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segunda-feira, 31 de outubro de 2011

As bruxas e o patrulhamento ideológico sobre a sociedade

Enquanto a Inquisição papal da Idade Moderna promovia sua implacável caçada aos judeus na Península Ibérica, eis que as principais vítimas das perseguições religiosas na Alemanha, França, Itália e Inglaterra foram as mulheres acusadas de bruxaria. E talvez isto ajude a explicar o porquê dos festejos do Halloween neste 31 de outubro entre os povos de cultura anglo-saxônica. Inclusive nos Estados Unidos.

Geralmente, quando pensamos em bruxas, vem logo à nossa mente a ideia de uma mulher velha, feia, nariguda e malvada, capaz de enganar as inocentes donzelas oferecendo-lhes maçãs envenenadas como no velho conto da Branca de Neve. Porém, basta mergulharmos um pouco na História para descobrirmos quem eram essas mulheres perseguidas por feitiçaria pela Igreja na Europa entre o final da Idade Média e início da Idade Moderna.

Numa época de extrema pobreza e grande ignorância, em que a Medicina não podia desenvolver-se no Ocidente por causa do obscurantismo imposto pela religião, restava ao povo tentar o alívio para as suas doenças através da aspersão de água benta ou por meio de tratamentos à base de ervas. No caso das mulheres humildes, quando sofriam de problemas ginecológicos ligados à esterilidade e doenças do aparelho reprodutor, a exclusão tornava-se ainda maior. Os sacerdotes católicos, sendo eles homens e celibatários, não costumavam prestar atendimento em casos desta natureza, tornando impossível o diagnóstico e o tratamento da enfermidade.

Foi dentro deste contexto que surgiram as bruxas medievais que, na verdade, nada mais eram do que meras curandeiras dos vilarejos da Europa. Em sua respeitável obra, A fabricação da loucura: um estudo comparativo entre a Inquisição e o movimento de saúde mental, o psiquiatra húngaro Thomas Szasz ensina que a função social das bruxas era cumprida nas comunidades através de uma medicina popular que chegava a ser mistificada pela população. Através delas é que as mulheres pobres podiam de fato experimentar algum tratamento ainda que de maneira bem rudimentar a exemplo do que existiu com mais frequência até décadas atrás no interior do Brasil com as "benzedeiras".

Não demorou muito para que o catolicismo medieval passasse a ver a atividade curandeira das bruxas como uma ameaça ao seu poder religioso. Pelo fato da Igreja considerar as doenças do corpo uma consequência da vida pecaminosa, os meios de obtenção da cura física deveriam ser alcançados somente dentro da esfera espiritual. Logo, as bruxas, assim como os médicos judeus, representavam uma quebra do monopólio eclesiástico. Então, uma maneira de atacá-las foi dizer que tais mulheres tinham pactos com o demônio.

Com a edição da bula Summis desiderantes affectibus, em 1484, o papa Inocêncio VIII (1432-1492) concedeu permissão aos inquisidores para que reprimissem as atividades das bruxas através todos os meios possíveis. Quem tentasse impedir a ação dos inquisidores poderia ser até excomungado. Com isto, surgiu um terrível livro chamado Malleus Maleficarum (O Martelo das Feiticeiras), escrito em 1487 pelos dominicanos alemães Heinrich Kraemer (1430-1505) e James Sprenger (1435-1495).

A obra dos dois inquisidores, que se tornou um manual de caça às bruxas por aproximadamente uns 200 anos, era dividida três partes: a primeira ensinava sobre como reconhecer as bruxas em seus múltiplos disfarces e atitudes; a segunda abordava os supostos malefícios da bruxaria; e a terceira dispunha sobre os procedimentos que eram "legalmente" aplicados contra as bruxas, demonstrando como inquiri-las e condená-las.

Apesar da Igreja Católica ter oficialmente condenado o manual de Heinrich Kraemer e James Sprenger, com base num posicionamento da Universidade de Colônia (Alemanha), eis que, na prática, o Malleus popularizou-se rapidamente. Entre os anos de 1487 e 1520, a obra foi publicada 13 vezes. E, de 1574 até a edição de Lyon de 1669, houve um total de 16 novas reimpressões. Com exceção da Bíblia, pode-se considerar que aquela foi a obra mais vendida até a publicação do livro El Progreso del Peregrino, de John Bunyan, em 1678, sendo que não apenas os inquisidores católicos basearam-se na doutrina demonológica de Kraemer como até mesmo os protestantes nos hediondos julgamento proferidos contra as bruxas.

Assim, viu-se na Europa e também na América do Norte um festival de ignorâncias praticado contra as mulheres. Estas, ao serem presas, eram submetidas a um minucioso exame físico afim de que fossem encontradas evidências de pactos com o demônio através de marcas no corpo. E para que a vítima confessasse o "crime" de bruxaria, os inquisidores submetiam-na à tortura, conforme nos relata o ex-padre católico Marcelo da Luz em seu valioso livro Onde a religião termina?:

"Dessa forma, qualquer sinal de nascença, pintas ou mesmo lesões na pele, quando encontradas, serviam de provas contra as vítimas. Quando nada era encontrado, os inquisidores ou juízes encarregaram outras pessoas, inclusive médicos, na busca de marcas infernais invisíveis, supostamente imunes à dor ou ao fogo. O método usado para descobri-las era a perfuração, palmo a palmo, do corpo da acusada. Houve também, na Inglaterra, durante a segunda metade do século XVII, a prática da provação pela água. A vítima, após ter seus membros cruzados e amarrados, era jogada em água profunda, três vezes se necessário. Acreditava-se não ser a bruxa capaz de afundar, pois rejeitara as águas do batismo. Se afundasse, era inocente, mas esta constatação mostrava-se tardia e elas geralmente morriam afogadas."

Até onde a consciência humana, cega pelo dogma religioso, pode ser capaz de promover a destruição e a morte?

A caçada às bruxas, na verdade, foi resultado da imposição desse dogmatismo através de um patrulhamento ideológico sobre a sociedade. Mas foi também uma violência praticada contra as mulheres, um resultado da desarmonia entre o masculino e o feminino que existe na religião cristã capaz de gerar a misogenia. Principalmente no catolicismo romano em que os padres são proibidos de se casarem. E, por terem o desejo sexual reprimido dentro de si mesmos, os inquisidores transferiram suas loucuras para o mundo exterior, demonizando-o a tal ponto de matarem as mulheres que julgavam ser "bruxas" porque, na certa, despertavam seus desejos naturais.

No século XX, que foi uma época menos religiosa, pode-se dizer que a caçada às bruxas continuou sob outras formas. Não só no Brasil e na América Latina, como em outras partes do mundo, muitos foram perseguidos por razões de ideologia política. No contexto da Guerra Fria, pessoas consideradas comunistas chegaram a sofrer diversos tipos de preconceitos. E muitas delas foram presas, espancadas, torturadas e mortas.

A quem interessa este patrulhamento ideológico senão às classes dominantes que, para se manterem no poder, sempre necessitaram oprimir a população explorada economicamente?

Atualmente, ainda que as constituições dos países ocidentais protejam as liberdades de pensamento, de crença e de ideologia política, sabe-se que, na prática, há um preconceito contra quem decide pensar. Tem-se hoje um ambiente já formatado em que o ser pensante pode ser ridicularizado, abafado ou considerado como um "chato". Vive-se numa aparente liberdade para manifestar a opinião. Porém, em meio a ruídos dispersores e diante de uma audiência condicionada a uma aprovação externa que nem sempre racionalizada pelo público destinatário. Ou seja, ainda existe uma caçada às bruxas silenciosa digamos assim.

Neste dias das bruxas, em que alguns jovens do nosso país aderiram às modas norte-americanas dos bailes à fantasia, poucos sabem acerca das perseguições religiosas praticadas no passado. Quase ninguém desconfia que a demonização do outro é um golpe baixo dos que já não possuem argumentos lógicos afim de convencerem pela racionalidade. Então só lhes resta satanizar o "herege" (gr. hairetikis), isto é, o "indivíduo enquanto agente de escolha".


OBS: A primeira imagem acima refere-se à obra Witches (Bruxas) do pintor renascentista alemão Hans Baldung que teria vivido entre 1484-1545. Foi considerado o aluno mais talentoso do gravurista Albrecht Dürer. Acredita-se que a pintura em questão seja de 1508. Já a segunda ilustração diz respeito a uma edição de 1520 do Malleus Maleficarum e que se encontra na Biblioteca da Universidade de Sidney. Quanto à terceira imagem, cuida-se de uma foto do quadro Exame de uma bruxa do novaiorquino Tompkins Harrison Matteson (1813-1884), inspirado no julgamento das bruxas de Salém (1692).

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Percebendo o valor da Vida

Às vezes é duro ter que admitir que, em várias ocasiões, estamos desperdiçando energia com coisas tão pequenas afim de satisfazermos as nossas próprias vaidades pessoais, idolatrando o dinheiro, a fama, o poder, a aparência física, o prestígio social, as falsas impressões geradas nas mentes das pessoas, a reputação moral, o orgulho, o sucesso ou até mesmo o bem estar próprio quando realizado de uma maneira egocêntrica sem incluir a felicidade do próximo.

No Evangelho de Mateus, são contados três ensinamentos em sequência, atribuídos a Jesus, os quais nos falam acerca da percepção do valor do "Reino de Deus". Tratam-se das parábolas do "Tesouro Escondido", da "Pérola" e da "Rede". A primeira delas, que tem um paralelo interessante com o Evangelho de Tomé nos diz que:

"O reino dos céus é semelhante a um tesouro oculto no campo, o qual certo homem, tendo-o achado, escondeu. E, transbordante de alegria, vai, vende tudo o que tem e compra aquele campo". (Mt 13.44; ARA)

"Jesus disse: O Reino é como o homem que tinha um tesouro [escondido] em seu campo sem saber. Após sua morte, deixou o campo para seu [filho]. O filho não sabia [a respeito do tesouro]. Ele herdou o campo e o vendeu. O comprador ao arar o campo encontrou o tesouro. Começou então a emprestar dinheiro a juros a quem queria." (To 109)

Analisando esta história, notamos que o antigo proprietário do campo era alguém que jamais conheceu a enorme riqueza que havia no subsolo de suas terras e deixou de maneira cega que ela escapasse de suas mãos. Então, ele a entregou para outro vendendo o tesouro desapercebidamente.

Ora, como que alguém pôde ser tão negligente a ponto de ter utilizado o seu campo com extrema superficialidade sem jamais tomar a iniciativa de arar o solo com mais cuidado? Talvez o vendedor do terreno tivesse ocupado demais para se preocupar com coisas que julgasse improváveis de ocorrer ou então era um tremendo de um preguiçoso que preferiu arrendar aquilo que possuía para que outro plantasse e colhesse. Porém, o certo é que seus horizontes eram bem restritos e ele foi incapaz de ao menos indagar criticamente por que razão o comprador desfizera-se de tudo o que tinha para se tornar dono daquele sítio.

Acontece que este vendedor desatento muitas das vezes somos nós mesmos em relação às preciosidades da vida. Deixamos de experimentar as melhores atrações da existência humana para nos distrairmos com coisas bem pequenas tipo comprar o novo modelo dos televisores expostos na vitrine de uma loja de eletrodoméstico, exibir um carro novo pelas ruas da cidade ou vestir a roupinha da moda, ainda que nos endividando com prestações a perder de vista, colaborando com um sistema financeiro que escraviza tanto os consumidores quanto os trabalhadores, empresários e a economia global.

Uma questão deve ser levantada: até quando vamos ficar sonhando com o estilo de vida perdulário e vazio dos norte-americanos?

Afim de satisfazermos o nosso ego insaciável, destruímos tudo em volta e a própria vida que temos. Abrimos mão da paz interior e de compartilharmos um mundo melhor com o próximo. E estudos demonstram que, se todos os habitantes do globo terrestre tivessem o mesmo padrão de consumo dos ianques, nem dois planetas seriam suficientes para suprir a demanda por recursos naturais. Pois, se prosseguirmos nesta ambição, em que condições a humanidade viverá num futuro próximo?

Contudo, o homem que se desfez alegremente de tudo o que tinha afim de de adquirir o campo, demonstrou profunda sensibilidade em relação à vida. Pois, para encontrar o tesouro, ele precisou transcender a superficialidade quando se dispôs a arar a terra e a prestar atenção em alguma coisa estranha no subsolo. Talvez a sua enxada tenha batido em algo duro que ele poderia até ter pensado que se tratasse de um pedregulho e não se importado. Só que a sua curiosidade e interesse foram maiores, levando-o a cavar com persistência e fé até descobrir algo de grande valor.

No Comentário Bíblico Africano, Joe M. Kapolyo, teólogo batista de Zâmbia, conta-nos uma história ocorrida em seu país, na primeira metade do século passado, e que de certa maneira tem a ver com a parábola do tesouro:


"A extração de cobre em grande escala em Copperbelt, na Zâmbia, começou em 1922. Dizem que uma das maiores minas, a Luanshya, começou quando um explorador [William Collier] atirou em um antílope e descobriu sinais escritos com cobre numa rocha próxima ao corpo do animal. Grandes esforços foram empreendidos para remover os proprietários originais do local e abrir caminho para a instalação da nova mina. O explorador percebeu o valor dos depósitos de cobre e vislumbrou a possibilidade de grandes riquezas, por isso ele e seus associados fizeram de tudo para adquirir a terra e os direitos de exploração sobre ela. A parábola do tesouro enterrado num campo é a versão palestina do século I para a história dos depósitos de cobre na Zâmbia. O tesouro oculto claramente não pertence ao dono da terra, pois, se pertencesse, ele jamais a venderia. Ao encontrar o tesouro, o homem vendeu tudo o que possuía para comprar a terra, sabendo que havia algo muito mais valioso enterrado ali (13:44)" - com adaptações, sendo meu o destaque em negrito


Por mais chocante que seja esta história para os valores de hoje, ainda mais porque o autor fala em caça de animais, sendo implícito que, na época (década de 20), havia uma repugnante relação exploratória de colonialismo e de usurpação dos recursos naturais dos povos nativos africanos, devemos nos prender no sentido da parábola, abrindo as portas da nossa compreensão para o ensinamento proferido. E, assim como no caso do tesouro escondido, o comerciante de pérolas (Mt 13.45-46) soube canalizar o seu desejo para alcançar as melhores coisas. Ao achar a joia de grande valor, nada mais lhe importou a não ser conseguir aquela preciosidade, a qual, certamente, deve ter sido vendida por quem não soube avaliar a fineza do material:

"O reino dos céus é também semelhante a um que negocia a procura de boas pérolas; e, tendo achado uma pérola de grande valor, vende tudo o que possui e a compra." (Mt 13. 45-46; ARA)

Na vida, quando procuramos por algo que realmente será bom para nós, devemos empreender uma busca intensa. Nenhuma outra coisa pode nos distrair do objetivo almejado. Temos que aprender a focar e sermos verdadeiros naquilo que decidimos fazer.

Neste sentido, a terceira história contada por Jesus (Mt 13.47-50) tem muito a nos ensinar. A Parábola da Rede, a meu ver, transmite a ideia de pescadores sábios que descartam as coisas ruins que apanham durante o trabalho no mar, selecionando e armazenando somente os peixes bons. Aliás, neste dito atribuído a Jesus, se forem desconsiderados os dois versículos seguintes, pode guardar mais semelhanças com as duas histórias anteriores do que com a do joio e do trigo (Mt 13.24-30). Pois para mim, os redatores do 1º Evangelho talvez tenham se equivocado ao posicionarem os versos 49 e 50 ali e não depois do 30. Tanto é que a sentença 8 do Evangelho de Tomé passa uma visão que não tem muito a ver com a ideia escatológica que, possivelmente, foi a Igreja quem tentou transmitir e não Jesus. Senão vejamos comparando apenas os versos 47 e 48 do capítulo 13 de Mateus com o texto não aceito pelo cânon católico do Novo Testamento:

"O reino dos céus é ainda semelhante a uma rede que, lançada ao mar, recolhe peixes de toda espécie. E, quando já está cheia, os pescadores arrastam-na para a praia e, assentados, escolhem os bons para os cestos e os ruins deitam fora." (Mt 13.47-48; ARA)

"E ele disse: O homem é como pescador sábio que lança sua rede ao mar e a retira cheia de peixinhos. O pescador sábio encontra entre eles um peixe grande e excelente. Joga todos os peixinhos de volta ao mar e escolhe o peixe grande sem dificuldade. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça." (To 8)

Atentando para este ensino do evangelho lamentavelmente tido como "apócrifo" por católicos e protestantes, percebe-se que a sabedoria do pescador reside em sua concentração no peixe grande e proveitoso. Tanto é que os pequenos são devolvidos ao mar e ele não perde seu tempo tentando colecionar coisas inúteis.

Igualmente, nós também devemos aprender a pescar o "peixe grande" afim de não nos ocuparmos com coisas irrelevantes que nada acrescentarão à nossa evolução pessoal e experimentação da vida. Pois, todas as vezes em que dispersamos energia em busca dos "peixinhos", estamos é atendendo aos caprichos
do ego e perdendo oportunidades incríveis de crescimento espiritual através das circunstâncias que nos são oferecidas a cada dia.

Confirmando o valor do Reino de Deus, a Epístola aos Filipenses mostra-nos o quanto o apóstolo Paulo parece ter compreendido esta verdade:

"Mas o que para mim, era lucro, isto considerei perda por causa de Cristo. Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo". (Fp 3.7-8; ARA)

Como se vê, Paulo considerou como "refugo" (lixo ou esterco) qualquer coisa que interferisse em sua busca pelo que chamou de "sublimidade do conhecimento de Cristo", o que, em outras palavras, significa não uma compreensão intelectual de algum assunto, mas sim a experimentação do Reino de Deus em sua vida, o que podemos compreender como a verdadeira salvação e libertação do ser.

Desejo que nós possamos assimilar este aprendizado de Paulo e as esclarecedoras palavras de Jesus, fazendo os nossos ouvidos atentos e procurando aquilo que é incomparavelmente melhor a qualquer outra coisa desta vida.

Tenha um ótimo descanso neste final de semana!


OBS: A primeira ilustração acima trata-se do quadro Parábola do Tesouro Escondido, pintado por Rembrandt por volta de 1630. Já a terceira imagem refere-se à obra do italiano Domenico Fetti (1589 - 1623), a Pérola de Grande Valor. E a quarta ilustração é uma gravura do holandês Jan Luyken (1649 - 1712) representando a Parábola da Rede. Todas elas extraídas da Wikipédia. Somente a segunda, que mostra William Collier abatendo o antílope é que foi retirada de um site oriundo da Zâmbia: http://lindasmith.co.za/pages/gallery/copperbelt-219.php
Quanto às citações do Evangelho de Tomé, as tais foram extraídas da seguinte página na internet http://www.igrejavaroesdeguerra.com.br/LIVROS/Apocrifo_Evangelho_Tome.pdf

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Carta na Manga & Saci Chorão: RJ NO PAÍS DAS Maravilhas

Sempre que vou visitar minha família, na Zona Norte do Rio, e passo brevemente pelo estádio do Maracanã, entre o trajeto da Rodoviária Novo Rio e o Grajaú, não tem como a minha mente desconfiar do superfaturamento dos nossos governantes quanto às obras caríssimas para o Mundial de 2014.

Após o evento esportivo, quantos escândalos não vão surgir neste país e, em especial, no Rio de Janeiro? Fico até imaginando a oposição, na nova legislatura de 2015, pedindo a abertura da CPI da Copa ao mesmo tempo que os seus líderes chamariam a Dilma re-eleita para uma conversa às escondidas dentro daquele velho toma lá dá cá da politicagem brasileira.

Contudo, outra preocupação incomoda a minha mente. É sobre a questão da violência. Hoje em dia, com estas UPPs, o Rio está aparentemente pacificado. Só que, na verdade, as causas do problema permanecem dentro das sociedades carioca e fluminense. Ou seja, as desigualdades sociais, a falta de moradias adequadas para a população, a necessidade de se promover alternativas de trabalho e lazer para os nossos jovens, bem como as deficiências das escolas, tudo isso faz com que a cidade continue sendo uma máquina de conflitos.

Por acaso o turista que virá ao Rio para a final da Copa de 2014 e para os jogos olímpicos de 2016 sabe do que está acontecendo hoje na cidade? Ou as pessoas irão engolir as tapeações dos nossos governantes, como se eles tivessem de fato resolvido os principais problemas sociais?

Geralmente não sou fã do rítimo dos raps, mas gostei da letra dessa música que é bem crítica e mostra o outro lado do Rio do PAN, da Copa e das Olimpíadas. Ela denuncia que de fato "existe um fosso", "nesse colosso" e que "tá separando o nosso povo":

Carta na Manga & Saci Chorão - RJ NO PAÍS DAS MARAVILHAS by cartanamangarap


Rio de Janeiro, canto los Versos Expressos
Nao nego, Como e Tão belo, Sentado na Praia observo
E e Certo Que apos doses de café expresso
Me mantenho esperto Frente a Beleza do Seu manifesto

Nascer do sol, irradiar da Minha Mente
Mais um dia começa com elementos e Toda ESSA gente
Que caminham pra Lá e cá pra, nao sei Por quê
Pensamento viaja pra Longe do Meu serviços

Ando sem centro da Cidade sem meio da Multidão
Vejo uma galera rala Que atrás do Seu Ganha pão
Compro nd Uruguaiana camisa da Seleção
Desembolso Trinta Pratas tá Na Mão PoDE CRER

Tamo Junto com OS amigos nn Arcos da Lapa
Berço do samba, rap, Berço da letra ritmada
Mas apos exagerar nd cevada ...
hum Tomo susto Parceiro, acordando na Praia

("Mas que Furada!"), A Cafeína e sagrada
E me Deixa de pé, EM UMA Mais alvorada
Mas quando dou Por Mim, peguei UMA insolação
Acordo nd ambulancia indo pro socorrão

Levanto meio Estranho, não Pensando acontecido
Me SINTO atordoado, hum pouco estarrecido
Lembrando Que o rio Não É Só Águas de Março
Com uma Cabeça los rodopio, desmaio, desmaio ...
Ai entao eu Vejo ...

Refrão:
EXISTE UM fosso
Nesse Colosso
Tá separando Nosso povo (2x)
Rio de janeiro no País das Maravilhas!

Acordo n'uma Segunda de Janeiro, para no Rio
O CALOR e escaldante nao me SINTO Tão Sadio
Olha Só O meu estado, tô perturbado
A ressaca Chega Junto com som Pesado

Ontem dia FOI de alegria, Hoje e hum dia desgraçado
Droga da Passagem aumenta e tá Tudo engarrafado
Agora entenda uma ALÉM Cidade do carnaval
do Avião de Tom Jobim par o Rio 40 Grau

E quando volto à Realidade e nao Acho uma bossa nova
Turista si diverte, uma cova Cidadão Encontra
Como e Que PoDE?
Uns si chocam com uma Beleza,
Outros com choque de Ordem

Nenhum centro e não desceram o cacete Catete
Cidade Pra serviços vitrine joga debaixo do tapete
Mas ninguem si manifestações com ESSA onda de ma-fé
Quando Chove Nessa merda cadê uma arca de Noé?

Pego trem desgovernado hum Que vai perdendo uma Linha
Nao para em Promoção, a Numa lata de sardinha
Vendo uma Cidade Maravilhosa no País das Maravilhas
Com SEUS bairros segregados, Isolados FEITO Ilhas

Sem Falar das manchetes um CADA Meia Hora
Cabral escraviza Índios, Nossa tribo Colabora
Rio pra pan, Olimpíada e Copa? /
Cadê o rio par o carioca?

EXISTE UM fosso
Nesse Colosso
Tá separando Nosso povo (2x)



OBS: A letra da música e a ilustração foram extraídas do site acima.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

DEUS ORANDO O PAI NOSSO

Recebi esta mensagem hoje pelo Facebook e considerei relevante compartilhá-la aqui na blogosfera. Sua autoria, bem como da ilustração apareceram na rede social como atribuídas a Antonio Celso Poltronieri. Ou, pelo menos, ele seria a fonte de origem de uma mensagem anônima. De qualquer modo, a "oração" já caiu em domínio público e eu a considero importante para a edificação por nos apresentar de maneira bem universalista o amor e a bondade do Eterno:


Meu filho que estás na Terra, preocupado, solitário, desorientado.

Eu conheço perfeitamente teu nome, e o pronuncio santificando-o porque te Amo.

Não. Não estás só, mas habitado por mim e juntos construiremos este Reino,
do qual tu vais ser herdeiro.

Gosto que faças minha vontade, porque minha vontade é que tu sejas feliz.

Conta sempre comigo e terás o pão para hoje.

Não te preocupes.

Só te peço que saibas compartilha-lo com teus irmãos.

Sabes que perdôo todas tuas ofensas, antes mesmo que as cometas, por isso te peço que faças o mesmo com os que a ti ofendem.

Para que nunca caias na tentação, toma forte a minha mão e Eu te livrarei do mal.

Te Amo desde sempre.

Teu Pai.

Amém!

domingo, 23 de outubro de 2011

Em busca da consciência messiânica

Em 1578, durante a batalha de Alcácer-Quibir, morreu o monarca português D. Sebastião, o Desejado, aos 24 anos de idade, sem deixar nenhum descendente para reinar em seu lugar. Para os portugueses, ele era o único sucessor legítimo da Dinastia de Avis e, com sua morte prematura, o trono passou para Felipe II da Espanha, pertencente à Casa de Habsburgo.

Mesmo com a remoção de seu corpo para a Belém portuguesa, muitos não se conformaram com a morte do rei e daí criou-se o mito de que D. Sebastião ainda estava vivo e que retornaria um dia para livrar o país do domínio estrangeiro, dando início a um messianismo lusitano - o sebastianismo. Alimentando a crendice popular de que o monarca ainda iria retornar da mansão dos mortos para governar Portugal, o sapateiro Trancoso Bandarra chegou a compor suas trovas "prevendo" tal acontecimento. Assim, o movimento foi se revestindo de um caráter místico e patriótico, durando séculos e alcançando até o discurso de Antônio Conselheiro, o líder da Revolta de Canudos, no final do século XIX, no sertão nordestino.

Esperar pela chegada de messias ou de salvadores da pátria tem sido o repetitivo comportamento da humanidade há milênios. Quando leio os três primeiros evangelhos da Bíblia cristã, percebo nas entrelinhas uma certa indignação de Jesus quanto às expectativas messiânicas em sua época.

De acordo com a tríplice tradição dos sinóticos, houve uma ocasião em que Jesus perguntou aos discípulos sobre o que o povo e eles pensavam a seu respeito. Durante o diálogo, alguns levantaram a possibilidade de que o Mestre fosse João Batista, outros responderam ser ele "algum dos profetas" e houve até mesmo quem afirmou que talvez se tratasse de Elias (segundo as Escrituras hebraicas, o profeta Elias não morreu e foi arrebatado por Deus semelhante a Enoque). Então, intrepidamente, Pedro declarou que Jesus era "o Cristo" (ver Marcos 8.27-30; conferir com Mt 16.13-16 e Lc 9.18-20).

Para a surpresa dos discípulos que, assim como a maioria dos judeus da época, aguardavam a vinda de um messias capaz de livrar a nação do domínio romano, Jesus lhes proibiu severamente que anunciassem ser ele o Cristo. E tal vedação encontra-se não somente em Marcos 8.30 como também se repete em Mateus 16.20 e Lucas 9.21.

Por que razão Jesus teria advertido os seus discípulos para que não falassem a ninguém que ele era o Messias esperado por Israel? Será que de fato ele não era o Cristo? Seu tempo de morrer passando pelo sacrifício da cruz ainda não tinha chegado? Ou aquilo foi por razões de modéstia?

Aprendi através da doutrina eclesiástica que esta proibição teria sido transitória até ocorrerem a morte e ressurreição do Senhor, ou ainda até o acontecimento do Pentecostes, porque depois, quando os discípulos receberam a comissão de anunciar as boas novas em todo o mundo, deveriam pregar abertamente ser Jesus o Cristo, o Filho do Deus bendito. Porém, a Bíblia jamais menciona expressamente qual foi o real propósito de Jesus nesta passagem da tríplice tradição evangélica. E aí surgem intérpretes afirmando que Jesus negou ser o Messias prometido pelos santos profetas quando proibiu seus seguidores de pregarem tal coisa ao povo.

Bem, o que melhor consigo extrair dessa citação em estudo é que Jesus, provavelmente, pretendia desconstruir o conceito de messianismo que paralisava os movimentos sociais em Israel e, ao mesmo tempo, provocava sangrentos radicalismos políticos através de revoltas populares de galileus como as do zelotes. Tanto é que, no discurso escatológico, os discípulos foram alertados sobre os falsos cristos que poderiam aparecer:

"Então, se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis; porque surgirão falsos cristos e falsos profetas operando grandes sinais e prodígios para enganar, se possível, os próprios eleitos. Vede que vo-lo tenho predito. Portanto, se vos disserem: Eis que ele está no deserto!, não saiais. Ou: Ei-lo no interior da casa!, não acrediteis." (Mt 24.23-26; ARA)

De acordo com a história judaica, algumas décadas após o fim do segundo Templo, houve uma grande revolta liderada por Simão bar Kokhba, proclamado messias, dando ensejo a uma destruidora guerra dos israelitas contra os romanos na primeira metade da década de 30 do século II. Por conta daquele acontecimento catastrófico, os judeus vieram a ser expulsos de sua terra por praticamente dois mil anos. Após o massacre, o imperador Adriano proibiu que os judeus entrassem em Jerusalém e esta, ao ser reconstruída, tornou-se a Aelia Capitolina, tendo os romanos erguido sobre as ruínas do antigo Templo um lugar de adoração a Júpiter. E até ser criado o Estado de Israel, no século XX, a Terra Santa ainda seria ocupada pelos bizantinos, árabes, cruzados, turcos e britânicos.

Perigoso esse messianismo, não? Será que até hoje ainda não soubemos compreender a essência da mensagem messiânica dos velhos profetas da Bíblia? Mas, afinal, o que significam as palavras "Cristo" ou "Messias"?

Inicialmente, acho importante esclarecer que Khristós é o correspondente grego que os escritores do novo Testamento encontraram para o termo hebraico Mashiach, o que, por sua vez, significa "ungido". Isto porque, segundo a tradição bíblica, os antigos reis precisavam ser ungidos com óleo pelo sumo sacerdote israelita antes de governarem. E assim foi com Saul, Davi, Salomão e todos os outros monarcas da nação de Israel. Ou seja, cada um deles foi um messias até que chegou a invasão de Nabucodonosor e a deportação dos judeus para a Babilônia (século VI a.E.C.). A partir de então, nunca mais os judeus tiveram um outro rei ou messias porque passaram a viver debaixo dos seguintes impérios estrangeiros até os tempos de Jesus: caldeus. persas, gregos e romanos.

Sem dúvida que, após a bimilenar diáspora, o Estado de Israel continua ainda sem um monarca, tendo adotado a forma republicana de governo. E, atualmente, com uma expressiva população de ateus e judeus liberais, muitos israelitas chegam a rejeitar a ideia tradicional de messianismo de modo que há quem afirme ser o povo de Israel, ou o Estado de Israel, o próprio Messias.

Refletindo sobre a identificação do povo com a ideia messiânica, não desprezo o pensamento daqueles que desacreditam na vinda ou volta de qualquer Messias. Pois, se retornarmos aos tempos do profeta Samuel, veremos que este notável líder do povo judeu não se agradou da tola ideia de constituir um monarca sobre a nação. E, neste sentido, o texto bíblico fala claramente que o pedido de um rei significou a rejeição do povo ao próprio Deus (ver 1Sm 8.7; 10.17).

Diante dessas descobertas, cabe aqui a indagação por que os apóstolos de Jesus teriam começado a pregar ser ele o Messias? Pois, se por hipótese, considerarmos que o Mestre tivesse proibido os discípulos de anunciarem em qualquer momento ser ele o Cristo, houve então uma desobediência por parte daqueles primeiros seguidores?

Sem nenhum receio que me chamem de herege, compartilho o sentimento de que, admitindo-se tal hipótese (de ser Jesus um total demolidor da crença no messianismo), talvez os primeiros discípulos afirmaram que ele era o Cristo porque queriam justamente contestar a dependência de seus conterrâneos quanto à espera de um salvador da pátria. Possivelmente fosse o desejo de Jesus e dos apóstolos que a nação judaica despertasse para a realidade e começasse a liderar a si mesma, independentemente do bestial domínio de Roma ou de expectativas ilusórias. Assim, dizer que o carpinteiro de Nazaré era o Messias, sendo ele tão descendente do rei Davi como inúmeros outros em sua época, era o discurso ideal para que quaisquer pessoas comuns da sociedade, sobretudo os excluídos, pudessem se sentir confiantes para lutarem em prol daquilo que tanto marcou o discurso de Jesus - "a vinda do Reino de Deus". Logo, o objetivo inicial daqueles pregadores poderia ter sido o de despertar a consciência messiânica em cada um dos ouvintes.

Cada vez mais tem ficado claro pra mim que o comportamento simples de Jesus não se restringia à simples modéstia, mas tinha por objetivo ensinar ao seu público uma nova maneira de lidar com a realidade em todos os seus aspectos. Para tanto, os seus seguidores precisavam se libertar da passividade que paralisa os liderados e se tornarem militantes ativos do Reino, de modo que os discípulos foram incentivados a fazerem obras ainda maiores do que aquelas realizadas pelo Mestre (Jo 14.12). Assim, para que um novo mundo pudesse começar a ser desenhado, seria necessário estabelecer um princípio basilar de igualitarismo incompatível com as religiões e os regimes políticos autoritários em que as instituições manipulam as massas através da exaltação de algumas personalidades tidas como "privilegiadas".

É curioso que até os dias atuais ainda seja cultivado um messianismo dominador nos meios políticos e eclesiásticos. Nas eleições costuma-se dizer que o candidato fulano de tal "é o cara", atribuindo títulos indevidos a esses sujeitos enganadores a exemplo do slogan "caçador de marajás" usado por Collor de Mello em 1989. Ou ainda em várias igrejas em que os seus frequentadores são ensinados a obedecer cegamente o líder pastoral porque se trata do "ungido do Senhor". E isto sem falar nos papas católicos tidos como "representantes de Cristo na Terra" e "sucessores do trono de Pedro".

Chegou a hora de acabarmos com essas infantilizações e crescermos. Precisamos somente aceitar que Deus reina e cada um assumir o seu papel messiânico na coletividade quanto à construção de uma nova realidade planetária. E para que este governo divino e sem aparência humana seja concretamente estabelecido, primeiro devemos nos transformar interiormente. Aí, praticando uma reciclagem existencial e permitindo que o ego seja substituído pela consciência crística ou superior, tal como fez Jesus no seu aperfeiçoamento, partiremos então unidos para uma missão capaz de abalar os fundamentos desse sistema "babilônico" corrupto.

Que venha o Reino do Eterno! E que sejamos nós os construtores dessa era de justiça e de paz, precavidos de que, se alguém tentar se passar por falso profeta ou pseudo messias, mesmo vindo em nome de Jesus, não devemos lhe dar crédito. Afinal, como diz um interessante ditado zen, "se encontrar o Buda, mata-o" porque não é o Buda.


OBS: A primeira ilustração acima trata-se da obra Recommandation aux apôtres (Recomendação aos apóstolos) do pintor francês Joseph Jacques Tissot (1836–1902). O quadro foi feito entre 1886 e 1894, encontrando-se hoje no Museu do Brooklyn. Já a segunda ilustração trata-se de um retrato de D. Sebastião de Portugal pintado por Cristóvão de Morais em 1571. Quanto à terceira imagem, cuida-se de um dos frescos que se encontra numa velha sinagoga em Dura Europos, Síria, e que mostra o profeta Samuel ungindo Davi como rei sobre Israel.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Nós e a tragédia da fome no planeta

Acho que esta forte imagem sobre a desnutrição de uma criança na África já fala por si só.

Diante de problemas assim, muitas das nossas preocupações cotidianas tornam-se mínimas. Mas cabe aí a pergunta sobre o que fazer e como fazer para mudarmos este quadro?

Lembro que, no nosso país, não muitas décadas atrás, tínhamos vários bolsões de miséria não muito diferentes do continente africano e de outras partes do mundo. Principalmente na Região Nordeste. Porém, com o desenvolvimento da economia e também da democracia e dos direitos sociais, é certo que muita coisa mudou.

A vida do brasileiro pode não ser ainda 100% satisfatória, mas não temos mais tantas crianças morrendo por desnutrição. Morre-se ainda pela violência, pela má prestação dos serviços de saúde na rede pública, pela nossa vulnerabilidade às catástrofes climáticas e acidentes. Só que aí eu volto à questão. Como iremos agir?

Bastam só orações, recitar trechos da Bíblia e colocar em prática os métodos espirituais ensinados pelas religiões? Será que a nossa atuação política como militantes de organizações que agem de verdade não deve TAMBÉM ser incluída?

Sem dúvida que a fome na África tem inúmeras razões. Uma delas poderia ser os problemas ambientais e climáticos que assolam o planeta. Contudo, eu entendo que o maior problema é mesmo de natureza política. Hoje os países africanos são dominados por terríveis ditadores. Como herança da colonização europeia, eis que, dentro do mesmo território de um país, existem várias tribos de idiomas e origens diferentes que nem sempre se entendem. Faltam escolas, serviços de saúde, combate a epidemias e endemias, empregos, terras disponíveis para a população pobre plantar e paz. Devido às inescrupulosas guerras, nem sempre é possível levar os alimentos até os bolsões de miséria porque determinadas guerrilhas não permitem.

Enfim, não é um problema muito fácil de se resolver e nem sempre a ONU quer atuar já que certos ditadores africanos interessam às políticas das potências. Só que ainda assim, é o trabalho voluntário que tem feito a verdadeira diferença e daí a importância dos movimentos sociais de dentro e de fora desses países que podemos considerar como sendo verdadeiramente pobres.

Sinto que, na atualidade, há uma forte tendência de integração das nossas dimensões existenciais. Até porque a compartimentação do ser humano em corpo, alma e espírito foi uma invenção grega a ponto do homem ocidental moderno ter criado "uma vida política", "uma vida religiosa", “uma vida familiar”, etc. Sinto que hoje precisamos integrar a nossa espiritualidade com a luta política por um mundo melhor. E, se faltam aos religiosos mais atuação política, eu diria que para inúmeros militantes das causas sociais existe a necessidade de um despertamento espiritual.

Imagine, por exemplo, se num protesto político as pessoas dobrarem seus joelhos em oração e recitarem um salmo da Bíblia? Ou mesmo a oração do Pai Nosso que, dentro do Brasil, é algo praticamente universal para quase todos os brasileiros. Ou ainda fazermos um minuto de silêncio diante de um prédio público onde ficam as nossas autoridades corruptas, o que pode ter mais efeito do que manifestantes ficarem dizendo palavrões ou chamando os políticos de “safados”.

Mais do que nunca os dois lados precisam andar juntos, o que não significa retornarmos a um Estado religioso como foi no passado e como ainda são diversas nações do Oriente Médio. Até porque despertar a espiritualidade independe de seguir religiões ou uma tradição específica, mas sim na desobstrução da nossa sensibilidade.

Pensando na triste foto que ilustra o texto e sentindo neste momento a minha impotência diante de situações desse tipo, posso neste instante pedir a Deus que tenha misericórdia dessas crianças no outro lado do oceano e compartilhar afim de que mais pessoas que me lerem se interessem pela causa, sentindo-se não culpadas, mas sim responsáveis pelo drama social do nosso planeta.

Compartilho a seguir uma matéria extraída do site "Terra" e que fala sobre a preocupante situação da Somália:


ONU: fome na Somália se agravará nos próximos quatro meses

A fome afeta uma sexta região da Somália e a situação se agravará nos próximos quatro meses, já que a ajuda humanitária não aumentará, anunciou a ONU nesta segunda-feira.

O limite da fome foi superado ante a desnutrição aguda e o índice de mortalidade registrado na região de Bay, sul da Somália, em consequência de uma seca devastadora no Chifre da África, destacou a ONU.

"Se o nível atual de resposta (a crise humanitária) continuar, a fome seguirá progredindo nos próximos quatro meses", adverte em um comunicado a Unidade de Análises da ONU para a Segurança Alimentar e a Nutrição (FSNAU).

"No total, quatro milhões de pessoas estão em situação crítica na Somália, das quais 750 mil correm o risco de morrer nos próximos quatro meses na ausência de uma resposta adequada em termos de envio de ajuda", completa o texto. "Dezenas de milhares de pessoas já morreram, sendo que mais da metade eram crianças", recorda a FSNAU.

O estado de fome responde a uma definição estrita das Nações Unidas: pelo menos 20% das residências confrontadas com uma grave penúria alimentar, 30% da população com desnutrição aguda e uma taxa de mortalidade diária de dois sobre 10 mil pessoas.

A região de Bay, a última declarada em fome pela ONU, é controlada pelos insurgentes islamitas shebab, assim como grande parte do sul e do centro da Somália, e inclui sobretudo a cidade de Baidoa, uma das principais do país.

No total, 12,4 milhões de pessoas residentes no Chifre da África sofrem com a pior seca em décadas e precisa de ajuda humanitária, segundo a ONU. A Somália é o país mais afetado em consequência da guerra civil iniciada em 1991, que destruiu boa parte das infraestruturas e dificulta muito o acesso ao centro e ao sul do país.



OBS: A primeira foto extraí da comunidade "Zohar para uma causa" do Facebook em http://www.facebook.com/photo.php?fbid=206279429440509&set=a.206279426107176.46679.205561879512264&type=1&theater#!/pages/Zohar-para-uma-causa/205561879512264

Já a segunda imagem, que mostra mulheres e crianças se aglomerando para receber ajuda humanitária de membros da al Shabaab, no campo de Ala Yaasir, foi tirada pela Reuters e eu a extraí do site "Terra" nesta matéria acima de 05/09/2011 em http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI5330857-EI17615,00-ONU+fome+na+Somalia+se+agravara+nos+proximos+quatro+meses.html

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Pai Nosso cantado em flamenco

Compartilho a seguir uma maravilhosa versão da oração PAI NOSSO que nos foi ensinada por Jesus no célebre discurso do Sermão da Montanha (ver Mateus 6.9-13). Aqui ela é cantada em flamenco pelo GRUPO SEVILLANO SIEMPRE ASÍ (adaptação de OSCAR GOMEZ). Chamou-me a atenção eles fazerem uma ligação com os problemas sociais do planeta.

De fato, quando oramos "venha a nós o vosso reino", estamos clamando pela concretização de uma nova realidade aqui na Terra, pela qual devemos trabalhar com fé e ação. Logo, tem tudo a ver a associação feita pelo grupo.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Salmo 67: um cântico de gratidão a Deus pelas "colheitas"

"A terra deu o seu fruto,
e Deus, o nosso Deus, nos abençoa.
"
(Sl 67.6)

Na atualidade, como tem sido difícil as pessoas agradecerem ao Eterno pelas boas dádivas que desfrutamos?! Vivemos dias em que a humanidade falha por não reconhecer a participação de Deus na concretização dos seus projetos, ignorando até a existência do seu Criador.

Contudo, o salmo 67, notável pelo seu escopo universal, inicia com uma súplica a Deus e que faz lembrar a bênção sacerdotal (Bircat Kohanim), conforme se lê também em Números 6.25:

"Seja Deus gracioso para conosco,
e nos abençoe,
e faça resplandecer sobre nós o rosto
"
(verso 1)

Ora, o que significa "resplandecer o rosto"?

Uma ideia que logo se relaciona com esta imagem seria o favor divino que produz a bem-aventurança. Assim como as plantas necessitam da luz solar para crescerem e darem frutos, nós também precisamos ser interiormente iluminados pela Presença do nosso Criador, alcançando a sabedoria espiritual inspiradora das Escrituras, o que só pode ser obtido através da graça e da bondade de Deus.

Certamente que, no decorrer do poema bíblico, o louvor de gratidão do salmista não se resume às colheitas agrícolas, em cujas festividades os israelitas recitavam, e daí a importância do selah, isto é, da pausa meditativa sugerida pelo redator. Pois, quando paramos para refletir no que existe além dessas simples palavras, compreenderemos que o poeta estava apresentando um plano de Deus para toda a humanidade.

Sem dúvida que Deus é o soberano de todas as nações e não apenas de um só país. Através da Bíblia sabemos que o povo de Israel buscou um relacionamento com Deus. Porém, o Eterno quer ser conhecido pela humanidade inteira e dar a todos graciosamente a sua salvação.

No verso dois do poema (numeração da tradução revista de João Ferreira de Almeida), o salmista fala do conhecimento do "caminho" de Deus, o que está relacionado intimamente com a salvação. E aqui cabe fazer uma indagação sobre do que precisamos ser salvos?

Sinceramente, não acredito nessas fantasias escatológicas que muitos propagam nos dias atuais, instigando o medo e promovendo um desprezo pela continuidade da vida no planeta como se tudo aqui tivesse que ser destruído e somente os crentes em Jesus habitarão uma nova Terra revestidos por um corpo celestial. Aliás, estas ideias apocalípticas nem ao menos se passavam pela cabeça do salmista quando ele compôs o poema, visto que para ele a salvação estava intimamente relacionada com a compreensão dos caminhos de Deus.

Sem dúvida que a palavra caminho entra no texto como uma metáfora para a instrução divina (Torá). Logo, para que o homem possa experimentar a salvação (em sua vida terrena), ele deve fazer o seu ouvido atento à orientação que Deus lhe dá a desta maneira aprender a viver, lidando harmonicamente com os seus sentimentos e desejos.

Observa-se implícito no texto bíblico o papel messiânico de Israel. Pois, tendo a nação alcançado uma experiência no conhecimento de Deus, caberia aos judeus convidar todos os povos para a adoração do Eterno. E esta convocação trata-se de um compartilhar considerando que o outro também tem a sua forma de relacionamento com a Divindade, algo que é bem diferente dos "evangelismos" de inúmeras igrejas por aí.

Por sua vez, o universalismo do Salmo 67 respeita a diversidade cultural das nações. Cada povo permanece independente em relação ao outro. Eles não perdem seus territórios, mas apenas são julgados Deus de toda a Terra. Não se trata da imposição da fé num deus judeu, mas sim no reconhecimento da Inteligência que antecedeu o Universo e nos guia a um propósito elevado. Portanto, no versículo sete, o poema atinge o seu objetivo final que é a essência da salvação de Deus: "e todos os confins da terra o temerão".

Certamente que o "temor de Deus" não significa medo, mas sim reverência. E, quando a humanidade passar a ter respeito pela Inteligência Superior, começar a amar a Vida e a refletir sobre si mesma, ela terá alcançado a tão desejada "salvação". E, com esta compreensão, passamos a entender que o importante é sermos salvos no aqui e agora e não a ideia de que seremos salvos após a morte ou quando chegar a fim do mundo. Pois, se permitirmos que o Santíssimo graciosamente nos oriente, mostrando-nos o seu caminho, tão logo notaremos a percepção da sua doce Presença e a sua salvação.

Junto com todo esse entendimento opera o louvor. Através da celebração feita com gratidão e alegria, podemos viver no presente momento o reinado do Eterno sobre as nossas vidas. Não precisamos esperar este ou aquele acontecimento para ficarmos de bem com a vida. Para Deus não importa o valor do nosso patrimônio econômico ou moral. Tão pouco Ele está interessado em ficar anotando os nossos erros para depois nos pedir conta das condutas praticadas como se desejasse sair distribuindo punições. Deus simplesmente nos convida para o seu banquete, afim de que possamos festejar a vida ao lado do nosso irmão.

Assim, para concluir meus comentários sobre o Salmo 67, compartilho a seguir este magnífico louvor cantado por Asaph Borba em Israel denominado Selah e que foi disponibilizado no Youtube pela própria gravadora Adorarnet.



OBS: A imagem ilustrativa deste artigo foi extraída do ficheiro da Wikipédia e mostra um homem trabalhando no cultivo de arroz, tendo sido um produzida pela United States Agency for International Development, o que torna o material de domínio público - http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Rice_Field.jpg

domingo, 16 de outubro de 2011

Um breve passeio no “Céu”


Um homem, ao infartar prematuramente aos 51 anos, foi encontrar-se com Deus. Depois de ter passado por um túnel de luz, situou-se numa estação de trem em que pessoas embarcavam e desembarcavam. Foi aí que ouviu uma voz por detrás dele dizendo:

- José, José!

Assustado, ele olhou para todas as direções procurando quem lhe chamara e respondeu:

- É comigo?

- Não. É com o José Sarney. Seja bem vindo à estação celestial!

- Quem é você? Onde estou? Por acaso morri, não? Considerando esta hipótese, isto significa que você seja Deus. E, sendo assim, eis-me aqui, Senhor.

- José, José! Você chegou rápido demais aqui e não aproveitou direito a vida que lhe concedi. O que aconteceu contigo, filho?

- Senhor, eu passei anos esperando por este momento sagrado. Ingressei num seminário católico, não aguentei aquela vida de padre, saí de lá, casei-me, tornei-me membro de uma igreja evangélica, passei a fazer orações todos os dias, li sempre a Bíblia, falei de Jesus pra milhares de pessoas incrédulas e agora, ao chegar no céu, o Senhor nem ao menos me recebe de braços abertos com a recompensa que tanto aguardava e ainda vem chamar-me a atenção.

- José, José! Deixa de infantilismo, cara! Não existe nenhuma recompensa póstuma. Comigo não tem barganhas! Eu te proporcionei uma vida potencialmente maravilhosa para você aprender a aproveitá-la, mas pelo que vejo acabou desperdiçando as oportunidades que teve.

- Mas o Senhor não acha que eu aproveitei? E as minhas orações, frequências assíduas aos cultos dominicais e incansáveis leituras devocionais da Bíblia? Nada disto tem valor para o Senhor?

- José, José! Você chama aquelas ladainhas de oração feita? Você apenas trocou as vãs repetições das missas católicas por palavras mecanicamente pronunciadas pelos invangélicos. Só agora está orando de verdade, mas isto todos aqui já fazem naturalmente sem precisar da fé.

- Puxa vida, Deus! Será que me enganei? Qual será a sua religião? Por acaso o Senhor é espírita?

- Eu sou o Espírito da Vida, mas espírita não.

- Já sei. O Senhor é o Deus de Israel?

- Sim. Os israelitas são meus filhos assim como os árabes e brasileiros.

- Então o Senhor é judeu?

- Claro que não! Pode um extraterrestre ser judeu, italiano, brasileiro ou alemão sem antes se naturalizar? Só é judeu quem nasceu de mãe judia e você como fez Teologia deveria lembrar-se disso.

- Por acaso o Senhor não é muçulmano, né? Pois, caso seja, já sei que tô ferrado porque os teus anjos vão querer me jogar na tal da Geena porque nunca acreditei no teu profeta Maomé. De qualquer modo, como sei que o Alá é "clemente e misericordioso"...

- José, José. Para com isto. E antes que você fique testando a minha paciência igual a Abraão quando intercedeu por Sodoma, vou logo ao assunto e adianto que não vou te jogar no inferno. Acrescento também que não sou budista, nem hindu, nem xintoísta, nem cristão, nem esotérico, nem agnóstico, nem umbandista, candomblecista, marxista ou agnóstico. Digamos que do meu ponto de vista exclusivo eu seja ateu porque não faz sentido eu adorar a mim mesmo.

- Caramba, Deus! Nunca imaginei que o Senhor fosse um cara tão simpático, acessível e bem humorado. Passei a minha vida toda em função de igrejas e nunca aprendi a dialogar contigo. Recitava os salmos constantemente e me faltava a mesma espontaneidade do rei Davi. Bem que eu precisava ter lido o livro A Cabana.

- E você também não aprendeu a viver, José? O que houve de errado contigo, filho?

- Eu até que tentei aproveitar a vida, Senhor. Recordo muito bem de quando fiz aquela viagem de retiro espiritual para Foz do Iguaçu aos meus 34 anos. Foi em fevereiro de 1994. O Senhor não me viu lá?

- Sim. E o que você achou das cataratas?

- Não me lembro.

- Na verdade você nem foi no parque nacional embora adorasse pregar na igreja sobre o Sermão da Montanha e ainda escreveu um artigo no seu blogue com o título “Olhai para os lírios do campo”...

- O Senhor tem razão. Minha esposa e meu filho foi que visitaram o local e tiraram até fotos de um bando de pássaros no lado argentino. Naquele dia eu achei que não deveria sair do hotel que a igreja alugou porque era dia de Carnaval. Fiquei pensando no que as pessoas pensariam de mim se me ausentasse das atividades do dia porque na certa algum irmãozinho iria fofocar que eu caí no samba e enchi a cara de cachaça.

- Quanto tempo desperdiçado, não José? Você se meteu num seminário, tomou a decisão certa em sair da gaiola e romper com aquele voto ridículo de castidade, casou-se com uma mulher bem virtuosa, mas depois nem satisfazia direito a pobre da dona Tereza.

- Senhor, não me julgue deste jeito pois eu até que cumpria direitinho com o meu dever conjugal. Pelo menos umas três vezes na semana eu comparecia.

- Você quer dizer que transava com ela! Eu estou perguntando como que você a completava satisfazendo-a nos outros momentos do dia? Além de abandoná-la na maior parte do tempo, você nem permitiu que o seu filho Rafael desfrutasse da companhia do pai.

- Eu reconheço que errei, Senhor. Mal chegava do escritório e me trancava logo no quarto para terminar de trabalhar. Então acessava a internet e ainda desperdiçava horas metido naquele joguinho chamado Citiville.

- Foi uma pena que você nunca tenha participado numa reunião de pais na escola do Rafael. Viveu sempre trocando uma compulsão pela outra e fugindo de si mesmo. Eu até tentava lhe dizer algo no silêncio do seu coração, mas você não queria me ouvir embora lesse todos os dias a Bíblia e orasse pedindo respostas. Quando se sentia incomodado ligava logo a TV.

- Sinceramente, não posso negar que vacilei, Deus. Será que vou poder re-encarnar e voltar através de algum neto? Minha nora pretende engravidar do meu filho no próximo mês e eu poderia aproveitar para pegar logo aquele trenzinho ali.

- José, José. A Terra já está ficando muito cheia. Se eu deixar todo mundo que está aqui nascer novamente o planeta ficará mais insustentável do que já está. Ainda mais nessas irresponsáveis sociedades de consumo como são o Brasil e os Estados Unidos. Além do mais, para nascer a pessoa precisa ganhar aquela corridinha que você vai assistir daqui a pouco. Geralmente, dentre os humanos, é só o primeiro colocado. Às vezes eu permito que o segundo, o terceiro e até o quarto subam no pódio. Outro dia deixei ganhar uns sete e você nem ao menos assistiu no Fantástico.

- Não sei do que o Senhor está falando, Deus. E quando será esta corrida?

- Deus fez um buraco nas nuvens e mostrou um casal no Oriente Médio indo pra cama nupcial. Depois fechou rapidamente.

- Entendeu agora, José?

- Senhor, por favor deixe eu participar daquela corrida. Quero uma segunda chance!

- José, José. Por acaso você não sabia decorado aquele versículo 27 do capítulo 9 da epístola aos Hebreus que tanto usava para tentar convencer os espíritas a se tornarem da sua religião? O que vem mesmo após a morte?

- O juízo.

- Isto mesmo.

- E quando que será o meu julgamento, Senhor? Você me disse há pouco que não me mandará para o inferno. Tô confiando nas suas palavras?

- Só agora que você crê, José?! Seu bobo! O juízo já está acontecendo agora através deste nosso papo informal. Logo depois daquele rio você logo vai poder encontrar seus pais e lhes dizer todas as palavras reprimidas que deixou de falar quando eles ainda estavam vivos. Se bem que agora eles já estão sabendo de tudo e têm consciência das coisas boas e más que fizeram a você.

- E o papai me perdoou por nós termos deixado de nos falar até a sua morte?

- Se ele te perdoou? Mas é claro que sim. Aqui estas coisas já não fazem o mínimo sentido. Ele só lamentou como você o fato de não ter te procurado antes para dizer o quanto te amava.

Uma lágrima rolou do rosto de José e, naquele mesmo instante começou a corrida. Todos ficaram assistindo a competição emudecidos. Deus então fez um sinal para o anjo Gabriel e o chamou até ele.

- Gabriel, venha cá. Preciso de falar uma coisa.

- Pois não, Senhor. Eis-me aqui.

- Está vendo aquela menina de cabelos ruivos?Quero mandá-la para a Síria. Ela será a primeira presidenta dos países árabes e o seu toque feminino ajudará Israel e a Palestina a encontrarem a tão desejada paz. Já aquele menino de olhos verdes que está construindo cogumelos atômicos com os pedacinhos de nuvens, infelizmente terei que deixá-lo nascer. Ele vai fazer muito mal à humanidade, porém diversas pessoas encontrarão a oportunidade de se aperfeiçoarem interiormente.

Depois disto, José prendeu a sua atenção no final da corrida e assistiu a menina ruiva saindo vitoriosa e, após receber a medalha no pódio, foi colocada pelos anjos na ordem da fila do trem junto com outras crianças. Olhou em seguida para o lado e observou Deus contando um segredo para o anjo Gabriel, tendo o Poderoso piscado seus olhos para ele e sorrido. Então José e Deus tornaram a se falar.

- José, José. Como pôde perceber ainda temos muitos assuntos para conversar e boa parte desta conversa poderia ter sido resolvida enquanto você ainda estava na Terra. E acho que vou precisar deixar o resto do nosso diálogo para outras oportunidades.

- Por acaso o Senhor está ocupado no momento?

Deus nada respondeu desta vez, exceto com um sorriso. José voltou a falar:

- Senhor, aquele garotinho de cabelo crespo se parece com o meu sobrinho.

- Parece, mas ele é o teu futuro neto Francisco. É que você chegou aqui muito cedo. Não gostava de ir ao médico, enchia-se de hambúrgueres todos os dias, deixava de praticar esportes e acabou infartando.

- Senhor, se eu pudesse voltar... Sei que tenho muita coisa para conversar com o papai e com a mamãe, porém eu prefiro voltar para casa e resolver algumas coisas que ficaram pendentes lá na Terra. Do contrário, como vou lidar com o meu carma?

Deus fez outro buraco nas nuvens e disse:

- José, José. Carma é uma invenção humana para tentar inutilmente expiar a culpa. Agora você está vendo o seu corpo estendido no leito do hospital?

- Sim, Senhor. Sou eu mesmo. E aqueles lá parecem ser os médicos e enfermeiros tentando me reanimar com aqueles aparelhos.

- Bem, se deixarmos você voltar, ficará ainda um bom tempo de cama com sonda na uretra e dependendo dos outros até recuperar todos os seus movimentos. Para piorar as coisas, o INSS pretende entrar de greve daqui uns dois dias e a sua esposa vai demorar para conseguir o auxílio-doença. É isto que você quer?

José ficou pensativo e se calou. Enquanto isto, o agitado garotinho de olhos verdes venceu a corrida e foi para o final da fila do trem, tendo logo puxado o cabelo da menina ruiva à sua frente ameaçando-a. Um anjo lhe chamou a atenção para que não agredisse a coleguinha e o moleque fez uma abusada careta chutando-lhe uma das canelas.

O órgão tocou e os anjos e as crianças cantaram um hino de despedida. Sem desrespeitar a ordem, as crianças começaram a entrar no trem uma a uma. Aproveitando que todos estavam com as suas atenções voltadas para as provocações que o garoto malvado fazia contra o anjo, saindo a todo instante da fila e correndo pela estação, José embarcou no seu lugar e fechou a porta do vagão. O trem apitou e o anjo maquinista deu sua mensagem de instrução aos passageiros pelo microfone:

- Senhores passageiros com destino ao planeta Terra! Aqui quem fala é o arcanjo Miguel. Eu serei o maquinista deste trem. Todos vocês devem me obedecer. Acomodem-se em seus lugares, apertem os cintos de segurança. Tenham todos uma boa viagem.

O trem começou a andar vagarosamente. José mal conseguia sentar-se naquelas poltronas confeccionadas para o público infantil porque estava gordo demais. As crianças que ficaram na estação davam adeus às que embarcavam. Deus e Gabriel sorriam um para o outro como se soubessem o que tinha acontecido. Já o menino de olhos verdes fazia bolinhas de algodão com as nuvens para jogar no trem com um estilingue.

Quando o trem já estava distanciando em alguns metros da estação, Gabriel passou galopando montado em um cavalo voador e, tendo acompanhado a locomotiva, comunicou-se com o anjo maquinista. Depois disto, tomou outra direção e p trem acelerou tornando-se uma bola luminosa.

Não demorou muito para que dois dos auxiliares do anjo maquinista entrassem no vagão das crianças onde estava José e fossem atrás dele. José correu, mas foi inútil tentar fugir dos anjos e um deles, segurando-o pela gola da camisa, dirigiu-lhe estas palavras:

- Seu maluco, agora vamos ter que atirá-lo pela janela!

- Ei, não posso seguir com vocês até o ponto final deste trem?

- Claro que não! Além do mais esta viagem costuma demorar uns nove meses e não temos autorização para conduzir outro tipo de passageiros além das crianças.

- Não dá nem para abrir uma exceção, amigo? Prometo que volto com vocês para a estação celestial.

- Não pode, José. O trem ainda vai ficar um tempinho parado no seu planeta e as leis do Criador do Universo são bem rígidas para que não deixemos nenhuma alma penada vagando pelo mundo físico.

- Mas assim não é justo! Quero uma audiência com o anjo maquinista!

- Ele não vai te atender, José. São as normas de Deus! Agoira se prepare que vamos jogá-lo pela janela.

José lembrou-se de orar e, quando começou a falar com Deus em seu coração, o celular do anjo tocou.

- Alô! Pois não, Senhor. Quer falar com ele?

- Quem é? - perguntou José.

- É Deus. Fale diretamente com o Senhor. Afinal, você não orou pra reclamar com Ele?

José pegou o telefone:

- José, José!

- Meu Senhor, sei que tentei dar uma de esperto e resolvi embarcar no trem por minha conta. Por favor me perdoe e me deixe re-encarnar junto com estas crianças.

- José, José. Você pensa que me podia me passar para trás, né? Pois eu já sabia o que se passava na sua cabecinha e até mesmo inspirei você para que ousadamente tomasse o lugar daquela pestinha. Infelizmente não vou deixar você nascer de novo no sentido literal do termo. Vou te ressuscitar igual Elias fez com o filho da viúva.

- Vai ser no meu velório, durante o enterro ou depois como na ocasião em que Jesus chamou Lázaro para fora da tumba?

- Assim também é demais. Se eu exagerar muito agente acaba matando outros do coração e hoje em dia, com tantos recursos de mídia, vão acabar registrando o milagre e ninguém mais vai precisar ter fé para acreditar em mim. Prefiro que os médicos te reanimem com sucesso no hospital. Ficará em coma por mais uns dias e dentro de algumas semanas já estará bem melhor.

- Mas Senhor, será que eu vou ficar com sequelas?

- Algumas. O mais importante é que retornará para casa com a mente curada, filho.

- E ficarei sem poder andar?

- Só por pouco tempo.

- E vai dar para fazer sexo com a minha mulher?

- É claro!Só que daqui para frente você vai ter que melhorar na qualidade do seu desempenho sexual e comer menos porcarias. Seguindo uma dieta que a nutricionista te passará o seu sangue ficará com menos colesterol e aí a sua ferramenta funcionará até melhor. E, caso deseje acelerar o processo, pede pra Tereza acrescentar mais salsa na sua refeição. Nunca te disseram que a salsa afina o sangue?

- Boa dica, Deus! Vou contar pra ela que foi o Senhor quem mandou. Posso?

- Não só pode como deve! Mas agora se prepare! Quando o Gabriel passar montado no cavalo, você pula do trem e sobe na garupa dele. Até breve! Logo nos veremos.

- Tchau, Senhor! Fique com Deus, digo, fique bem.

- Eu estou sempre bem, José. Agora devolva o celular para o anjo por causa do lixo espacial e monte no cavalo voador do Gabriel. Carpe Diem!

José acordou dias depois na UTI ao lado de uma enfermeira e de um pesquisador da universidade sobre experiência quase-morte (EQM), o qual, após ter sido apresentado, indagou-lhe:

- Seu José, conta aí como são as coisas do outro lado? Viu algum túnel de luz? Chegou a conversar com alguém?

- Meu jovem, eu vi sim a luz e se contar cada detalhe vocês não vão acreditar. Porém, o que importa agora? Quero logo abraçar minha mulher, meu filho e minha nora. Depois desejo visitar o meu irmão com quem há anos deixei de manter contato e ver como anda os meus sobrinhos.

- Seu José, experiências como a do senhor são muito importantes para a ciência. Pois se as pessoas soubessem o que se passa do lado de lá, elas poderão dar um novo significado à existência delas aqui.

- Com todo o respeito, eu discordo de você, meu caro estudante universitário. Pois são experiências que devem continuar sendo subjetivas e daí a beleza entre as divergências e semelhanças de cada relato. Se o homem pudesse compor uma geografia do mundo além-túmulo, rapidamente teríamos a elaboração de doutrinas sobre a dimensão espiritual e aí muitos que se interessassem por estes estudos continuariam sem compreender o sentido da vida. Pois é o mistério que proporciona sabor à nossa existência, despertando em cada ser uma reverência pela Realidade na qual as nossas escolhas convivem harmonicamente com a vontade soberana da Inteligência Superior do Universo.

- Tudo bem, seu José. Tenho que respeitar a sua vontade. Vou deletar isto que o senhor acabou de me dizer.

- Não apague, meu jovem! Pois este é o significado da minha experiência. Aprendo que uma das melhores coisas da vida é aproveitar os bons momentos com a família e viver em paz com todo o Universo, evitando causar prejuízos ao próximo porque a Vida está em tudo. Aparece uma tarde dessas lá em casa depois que eu tiver alta e juntos nós tomaremos um delicioso café que só a Tereza sabe fazer. Agora, por gentileza, peça para a enfermeira chamar a minha esposa.

Depois desta experiência de quase ter “morrido”, José ainda viveu por mais quatro décadas. Tornou-se um trabalhador menos compulsivo e um religioso moderado. Deixou de lado os jogos eletrônicos do computador e começou a praticar esportes no tempo livre. Mudou radicalmente os hábitos alimentares e pediu para Tereza acrescentar salsa em sua comida seguindo as orientações divinas. Viu seus netos nascerem, crescerem e se formarem. Até chegou a segurar no colo uma bisneta de meses no mesmo ano em que uma mulher foi eleita para ocupar a Presidência de um importante país do Oriente Médio. E, ao assistir rapidamente a notícia no telejornal da manhã, José lembrou-se do seu diálogo com Deus na estação de trem celestial e expôs suas dúvidas em oração. Depois abraçou Tereza, mandou uma mensagem de texto pra Rafael dizendo que o amava, sentou solitariamente na varanda da casa e desencarnou.

Ao chegar no céu, foi recebido com muita festa pelos anjos do trem. Gabriel foi um dos primeiros a lhe dar as saudações:

- Seja bem vindo, José. Agora você veio para ficar, não?

- O quê? E você acha que vou querer passar dos 100 anos? Já cheguei nos 90 e isto já foi o suficiente. Vida de Matusalém não serve pra mim. Nem os 120 anos de Moisés...

Nesta hora, Deus se fez presente ao lado de José:

- José, José, meu filho. Fez uma boa viagem de volta?

- Sim, meu Senhor. Foi tudo muito mais tranquilo do que da primeira vez. A morte no tempo certo é uma passagem maravilhosa!

- Respondendo a perguntinha que me fez há pouco nesta manhã quando orou, realmente a presidente eleita na Síria era aquela garotinha de cabelo ruivo que você viu entrar naquele trem antes dela nascer.

- Mas como se a candidata que vi na TV tem cabelo preto?

- José, José. Você passou mais de 90 anos na Terra e até hoje não percebeu que as mulheres adoram pintar o cabelo?

O céu inteiro caiu na gargalhada. José riu também e continuou o seu diálogo com Deus.

- E me conta aí, Senhor. O que aconteceu com aquele menino briguento de olhos verdes que acabou não entrando no trem?

- Aquela malinha sem alça? Bem, eu o mandei para outro planeta. A Terra está melhorando e, no atual estágio evolutivo da civilização planetária, seria catastrófico seus descendentes terem um novo Hitler. Em breve, os filhos dos seus bisnetos estabelecerão o meu Reino lá. Isto talvez ocorra lá pelos meados do século 22, de acordo com a cronologia cristã que vocês adotam. Porém, graças aos esforços de sua geração e dos seus antepassados foi que o mundo caminhou até o presente momento em que as boas novas de Jesus encontram-se quase que assimiladas.

- Bendito sejas, Senhor!

- E graças a vocês também, vencedores! A transformação do planeta é a verdadeira recompensa de vocês. Já o repouso celestial é dado gratuitamente a todos os homens de quaisquer tribos, nações ou religiões. Inclusive para os que se consideravam “ateus”.

- E o papai e a mamãe? Onde eles estão?

- Logo ali no jardim. Na outra margem do rio. Vai lá falar com eles! Estão há muito tempo te aguardando.

- Mas Senhor, eu não teria que ser julgado primeiro segundo o texto de Hebreus 9,27?

- Para com isto, José! Quem aprendeu a avaliar a si mesmo não precisa passar por um julgamento. E como sabe, não mando ninguém para o inferno. São as próprias pessoas quem insistem em viver em suas ardentes chamas. Agora aproveite este pedaço do céu!

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

ROBESPIERRE: O PRIMEIRO DISCURSO CONTRA O ANTISSEMITISMO!

Achei interessante esta nota da imprensa e resolvi divulgá-la aqui no meu blog. Vale ressaltar que, há milênios, o povo judeu tem sido vítima de preconceitos étnicos e religiosos, sendo que os atuais conflitos com os árabes não superam as perseguições impostas pela sociedade cristã ocidental que duraram séculos na Europa, tendo como argumento a improvada culpa pelo assassinato de Jesus. Somente depois do holocausto ocorrido na 2ª Guerra Mundial foi que a sacrificada nação de Israel conseguiu o direito de viver em sua própria terra. Todavia, até hoje a paz ainda não se estabeleceu definitivamente nas ruas históricas de Jerusalém.

Hoje em dia, muitos dos direitos humanos que as gerações nascidas após a 2ª Guerra conquistaram devem-se às sementes plantadas pelos iluministas antes da Revolução Francesa acontecer. E, como bem sabemos, os judeus sempre foram habilidosos em colaborar secretamente com tais movimentos, através dos quais hoje podemos gozar de uma considerável liberdade religiosa, da proteção contra o racismo e de inúmeras garantias democráticas.


(Carlos Corach - Clarín, 08) 1. Na sessão da Assembleia Nacional Francesa de 23 de Dezembro de 1789, o deputado por Arras, Maximilien-Marie Isidore de Robespierre, pede a palavra. Robespierre era respeitado por seus pares como um homem que analisava com inteligência a grave situação que a Revolução atravessava, acossada em suas fronteiras e com graves dissensões internas. No entanto, o deputado, despojando-se de todos os preconceitos religiosos sobre os “judeus deicidas” com os quais foi formado no colégio parisiense Luis-lhe Grand, um dos mais importantes da França, assume com vigor sua defesa.

2. Ele disse: "Todo cidadão que cumpra com os requisitos de elegibilidade que vocês estabeleceram, tem direito de ocupar qualquer função pública. Como se pode opor aos judeus as perseguições que diferentes povos os fizeram vítimas? Pelo contrário, são crimes nacionais que devemos expiar, restaurando-lhes os direitos inalienáveis do homem, dos quais nenhum poder humano pode privá-los. Eles são acusados ainda de vícios e preconceitos: do espírito sectário e do lucro exagerado, mas a quem podemos culpar se não a nós mesmos e as nossas próprias injustiças? Depois de tê-los excluído de todas as honras, do direito à estima pública, não lhes deixamos mais do que o espaço das especulações lucrativas. Devolvamos-lhes a felicidade, a pátria e a virtude, reconhecendo-lhes sua dignidade de homens e de cidadãos".

3. É, sem dúvida, o primeiro discurso contra o antissemitismo pronunciado publicamente na França. A moção foi rejeitada pela Assembleia.



QUE HAJA PAZ SOBRE ISRAEL!


OBS: A ilustração acima refere-se ao retrato de Maximilien de Robespierre (1758-1794) pintado por um artista anônimo. Já o texto jornalístico eu extraí da edição de hoje do informativo Ex-Blog do César Maia, de autoria do ex-prefeito do Rio de Janeiro. Os destaques acima são meus.

Na edição do dia 10 deste mês do Ex-Blog, consta a informação que "60 anos depois, um judeu não podia ser eleito na Câmara dos Comuns na Inglaterra. Disraeli - depois grande primeiro ministro - judeu de origem - D´Israel - só foi deputado por seu pai ter se convertido cristão e mudado de nome".

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Lembranças da infância

Oficialmente, 12 de outubro é considerado um feriado nacional por razões de tradição religiosa. Boa parte da população brasileira, entretanto, comemoram esta data apenas como sendo o dia das crianças.

Durante os anos de minha infância, esta foi uma das datas que eu mais gostava. Isto porque era uma oportunidade para receber presentes assim como em dezembro (Natal) e em abril (mês do meu aniversário). E, por ter nascido numa família pouco religiosa e sem nenhum envolvimento com igrejas, eu mal sabia que, no dia 12/10, os católicos celebram Nossa Senhora Aparecida. Aliás, as próprias escolas seculares onde estudei focavam mais no festejo das crianças e não na suposta aparição de Maria.

Ainda assim, nem outubro e nem o Natal me interessavam mais do que abril. Em 12/10, eu ganhava só presentes. Já em 25/12, nem sempre as comidas típicas da festa natalícia de Jesus despertavam o meu apetite. Porém, no mês do meu aniversário, eu podia conciliar os presentes, mais a festa que era feita especificamente para mim (também no dia 12), os ovos de chocolate da Páscoa e ainda tinha a comemoração do níver da mamãe em 04/04.

Não posso negar que eu era uma criança bem apegada aos meus brinquedos. Papai me deu uma coleção de carrinhos e havia no meu quarto um cavalinho de pano no qual eu era doido para subir nele. Também passava horas soltando a minha imaginação com os bonequinhos do Playmobil. Gostava de um joguinho com peças para montar cidades cujo nome agora não me recordo.

Eu me distraía assistindo desenhos na TV a ponto de quase viver dentro das animações e ser influenciado por elas. Tanto é que, no meu aniversário de dois anos, quando me colocaram pra dormir contra a minha vontade, consegui sair do berço pulando em cima do travesseiro que havia jogado para fora, conforme observava os personagens da televisão. Felizmente não me machuquei, mas deixei os adultos perplexos. Tanto é que papai acabou fazendo depois uma portinha no berço a fim de que eu passasse a sair normalmente. E não demorou muito para que substituíssem o meu lugar de dormir por uma cama de solteiro.

Outra coisa que adorava fazer naqueles tempos era passear. Até meus três anos e meio ou quatro, moramos num prédio situado no Rua Comendador Martinelli, Grajaú, Zona Norte do Rio de Janeiro. Ali perto ficava uma reserva florestal que, desde a década passada, passou a ser considerada como parque. Fora isto, o bairro tinha uma deliciosa praça e minhas duas avós e uma bisavó também viviam na localidade, sendo que eu tinha vários colegas na vila onde era a casa da bisa. Contudo, também costumávamos sair para outros pontos da cidade. Além das praias, dos teatros e dos cinemas (estes ainda não tinham se tornado templos da Igreja Universal), visitávamos os lugares turísticos cariocas, sendo que os meus destinos preferidos eram o Pão de Açúcar e o zoológico.

Posso dizer que foram bons tempos que foram vivenciados com alegria durante os anos iniciais de minha vida. Depois vim a sofrer com a separação dos meus pais, seguida da perda de uma parte dos meus brinquedos por causa de um projeto de mudança, das cenas de espancamento que presenciava num péssimo relacionamento que a minha mãe teve com outro cara e, finalmente, aconteceu o falecimento do papai em setembro de 1983.

Com estas perdas e o meu amadurecimento posterior, percebi que a minha alegria de fato nunca esteve nos brinquedos perdidos, nas festas de aniversário ou nos passeios. Realmente o que eu mais desejava era ter o papai e a mãe sempre juntos, isto é, a presença paterna e materna.

Penso que, quando nos tornamos pessoas religiosas, muitas das vezes buscamos em Deus o suprimento da ausência dos pais que tivemos durante a infância. Mesmo quando eles ainda estão vivos, todos sentimos falta daquele relacionamento original que era baseado no mais sincero e perceptível afeto, em que palavras eram ouvidas sem precisarem ser pronunciadas.

Sem dúvida que Deus também é o nosso Pai e a nossa Mãe. Não como os pais e mães terrenos, mas como o celestial. Nossa relação com Ele é diferente, baseada numa intimidade que é muito mais profunda e, além de tudo, eterna. Pois Dele viemos e para Ele voltaremos. Nele vivemos porque a Sua Presença nos contém, acompanhando-nos em todos os nossos momentos de vida. Inclusive quando andamos esquecidos Dele.

Que neste dia 12 de outubro, você deixe Deus cuidar da criança que ainda vive dentro do seu coração!

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Ir para onde?

“São direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.” (art. 6º da CRFB/1988) - grifou-se

Tenho acompanhado o drama das 700 famílias do Conjunto Habitacional Cingapura de São Paulo que têm resistido à decisão da Justiça para deixarem suas moradias por causa dos comprovados riscos de explosão do gás metano no local.

Hoje, durante o Bom Dia Brasil, telejornal da Rede Globo, fiquei perplexo diante das respostas dos moradores, os quais pretendem recorrer da imposição judicial. No decorrer da entrevista, uma mulher assim se manifestou, baseando-se no senso comum:

"Não tem vazamento de gás, nunca ninguém sentiu cheiro de gás. Isso é um absurdo. Eu tenho de trabalhar e deixo meu nenê na creche. Ele não vai poder mais ficar na creche?"

Outro homem, que, segundo a sua qualificação profissional, não tem condições técnicas de afirmar nada acerca da existência ou não do risco, posicionou-se desta maneira diante da reportagem:

"Eu me considero seguro morando aqui, lógico. Eu sempre morei aqui, minha vida em São Paulo sempre foi aqui. Não vejo insegurança nem risco aqui"

Demagogicamente, a Prefeitura de São Paulo resolveu apoiar a ignorância das pessoas, ao invés de buscar a medida mais acertada que seria encontrar um local digno e adequado para hospedar esses moradores até que o problema se resolvesse, removendo-os depois definitivamente para uma área realmente segura.

No entanto, se nos colocarmos na posição do pobre que passou a vida toda pagando aluguel e vivendo sob a constante ameaça de despejo, deixar a sua casa própria e ir para um lugar incerto acaba se tornando uma novo problema. E, agindo assim, poucos avaliam o risco de viver em cima de um antigo lixão que a qualquer momento pode explodir.

Aqui em Nova Friburgo, quando ocorreram as enchentes de janeiro deste ano, milhares de famílias que ficaram desabrigadas foram mandadas para abrigos improvisados. Depois de terem perdido seus patrimônios, essas vítimas da tragédia vieram a ser muito mal atendidas pelo Poder Público. E, embora o governo tenha lhes prometido casas, os recursos do "Minha Casa, Minha Vida" sofreram redução de verbas e a Prefeitura até hoje não tomou as medidas adequadas para que os moradores pudessem ter um lugar seguro para reconstruírem suas vidas. Logo, o destino de muitos acabou sendo o mesmo da população que vivia no Morro do Bumba (tragédia de abril de 2010), em Niterói, entre os quais encontramos famílias que estão até hoje precisando de moradia.

A causa de todo o problema está na falta de responsabilidade do próprio Poder Público que não só permite construções como também edifica em lugares inapropriados. Pois foi buscando alcançar prestígio político que Paulo Maluf veio a se tornar o autor do superfaturado "Projeto Cingapura" quando era então prefeito de São Paulo nos anos 90, tendo erguido prédios onde jamais deveria. E a escolha do local não poderia ter sido pior.

Olhando com atenção para o problema, não consigo culpar os moradores pela atitude pouco racional que estão manifestando neste momento. Posso não concordar com determinadas formas de protesto e nem com a recusa de cumprimento da ordem judicial. Porém, também não me parece que o Poder Público esteja agindo com sensibilidade diante da situação.

De acordo com o juiz prolator da decisão, da 10ª Vara da Fazenda Pública da Comarca de São Paulo, Dr. Valentino Aparecido de Andrade, "trata-se, sem dúvida, de uma medida extrema essa de essa de interdição e remoção dos moradores mas ela é a única que pode eficazmente controlar a situação de risco a que essas pessoas estão submetidas, exigindo-se a intervenção do Poder Judiciário".

Ora, a Prefeitura de São Paulo pretende essas pessoas aonde?!

Entendo que a interdição do local e a remoção dos moradores são realmente necessárias. Só que não dá para negar que o povo brasileiro continua sendo tratado como gado pelas suas autoridades. Pois, numa situação assim, o mínimo que deveria ser feito seria abrigar cada família num dos melhores hotéis de São Paulo e pagar para cada pessoa do conjunto habitacional uma justa indenização pelo transtorno sem que ninguém precise depois ingressar com ações judiciais reparatórias de prejuízos.

Vale ressaltar que, após o Maluf, São Paulo ainda foi governada pelo PT e também pelo PSDB. Em sua louca gestão, Martha Suplicy não tomou as iniciativas cabíveis para cuidar do problema, o qual simplesmente foi ignorado assim como costumam fazer os administradores das demais prefeituras na maioria das cidades brasileiras. E, infelizmente, episódios como este continuarão ocorrendo até que a nossa população tome consciência da maneira como ela deve se inserir ativamente na política afim de brigar pelos seus direitos.


OBS: A primeira ilustração foi extraída da página da Prefeitura Municipal de São Paulo em http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/habitacao/noticias/?p=3837.

Já a segunda imagem do deputado federal Paulo Maluf (PP-SP), obtida através da Wikipédia, foi produzida pela Agência Brasil, sendo a sua autoria é atribuída a José Cruz.

domingo, 9 de outubro de 2011

O olhar de Moisés e a experimentação do Santíssimo

Em quatro décadas de exílio, no país de Midiã, certamente que Moisés já deveria estar habituado com aquelas áridas paisagens da Península do Sinai. Seus dias pareciam ser monótonos para o ponto de vista de um ocidental moderno e compreendiam uma incansável rotina de pastoreio dos animais do sogro com quem ele morava. Ir para o Norte, para o Sul, Leste ou Oeste, sem dúvida eram caminhos bem conhecidos pelo príncipe que se recusou a ser chamado "filho da filha de Faraó" e que, preferindo o maltrato junto com o seu povo, não encontrou outra solução a não ser deixar o Egito das pirâmides com todos os seus ricos tesouros.

Certa vez, conduzindo o rebanho para além do deserto, Moisés chegou a um monte chamado Horebe que, futuramente, viria a ser conhecido como a "Montanha de Deus" e se tornaria destino de inúmeras peregrinações religiosas judaicas, cristãs e muçulmanas. Até aí, porém, aquela elevação era só mais um componente da geografia da região onde ele habitava anonimamente. Só que, naquele dia, que poderia ter sido igual a todos os outros que o antecederam, Moisés resolveu prestar a atenção em algo diferente, alcançando uma primária experiência que mudaria não somente a sua vida como a história da nação de Israel.

"Apareceu-lhe o Anjo do SENHOR numa chama de fogo, no meio de uma sarça; Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo e a sarça não se consumia. Então, disse consigo mesmo: Irei para lá e verei essa grande maravilha; por que a sarça não se queima?" (Êxodo 3.2-3; ARA) - destaquei

A princípio, aquele fenômeno misterioso não amedrontou Moisés. Deixando-se levar pelo desejo de auto-pesquisa, ele resolveu dar uma espiada naquela simples planta espinhosa cuja madeira é "imprestável para talhar ídolos", conforme bem observa a literatura judaica pós-bíblica. Só que o orgulho e a soberba não tinham espaço no coração daquele peregrino octagenário cheio de vitalidade e ainda capaz de se maravilhar diante das situações mais comuns da natureza. Mesmo tendo sido um nobre da coorte da maior super potência do segundo milênio antes de Cristo.

Como explicar aquele acontecimento através da ciência ensinada nas universidades dos egípcios? Nem nos laboratórios e biblioteca da Harvard do Nilo existiam soluções para tal problema. Por se tratar de um mistério, o fato jamais poderia ser compreendido pela metodologia teórica passada nos livros. Logo, a única saída seria Moisés experimentar subjetivamente, saindo um pouco de si mesmo e procurando estudar a realidade por todos os ângulos ao seu alcance.

Assim fez Moisés quando se interessou pelo episódio da sarça que ardia e não se consumia, atentando para a realidade divina que há em todas as coisas e em todas as pessoas. Com abertura, livre de preconceitos acadêmicos e de ideias prontas, Moisés aproximou-se do arbusto. Ele não se negou ao questionamento e fez daquele momento uma grande oportunidade para seu enriquecimento pessoal através de um saber verificável que jamais pode prender-se a condutas dogmáticas ou fundamentalistas.

Ao inebriar-se com a visão da sarça em chamas, aflorou em Moisés aquele mesmo desejo de saber original dos patriarcas, mas que foi reprimido durante séculos de dominação econômica, política e cultural. Deixando de lado a alienação imposta pelo dominador, ele soube dar vazão à sua subjetividade na investigação do objeto a sua frente afim de situar-se com consciência na realidade. E, com isto, também permitiu que a verdade se estabelecesse nele de maneira libertadora, rompendo todas as correntes da opressão escravocrata e da dependência ideológica, as quais incutem o medo nas consciências, ferindo, humilhando, rebaixando a autoestima, silenciando a dança e a palavra de um povo afim de coisificar o ser.

Contudo, a investigação do sagrado requer do sujeito uma profunda reverência. E foi o que Moisés aprendeu. Após perceber seu chamado quando se aproximou da sarça, ele se deparou com a advertência que todos nós precisamos interiorizar:

"Vendo o SENHOR que ele se voltava para ver, Deus, no meio da sarça, o chamou e disse: Moisés! Moisés! Ele respondeu: Eis-me aqui! Deus continuou: Não te chegues para cá; tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa." (versos 5 e 6; mesma tradução bíblica)

Ao experimentarmos o Deus vivo, devemos lembrar que não estamos diante de qualquer pessoa e muito menos diante de uma força da natureza. Ele é o Santíssimo e subsiste em seu próprio existir, sendo infinito e absolutamente transcendente. Pois até os termos "Santo", "Eterno", "Pai" ou o impronunciável Tetragrama YHWH (consoantes de Yahweh), bem como outras possíveis representações, tornam-se todas insuficientes para definir quem as diversas tradições religiosas do planeta entendem ser o "Criador e Rei do Universo" por serem conceitos construídos conforme a nossa imagem e semelhança.

"Tirar as sandálias" é fundamental para que possamos incessantemente buscar o Deus vivo ao invés de encontrarmos um ídolo mudo, motivo pelo qual o Pai Nosso é iniciado pelo reconhecimento da santidade do Nome de Deus (conf. Mt 6.9). Porém, o célebre episódio da Torá mostra-nos o quanto descalçar os pés é ato simbólico e que todos os métodos de participação do Mistério poderão ser insuficientes por mais disciplinados que busquemos ser. Isto porque não existe receita espiritual para um encontro com o Eterno como se pudéssemos achá-lo frequentando um "lugar sagrado", ouvindo um louvor específico, sentando numa posição como a da ioga ou pronunciando palavrinhas mágicas. Pois, ainda que algumas boas práticas de vivência ajudem a relaxar a mente, elas jamais serão a real experiência.

O conto bíblico em análise, tido como proveniente da tradição javista pela Teoria Documentária e que corresponde aos seis primeiros versículos do capítulo 3 de Êxodo, seria antes de mais nada uma mera narrativa que nos ensina de maneira romanceada a aproximação mística do homem com Deus. Ela parece ser despida de qualquer historicidade, sendo, evidentemente, fruto do imaginário de um povo em que a oralidade precedeu o registro nas Escrituras. Aliás, o próprio nome hebraico do segundo livro da Torá (Shemot), tem por objetivo focar nos chamados de Moisés e de Israel.

Hoje, se formos visitar a Península do Sinai, e procurarmos pelo monte sagrado da revelação, certamente que não encontraremos ali nem anjos ou plantas queimando misteriosamente. Até a localização exata do Horebe é algo incerto e bastante discutível entre os estudiosos. Contudo, quem pagar por um turismo exótico desses, certamente voltará para casa ou frustrado, ou convicto de que a Luz Divina não está restrita a um lugar específico do globo terrestre.

Com esta maravilhosa historia judaica aprendemos basicamente que precisamos olhar atentamente os fatos ao nosso redor e agirmos com reverência em relação ao Mistério Sagrado que a todo instante fala em qualquer local com os homens. Deus está em você, em mim, na natureza, nos animais, nas estrelas e em cada acontecimento. Sua glória pode manifestar-se até nos momentos mais ociosos do cotidiano. Seja na fila de um banco, quando nos encontramos presos num congestionamento, durante as tarefas domésticas ou na conversa mantida com alguém. Então, se prestarmos a atenção, talvez encontraremos um "arbusto em chamas" diante de nosso rosto.


OBS: A ilustração acima refere-se a uma pintura de 1848 na Catedral de São Isaac, em São Petersburgo, cuja autoria é atribuída ao artista russo Eugène Pluchart (1809-1880). A obra retrata Deus aparecendo a Moisés no episódio da sarça ardente (Êxodo 3). Parte da inspiração deste artigo veio de uma leitura do sugestivo livro Experimentar Deus: a transparência de todas as coisas, editora Vozes, do pensador Leonardo Boff, bem como de The Gospel of Thomas: a Guide for Spiritual Practice, de Ron Miller.