. Arriscar-me por trilhas que não estão no roteiro turístico como havia feito no Parque da Tijuca, no ano passado, foi o suficiente para aprender a lição. Afinal, se eu tivesse perdido a vida ali naquela travessura não autorizada entre os bairros Grajaú e Alto da Boa Vista, quantos lugares bonitos não estaria hoje privado de visitar? Mas graças a Deus que, pela sua infinita misericórdia, estou aí para contar novas aventuras.


OBS: Foto extraída da página do Inea na internet mostrando a vista do Pico do Papagaio conforme consta em http://www.inea.rj.gov.br/unidades/pqilhagrande_o_que_fazer.asp

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A autoridade de uma liderança popular questionada


"Aconteceu que, num daqueles dias, estando Jesus a ensinar o povo no templo e a evangelizar, sobrevieram os principais sacerdotes e os escribas, juntamente com os anciãos, e o arguiram nestes termos: Dize-nos: com que autoridade fazes estas coisas? Ou quem te deu esta autoridade? Respondeu-lhes: Também eu vos farei uma pergunta; dizei-me: o batismo de João era dos céus ou dos homens? Então, eles arrazoavam entre si: Se dissermos: do céu, ele dirá: Por que não acreditastes nele? Mas, se dissermos: dos homens, o povo todo nos apedrejará; porque está convicto de ser João um profeta. Por fim, responderam que não sabiam. Então, Jesus lhes replicou: Pois nem eu vos digo com que autoridade faço estas coisas." (Evangelho de Lucas, capítulo 20, versículos de 1 a 8; versão e tradução ARA)

Como vimos no estudo bíblico anterior, sobre a expulsão dos vendilhões do Templo, eis que Jesus passou a ensinar num lugar sagrado que era administrado com exclusividade pelos sacerdotes sadoquitas. E, ao que tudo indica, o Mestre ministrava as suas aulas ali sem ter sido convidado, dando a entender que o nosso Senhor, junto com os seus seguidores e apoiado pelo povo, fez uma ocupação habitual do local por alguns dias (Lc 19:47). O clero não sabia como impedi-lo.

Fico imaginando o que seria se um bando de "leigos" invadisse o Vaticano e celebrasse ali cultos religiosos sem a autorização do papa? Ou se, numa escola, um grupo de alunos resolve tomar conta do auditório de palestras e iniciar ali, por conta deles, um evento acadêmico sem o consentimento da direção ou dos professores? E ainda se, numa cidade, a praça em frente à Câmara dos Vereadores é tomada por manifestantes que resolvem iniciar uma audiência pública afim de deliberarem sobre os problemas do município?

Quer nos identifiquemos ou não com o que Jesus fez no Templo, o seu ato foi um tipo de desobediência civil. Algo polêmico não só por causa da ameaça de uso da força física contra os que faziam comércio ali mas, principalmente, pela falta de autorização por parte do sumo sacerdote. Mas o que poderiam fazer os líderes religiosos já que o povo estava ao seu lado (19:48)?

Uma estratégia usada pelos saduceus foi tentar desacreditar a liderança do Mestre perante as massas, algo que ele jamais impôs, mas conquistou por sua amorosa habilidade. Pensaram assim em enviar uma delegação composta por sacerdotes, escribas e anciãos do povo afim de encostarem Jesus contra a parede. Afinal, com que direito ele poderia invadir o Templo, botar os vendedores para fora e começar a pregar passando por cima do sumo sacerdote?

A pergunta feita no versículo 2 não se tratava de nenhum debate teológico ou de opiniões. Era uma repreensão! Estavam querendo era posicionar Jesus contra a instituição do sacerdócio e, consequentemente, contra a legislação de Moisés.

Ora, nada mais sábio do que responder a uma pergunta com outra. E, naquela situação, o Senhor conseguiu esvaziar a repreensão de seus opositores. Como eram os sacerdotes e não Jesus que tinham um telhado de vidro, a indagação se o batismo de João seria do céus ou dos homens obrigaria aqueles religiosos a se posicionarem caso fossem adiante no questionamento da autoridade do Mestre.

Quem se encontra no poder sabe muito bem que não deve assumir posições políticas a todo instante. Esta é uma razão pela qual governantes, legisladores e magistrados demoram a decidir determinadas coisas ou fornecem respostas bem evasivas. Preferem agir assim porque evitam os pontos polêmicos capazes de evidenciarem a incoerência de suas condutas ou de contrariar a opinião popular.

É claro que os sacerdotes não aceitavam e nem admitiam o testemunho de João como sendo "do céu" embora intimamente deveriam ter percebido a voz da verdade em suas pregações pela circunvizinhança do rio Jordão. Lembremos, todavia, que os religiosos rejeitaram o batismo de arrependimento (7:30) e ainda o testemunho daquele profeta acerca da autoridade do Cristo vinda de Deus:

"Eu, na verdade, vos batizo com água, mas vem o que é mais poderoso do que eu, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias; ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. A sua pá, ele a tem na mão, para limpar completamente a sua eira e recolher o trigo no seu celeiro; porém queimará a palha em fogo inextinguível." (3:16-17)

Pois bem. Se os sacerdotes dissessem com demagogia que o batismo de João era dos céus, não somente estariam expondo a incoerência deles como também responderiam à própria pergunta por eles formulada. E, por fim, acabariam tacitamente admitindo o messianismo revolucionário de Jesus capaz de inverter os valores do sistema oficial dos poderosos.

Vale lembrar que, tal como Jesus, João também não recebeu autorização de sacerdote ou de homem algum para exercer o seu ministério. Ele seguiu os passos dos antigos profetas bíblicos que, diante do estado de corrupção e de apostasia da nação, saíam clamando pelas praças contra o pecado. Agiu como Elias que enfrentou Acabe e sua rainha Jezabel quando denunciou o devasso Herodes pelas injustiças que cometia.

Creio que, em todas as épocas, profetas são levantados e uma lição que tiro do estudo de hoje é que um autêntico líder das causas populares vai inevitavelmente suportar situações semelhantes quando vier a defender o fraco contra o mais forte. Nestas horas, sempre vale a pena não nos esquecermos do telhado de vidro dos poderosos, o que lhes obrigará a nos tolerar quando a desobediência civil for inteligentemente ousada.

No atual momento político brasileiro de grande tensão nas ruas, vejo que as nossas lideranças populares não estão sabendo se conduzir neste mar agitado. Ao convocarem protestos que acabam oportunizando a ação dos vândalos e resultando em confrontos violentos entre mascarados e a polícia, perdem uma grande chance de fazer história. Pois penso que acertaríamos o alvo em cheio se os representantes da sociedade civil organizada iniciassem audiências públicas em cada cidade afim da própria população interessada debater sobre como deve ser feita a aplicação do orçamento municipal em 2014.

Lembremos que, ao invadir o pátio do Templo (Jesus não entrou na parte restrita do santuário), o Senhor preencheu aquele espaço com o seu ensino e anúncio das boas-novas tomando o direcionamento da assembleia do povo. Assim também, creio que, com uma convocação popular, poderemos discutir questões decisivas para os nossos municípios e que passam necessariamente pelo gasto do dinheiro público.

Se fizermos coisas assim, certamente que seremos também questionados com que autoridade estaremos convocando e presidindo uma audiência pública sem que haja previsão na Lei Orgânica Municipal. Contudo, tal como os sacerdotes nos tempos de Jesus, eles teriam que engolir as massas e temeriam pela perda de popularidade. Então, como resultado, haveria a formação de um ambiente desfavorável para a ação dos vândalos e que também obrigaria os prefeitos e vereadores a virem debater com a população onde esta se reunisse.

Embora eu discorde do ditado de que a voz do povo seja a mesma de Deus, não podemos nos esquecer do disposto no parágrafo 1º do artigo 1º de nossa Carta Magna, o qual diz que "todo poder emana do povo" e não exclui o meio direto de exercício, sendo certo que o Criador reconhece a maneira como nos organizamos. Assim, Jesus soube explorar a brecha de que, embora o sumo sacerdote fosse quem administrasse o Templo de sua nação, o prédio era um patrimônio de todos os judeus de maneira que não teria sido ele sozinho quem expulsou dali os vendilhões e os cambistas, mas sim o próprio povo. Era papel do profeta conduzir a nação a promover justiça quando os governantes a negligenciavam. E, igualmente, tal é o ministério dos arautos da revolução do Reino de Deus.


OBS: A ilustração acima refere-se a um antigo painel iconográfico datado do século VI e de autoria anônima, o qual se encontra no Mosteiro Ortodoxo de Santa Catarina, localizado no sopé do Monte Sinai, Egito. Foi extraído do acervo virtual da Wikipédia conforme consta em http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Spas_vsederzhitel_sinay.jpg