Páginas

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Cortes indevidos nos serviços de internet requerem a elaboração de novas leis


Em 22/11/2010, publiquei neste blogue o artigo cujo título foi esta pergunta: "Como assegurar a observância de prazos pelos provedores de internet para cumprimento de suas obrigações?", onde critiquei as empresas que prestam o serviço de acesso à rede de computadores por não estipularem prazos para os seus compromissos contratuais, motivo pelo qual estariam contrariando o artigo 39, inciso XII do Código de Defesa do Consumidor (Lei Federal n.º 8.078/90).

Neste final de semana (dias 26 e 27 de fevereiro de 2011), pude sofrer na pele as consequências da ausência de leis específicas para os provedores de acesso à internet no Brasil no que se refere à continuidade do serviço prestado ao consumidor. Mesmo estando com todas as minhas mensalidades pagas, tive o meu direito de uso bloqueado desde o sábado à noite, ao ligar o computador naquele dia, até à tarde de domingo, quando então consegui entrar em contato com a empresa e reclamar.

Tal fato me levou a refletir sobre medidas que podem ser tomadas no plano legislativo quanto aos problemas causados por suspensões e interrupções indevidas e sem nenhum aviso prévio ao cliente por parte dos provedores de internet.

O Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), criado para coordenar e integrar todas as iniciativas de serviços de internet no país, embora promova a participação da sociedade nas decisões sobre a implantação, administração e uso da rede, infelizmente não é dotado de poder de polícia para punir os provedores, sendo que as normas do colegiado não alcançam todas as atividades de tais empresas.

Enquanto o setor de telefonia obedece a um regramento específico estabelecido pela Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), a internet brasileira continua sendo terra de ninguém em diversos sentidos. Com isto, o que vem prevalecendo é a lei do mais forte, isto é, os interesses dos provedores de acesso à rede, os quais costumam estabelecer as condições contratuais na relação com o cliente e tornam a relação bem desigual.

O certo é que, nos dias atuais, o acesso à internet tornou-se um serviço de extrema importância. Para nós advogados, por exemplo, é através deste meio de comunicação que recebemos as publicações para fins de acompanhamento dos nossos processos, bem como para verificarmos o andamento dos mesmos. Também dependemos da rede para atuarmos perante alguns órgãos do Poder Judiciário como tem sido, por exemplo, na Justiça Federal, no STJ, no STF e no CNJ, nos quais já predomina o processo eletrônico quanto às ações mais recentes, confirmando uma tendência oficial de abolir de vez os autos físicos. Ou seja, para encaminhar a petição de um cliente ou ler um ato praticado pelo juiz, o causídico precisa visualizar a página da Vara ou Turma onde tramita a demanda e, se for o caso, entrar com seu login e senha para transmitir um requerimento.

Por sua vez, milhões de empresas executam inúmeras atividades diárias pela internet. Não só as comunicações com os clientes e fornecedores como também os pagamentos e inúmeros serviços internos são feitos através da rede. E, quanto ao cidadão comum, ficar sem a internet pode gerar inúmeros transtornos, afetando o acesso ao site do banco, comprometendo as pesquisas de trabalhos escolares, o envio ou recebimento de e-mails, o cadastramento em inúmeros órgãos públicos, etc.

Felizmente, a Justiça brasileira vem reconhecendo o direito a indenização por danos morais e/ou materiais quando o provedor de acesso promove o corte indevido do serviço de internet prestado ao consumidor. É o que se vê nas seguintes ementas de decisões recentes do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro:


"Agravo interno na apelação cível. Obrigação de fazer c/c reparação de danos. Serviço de internet banda larga. Velox. Suspensão irregular. Falha da empresa ré que privou os autores de serviços de extrema importância nos dias atuais. Dano moral configurado. Manutenção da Decisão do Relator por seus próprios fundamentos. RECURSO DESPROVIDO." (0035428-57.2008.8.19.0002 - APELACAO - 2ª Ementa - Relator DES. PEDRO SARAIVA ANDRADE LEMOS - Julgamento: 02/02/2011 - DECIMA CAMARA CIVEL)


"APELAÇÃO CÍVEL. RITO SUMÁRIO. AÇÃO INDENIZATÓRIA. RELAÇÃO DE CONSUMO. SUSPENSÃO INDEVIDA DE SERVIÇO DE INTERNET, POR MAIS DE CINCO MESES, EMBORA ESTIVESSE A CONSUMIDORA ADIMPLENTE COM AS MENSALIDADES. CONDUTA ABUSIVA DA EMPRESA QUE NÃO OBSERVOU SEU DEVER DE COOPERAÇÃO PARA COM A CONSUMIDORA, EIS QUE NÃO PROMOVEU O RELIGAMENTO DO SERVIÇO, APESAR DAS DIVERSAS RECLAMAÇÕES. FALHA NA PRESTAÇÃO DO SERVIÇO. DANOS MORAIS CONFIGURADOS. SENTENÇA QUE MERECE REFORMA NESTE PORMENOR. PROVIMENTO DO RECURSO." (0002546-14.2010.8.19.0021 - APELACAO - 1ª Ementa - Relator DES. LUIZ FELIPE FRANCISCO - Julgamento: 01/02/2011 - OITAVA CAMARA CIVEL)


Segundo exemplifica a Dra. Andréa Cristina Nogueira*, presidente da Comissão de Direito do Consumidor da OAB de Rondônia, o dano material "estaria configurado em razão de o consumidor ter que pagar juros em virtude de não ter conseguido realizar o pagamento de uma fatura por causa da suspensão da internet". Já o dano moral, no entender da advogada, "surge a partir do momento em que o consumidor sentiu algum sofrimento relacionado à sua paz e aos transtornos que sofreu em decorrência da suspensão do serviço ou até mesmo de uma cobrança indevida".

Todavia, sabe-se que não é sempre que o Judiciário reconhece a caracterização dos danos morais e muitas das vezes as indenizações são proporcionalmente pequenas para cumprirem o papel de desestimular as condutas atentatórias praticadas pelos provedores de internet. Com isto, muitas empresas aproveitam-se da ausência de punições administrativas já que, na prática, apenas podem sofrer raras consequências na esfera cível quando acionada por algum consumidor indignado que, na base de muito sacrifício ou sorte, consegue reunir provas acerca da suspensão ou interrupção do serviço, pagar um advogado e ingressar com um processo.

Mais do que nunca é necessário que a nova legislatura do Congresso nacional pense na elaboração de leis que versem sobre os serviços prestados pelos provedores de acesso à internet, normatizando o atendimento dessas empresas, que deve ser 24 horas, e impedindo condutas abusivas como o corte no acesso à rede sem aviso prévio. Assim, sempre que houver desconfiança sobre o não pagamento de uma mensalidade, o provedor teria que primeiramente entrar em contato com o cliente e conceder um prazo razoável a contar do recebimento da notificação para que seja feita a prova do adimplemento o efetuado o pagamento em atraso. Só então, caso não haja o pagamento ou a prova deste, é que o corte se tornaria permitido.

Para terminar, compartilho que a criação de uma agência reguladora sobre serviços de internet, ou o alargamento da competência fiscalizatória da ANATEL, iriam contribuir para que os direitos dos consumidores não se transformem em letras mortas. Afinal, hoje em dia um provedor de internet deve prestar um atendimento semelhante ao de uma concessionária de telefonia já que o acesso à rede tornou-se algo inegavelmente essencial na vida moderna.


OBS: As citações foram extraídas do artigo "Interrupção de serviços de internet tem conseqüências à relação de consumo", o qual foi publicado no site http://www.tudorondonia.com/noticias/interrupcao-de-servicos-de-internet-tem-consequencias-a-relacao-de-consumo,20354.shtml

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O que penso sobre o Carnaval


Confesso que nunca fui muito fã do Carnaval, embora me divertisse bastante quando menino vestindo roupa de super herói afim de brincar com outras crianças na escola ou no clube onde meus pais eram sócios no Rio de Janeiro - o Grajaú Tênis Clube. Porém, detestava que me vestissem com a fantasia de índio, o que não tinha muito a ver com a minha imaginação infantil. Até mesmo porque eu ainda associava os índios como selvagens e inimigos da sociedade, conforme assistia nos preconceituosos filmes da TV lá pelo final da década de 70 e início dos anos 80.

Posso afirmar que nem o meu pai ou a minha mãe, bem como meus tios, as duas avós com as quais convivia e os vizinhos, jamais colocaram em minha cabeça que o Carnaval fosse algo impuro, pecaminoso, ou “festa da carne”, conforme acabei aprendendo anos mais tarde nas igrejas. Pois, foi só através da pregação de alguns pastores evangélicos que passei a ouvir discursos negativos sobre o Carnaval, tendo até escutado que as pessoas que desfilam nesses eventos estariam promovendo uma forma culto ao diabo.

Entretanto, felizmente minha visão fundamentalista passou a ser melhor trabalhada de uns tempos para cá, o que, de certo modo, devo às duas últimas igrejas onde me congreguei aqui em Nova Friburgo: a Igreja Evangélica Maranata e a Igreja Batista da Serra.


Lá pelos dias 9 e 13 deste mês de fevereiro, contribuí com alguns comentários ao interessante texto "O Carnaval 2011 Faz Renascer Abraão", publicado em 08/02/2011 no blogue Ensaios & Prosas onde o seu autor escreve que:


"Eis que os tempos mudaram. Pasmem meus senhores! Uma igreja evangélica, entre as quatro maiores em número de fiéis, acaba de exaltar um samba enredo que uma escola de samba paulista ( Pérola Negra) fez para o carnaval de 2011, o qual tem por título: Abraão – O Patriarca da Fé (rima com samba no pé – rsrs)." - extraído de http://levibronze.blogspot.com/2011/02/o-carnaval-2011-faz-renascer-abraao.html


Conforme compartilhei naquele blogue, acho interessante uma escola de samba homenagear o patriarca Abraão que é pai de todos nós, no qual são benditas todas as famílias da terra.

Provavelmente o que talvez ainda assuste os evangélicos quanto ao Carnaval seja a pouca roupa, o uso descontrolado de bebida alcoólica e o comportamento de boa parte do público que se torna intencionalmente libidinoso ou até violento quando surgem as brigas.


Aqui na cidade onde moro, já houve carnavais em que, se não me engano, desfilaram até blocos evangélicos e que tiveram por objetivo a evangelização. Foi o que ouvi falar porque não assisti (aliás detesto o barulho que fazem aqui bem perto de casa e ainda com o uso do dinheiro público que financia as escolas).

Entretanto, já participei de atividades evangelísticas no Carnaval de 2007 em que o pessoal de dança da congregação onde eu estava fez vários teatros e exibições de danças rítmicas na rua. Obviamente que havia pessoas de outras denominações que não deveriam ver agente com bons olhos.

Ano passado, o tema da minha igreja atual (Batista da Serra) foi "ser cristão na sociedade" e foi a meu ver bem trabalhado pois começamos a criar meios de conexão com os de fora. Fizemos eventos como o "Bar & Adoração", onde o salão da igreja passou a ser disponibilizado para servir salgados e petiscos com refrigerantes (nada de bebida alcoólica), tocando tanto música gospel como secular. Também iniciamos o "Celebrando a Recuperação" que é um trabalho de cura interior semelhante ao AA aberto a todos. E ainda tivemos um fórum sobre política e consciência, convidando a comunidade e autoridades da cidade que é feito também no auditório (alguns vereadores já vieram lá debater). Ou seja, no mesmo local onde rolam os cultos dominicais, temos feito eventos seculares afim de que o sagrado esteja em todos os locais, convidando sempre toda a comunidade.

Penso que esta separação entre igreja e o mundo às vezes se torna algo que aumenta mais ainda o isolamento social dos evangélicos. É como se o crente fosse um ser de outro mundo, que não se relaciona com ninguém e vive dentro de uma sub-cultura religiosa usando cumprimentos típicos e despidos de significação, como "a paz do Senhor, meu irmão", e tendo suas programações específicas. Ou seja, acabamos nos diferenciando do mundo mais por razões culturais de um povo igrejeiro do que por um comportamento genuíno capaz de mostrar uma santidade amorosa nas nossas relações.

Neste mês, recebemos a visita de uma irmã em Cristo que, salvo engano, fora criada na Assembleia de Deus. Embora ela esteja hoje em outra igreja, deixei-a bem perplexa quando levantei a ideia de que os crentes poderiam criar uma escola de samba afim de desfilarem no Carnaval.


Ora, mas será que não poderia ser interessante se pessoas crentes resolvessem criar uma escola de samba com princípios bíblicos e se apresentasse nos desfiles junto com as demais instituições carnavalescas?

Penso que sim e eu diria até que evangelístico, com todas as possibilidades de se desenvolver composições de músicas seculares que prestigiem a cultura brasileira, o que não deixa de ser uma maneira de falar em Deus. Uma escola de samba em que seus integrantes desfilem com descência e sem consumo excessivo de álcool ou drogas.

Compreendo que uma iniciativas destas seria ótimas e acho que não se pode reprimir a cultura secular a ponto de restringirmos aos cânticos de louvores. Pois todas as nossas expressões devem ser de louvor a Deus, inclusive nas comunicações que ainda são consideradas como seculares, muito embora palavras de saudação como um "oi", "bom dia", "como vai" podem muito bem conter em si mesma o reconhecimento do amor divino na existência do nosso próximo. Algo mais ou menos como o "anamastê" indiano, mas de um ponto de vista monoteísta.

Enfim, compreendo que o Carnaval, em tese, deve servir para os seguidores de Jesus interagirem com a sociedade onde vivemos e aí, obviamente, é preciso reconhecer a Divina Presença em todas as ocasiões de sociabilidade. Inclusive pensando na felicidade de nossas crianças que não podem crescer separadas dos coleguinhas da escola, parentes e vizinhos por causa da cultura alienada de seus pais.

Termino esta postagem com um indagação que inclui o tema adotado no ano de 2010 pela minha igreja atual:

Como seguir a Cristo em sociedade?


OBS: As fotos acima referem-se à época de minha infância quando os adultos resolviam me fantasiar de índio e eu detestava. As imagens foram feitas na vila onde minha avó materna e a bisavó moravam na Avenida Engenheiro Richard, no Grajaú, Zona Norte do Rio de Janeiro, bem como no clube que fica situado no mesmo logradouro.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Bancos e empresas concessionárias poderão ser obrigados a emitir contas em braile para portadores de deficiência visual


O deputado federal Walter Tosta (PMN-MG) propôs um projeto de lei n.º 99/2011 que, se for aprovado, obrigará bancos, administradoras de cartões de crédito e concessionárias de telefonia (móvel e fixa), energia elétrica, água e gás a emitirem faturas e correspondências em braile para os seus clientes portadores de necessidades especiais.

Concordo plenamente com a proposta, assim como acho que os órgãos oficiais também precisam redigir comunicações postais em braile sempre que solicitados, visto que o Poder Público deve dar o exemplo.

Dentre as justificativas apresentadas pelo parlamentar autor da proposição, deve ser ressaltado o constrangimento e os obstáculos pelos quais os deficientes visuais passam diariamente. Isto porque tratam-se de pessoas que “dependem de outrem para fazer a leitura dos extratos e da correspondência enviada pelas referidas instituições, muitas vezes de natureza confidencial”.

Afim de que ocorra a tão sonhada integração social, torna-se indispensável que haja uma persistente mobilização dos grupos interessados e também uma compreensão de todos os demais cidadãos, coisa que é muito difícil de fazer porque nem sempre somos capazes de nos colocar no lugar do outro que passa por um problema diferente do nosso. Todavia, se nada for feito, o artigo 227 da Constituição Federal continuará sendo letra morta.

Conforme dispõe a nossa Carta Magna, devem ser promovidos a habilitação e a facilitação do acesso dos portadores de necessidades especiais “aos bens e serviços coletivos, com a eliminação de preconceitos e obstáculos arquitetônicos”, o que significa a adaptação dos prédios públicos com rampas, uso do piso tátil nos locais.

A meu ver, considerando o crescimento econômico do país, muitos avanços poderão ocorrer nesta década em favor dos deficientes visuais no Brasil, dando-lhes maior autonomia em todos os sentidos, como fazer compras nos supermercados, andar pelas ruas, ter acesso a livros, etc. E isto tem se verificado nas últimas legislaturas da Câmara Federal e do Senado, segundo se lê no texto da justificação do projeto de lei:

“Por outro lado, o Congresso Nacional tem aprovado, nos últimos anos, inúmeros projetos – que se transformaram em normas jurídicas – com o objetivo de proporcionar melhor integração social dos deficientes, em absoluta consonância com os preceitos da Carta da República, que preconiza a implementação, pelo poder público, de programas, projetos e ações para atendimento dos deficientes”

Todavia, com ou sem lei, entendo que as pessoas portadoras de necessidades especiais, bem como suas entidades representativas, podem buscar através do Ministério Público as medidas cabíveis na defesa de seus interesses através da instauração de inquérito civil e o ajuizamento de demanda com fins coletivos. Pois, basta que se invoque o dispositivo constitucional para que, com base no princípio da dignidade da pessoa humana, o Poder Judiciário, determine as providências em sede de ação civil pública.

Proposto este mês, projeto de lei n.º 99/2011 segue apensado ao de n.º 6198/2005 de autoria do deputado Jefferson Campos (PTB-SP) que trata da mesma matéria e já se encontra sujeito à apreciação pelo Plenário da Câmara.


OBS: A foto acima foi extraída do site da CEMIG que, desde 2005, encaminha o demonstrativo em braile para os clientes que são deficientes visuais, sem a obrigatoriedade de que a pessoa portadora de necessidade especial seja titular da conta de energia elétrica, bastando que seja feito um contato telefônico com o atendimento da empresa.
http://www.cemig.com.br/Sustentabilidade/Programas/Sociais/Paginas/FaturaemBraille.aspx

As novidades da tecnologia e o vazio da humanidade


Recebi este vídeo abaixo por e-mail, enviado por minha mãe, onde ela questiona se estaremos vivos para aproveitar essas maravilhas da tecnologia que passam no filme.

Respondo que, provavelmente, sim. Pois coisas deste tipo já são uma realidade há algum tempo nas cidades do vale do Silício (Estados Unidos), bem como no prodigioso Japão. Aliás, penso que, dentro de uma década, o mercado brasileiro já esteja se endividando em intermináveis prestações das Casas Bahia para adquirir produtos dessa nova tecnologia que até lá já deverá estar sendo superada por outras novidades.

Assistam, porque, a seguir, vou comentar ainda nesta postagem:



Entretanto, mesmo com tantas inovações no seu cotidiano (ou no dia a dia de uma minoria porque muitos excluídos nem vão saber operar o sistema), não tenho dúvidas de que o mundo continuará a ter suas desigualdades, pobreza, casos de violência, devastações ambientais com consequências cada vez mais ameaçadoras e outras coisas mais que tanto assolam a humanidade.
 
Pergunto: será que a tecnologia vai realmente fazer as pessoas mais felizes, ou contribuirá para alienar ainda mais a humanidade quanto à sua própria tragédia?

Assistindo ao vídeo, não vi nenhum acréscimo que possa ser significativo em termos espirituais ou relacionais. O que observei foi uma sociedade que só consome.

Dê a sua opinião!


OBS 1: Fico imaginando a agonia dos idosos quando vão ao banco receber suas aposentadorias nos caixas eletrônicos. Imaginem o caos que vai ficar se o atendimento ao cidadão passar a ser apenas pelo meio virtual? E quando o sistema tiver uma pane qualquer?

OBS 2: A ilustração do texto foi extraída da página da Assembléia Legislativa do Estado do Mato Grosso do Sul em http://www.al.ms.gov.br/Default.aspx?Tabid=191&ItemID=31693

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Afinal, quanto dinheiro nós realmente precisamos?

Muito interessante esta mensagem de John Piper, "Por que eu abomino o evangelho da prosperidade?", criticando veementemente a teologia que certos pregadores divulgam e que se confronta com o propósito bíblico.

O conteúdo de sua pregação me fez refletir também sobre a questão como lidamos com o dinheiro, pois muitas das vezes cobiçamos coisas além do necessário para a nossa manutenção e para realizar os propósitos que Deus coloca nos corações de seus servos.

Não será esta a razão pela qual muitas pessoas (seguidoras ou não do "evangelho da prosperidade") andam frustradas com suas vidas?

Assista o vídeo e, se desejar, comente:


A revelação da revelação


A palavra "cânon" significa vara ou régua, o que, na verdade, seria um padrão ou uma regra.

Para os cristãos, o vocábulo passou a ter sentido para se referir a uma lista de livros inspirados por Deus que a Igreja reconheceu como Escrituras com autoridade divina.

Pode-se dizer que, na época de Jesus e dos apóstolos, os judeus já tinham categorizado a Bíblia hebraica em três partes: (i) a Torah, que seriam os cinco primeiros livros do AT da Bíblia cristã; (ii) os Profetas que se dividem em Profetas Anteriores (a sequência narrativa de Josué a 2Reis) e Profetas Posteriores (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os 12 "profetas menores" que formavam o "Livro dos Doze" agrupados num único rolo); e (iii) os Escritos que consistiam em grande parte em documentos cuja aceitação pelos rabinos possa ter ocorrido justamente no século I da era cristã, compreendendo os demais livros que fazem parte do Antigo Testamento da Bíblia protestante e divergiam da Septuaginta que incluía os deuterocanônicos.

O cânon definido pelos judeus do século I foi logo aceito pelos cristãos já que Jesus e os escritores do Novo testamento referiam-se a uma grande variedade de livros do AT como tendo autoridade divina, tendo em vista as citações do NT do tipo "Está escrito" ou "Diz o Senhor".

Entretanto, a formação do cânon do NT foi muito mais complexa do que a do AT, pois as discussões dentro da Igreja sobre quais livros seriam de inspiração divina foram bem maiores, embora hoje católicos (romanos e ortodoxos) e protestantes concordem quanto às 27 obras que constam nas suas respectivas Bíblias. E a única exceção é a igreja etíope, cujo cânon do NT tem 39 livros.

Devido à semelhança que guardavam, os Evangelhos sinópticos, isto é, os de Mateus, Marcos e Lucas, foram aceitos com mais facilidade do que o de João, uma vez que este foi usado pelos gnósticos para justificarem a versão que tinham sobre o cristianismo. Porém, as maiores polêmicas dos livros atuais do NT recaíram sobre o Apocalipse, que demorou cerca de dois séculos para ser aceito com unanimidade como Escritura, além das epístolas universais de Tiago, 2Pedro, 2 e 3João e Judas.

No artigo Uma lista aprovada - o "cânon" das Escrituras, publicano no Brasil pela Sociedade Bíblica, Stephen Travis e Mark Elliott explicam que:

"O livro do Apocalipse foi aceito mais rapidamente no Ocidente que no Oriente, mas até no Ocidente esteve sob suspeita por causa do seu uso pelos montanistas com seu entusiasmo excessivo por especulações quanto ao fim do mundo. No quarto século, o seu status foi reconhecido no Oriente - com a compreensão de que o milênio do Ap 20 não devia ser interpretado literalmente" (Manual Bíblico da SBB, pág 72)

De acordo com o referido artigo, eis que, nos tempos de Eusébio de Cesareia (séculos III e IV), pelo menos os 4 Evangelhos, Atos dos Apóstolos, as cartas paulinas, a Epístola aos Hebreus, 1João e 1Pedro já não sofriam mais restrição na Igreja de um modo geral, bem como o Apocalipse no Ocidente. Eram contestados não só Tiago, Judas, 2Pedro, 2 e 3João, como também Atos de Paulo, o Pastor de Hermas, o Apocalipse de Pedro, a Carta de Barnabé e o Didaquê. Já quanto aos Evangelhos de Pedro, de Tomé e de Matias, bem como os Atos de André e Atos de João, todos estes já se encontravam firmemente rejeitados nesta época.

Assim, na Páscoa de 367, Atanásio teria apresentado sua lista contendo os 27 livros inspirados no NT e coincidindo com o cânon atualmente utilizado nas Bíblias católica e protestante. Tal lista foi primeiramente aprovada no Oriente e, anos depois, no Ocidente, em 405, por uma declaração do papa.

É certo que, apesar da decisão papal, as divergências devem ter permanecido por muitos séculos dentro da Igreja. Tanto é que, no século XVI, Lutero e outros reformadores suspeitaram da canonicidade do Apocalipse e não aceitavam a Epístola de Tiago, porque viam conflitos desta com a doutrina paulina de salvação pela fé, exposta com maior abrangência em Romanos. E, embora tenha traduzido-os para o idioma alemão, Lutero considerou as epístolas de Hebreus, Tiago, Judas e o Apocalipse como obras inferiores, colocando-as no final da sua Bíblia e tendo somente os demais livros “os verdadeiros, seguros e mais importantes livros do Novo Testamento”.

Mas será que o cânon, por ter sido uma criação da Igreja, não poderia ser novamente revisto em pleno século XXI?

Particularmente eu entendo que sim e, sem dúvida, a inspiração do Apocalipse pode e deve ser investigada.

Pelos respeitáveis estudos de Israel Knohl, o Apocalipse teria se baseado numa literatura anterior - o Oráculo de Histapes. Este é mencionado pela primeira vez por Justino Mártir, no século II, segundo o qual Roma punia até com a morte quem lesse esta profecia. E, segundo uma informação atribuída a Clemente de Alexandria, Paulo de Tarso teria feito uso dessa obra e até recomendado a sua leitura.

"O mítico Histapes, a quem o oráculo foi atribuído, era um rei da Média que supostamente viveu antes da Guerra de Tróia. Mas a identidade persa encobre o fato de essa obra apocalíptica ter sido escrita por um judeu, a respeito do povo judeu e de Jerusalém. Passagens do Oráculo de Histapes estão preservadas em um livro do Padre da Igreja Lactâncio (ca. 300 E.C.), que era conhecido como Cícero cristão. Em sua profecia, Histapes fala de dois reis. Sobre o primeiro que reina sobre a Ásia, disse: 'Ele atormentará o mundo com seu poder intolerável... e planejará novos desígnios em seu íntimo, para poder estabelecer o governo para si mesmo... E finalmente, mudará o nome do império e transferirá sua sede'. Depois desse rei, viria outro rei, mais terrível que o primeiro, e o destruiria. Histapes assim fala deste segundo rei: 'Ele se constituirá e se intitulará Deus e ordenará que o adorem como filho de Deus'. Quem eram esses dois reis? Segundo Histapes, o primeiro rei que governava a Ásia, mudaria o nome do império e transferiria sua capital. Essas afirmações correspondem exatamente às acusações que os partidários de Otaviano-Augusto fizeram contra Marco Antônio, por causa do relacionamento com Cleópatra (...) De acordo com o relato do historiador romano Cássio Dio, em Roma acreditava-se que 'se Antônio vencesse, doaria a cidade a Cleópatra e transferiria a sede do poder para o Egito'. Na visão de Histapes consta que o primeiro rei 'planejará novos desígnios em seu íntimo, para poder estabelecer o governo para si mesmo. ... E, finalmente, mudará o nome do império e transferirá sua sede'. Esse rei poderia, portanto, ser identificado como Marco Antônio. Ainda de acordo com Histapes, o primeiro rei seria destruído pelo segundo - este seria Augusto, que derrotou Antônio. Sobre o segundo rei, disse Histapes: 'Ele ... se intitulará Deus e ordenará que o adorem como o filho de Deus'; com efeito, Otaviano-Augusto se intitulou divi filius - 'filho de Deus'. De acordo com Histapes, o segundo rei, o 'filho de Deus', seria um falso profeta que faria descer fogo do céu: 'Ele também será um profeta de mentiras, e se constituirá e se intitulará Deus e ordenará que o adorem como o filho de Deus, e lhe será dado o poder de realizar milagres e prodígios, com a visão dos quais ele poderá induzir os homens a adorá-lo. Ele ordenará que o fogo desça do céu'. Por que Augusto, o 'filho de Deus', foi descrito como um falso profeta?"

As descobertas sobre o Oráculo de Histapes são interessantes pois demonstram a existência de uma obra anterior ao próprio cristianismo e que pode ter servido de inspiração para o escritor do Apocalipse, assim como já identifica o anseio dos gregos pela transferência da capital do império romano. Segundo Israel Knohl, a seita de Qumran já teria conhecimento dessa obra, que, a seu ver, poderia ter sido escrita pelos próprios essênios que, assim como os cristãos, acreditavam num messianismo catastrófico e usaram o termo "filho de Deus" atribuído ao Messias, como uma antítese ao título de Otávio-Augusto.

Sobre as semelhanças do Oráculo de Histapes com o Apocalipse, Knohl, nos diz que:

"A figura do falso profeta que faz descer fogo do céu também é familiar pela famosa visão, no capítulo 13 do Apocalipse do Novo Testamento, onde as duas bestas são descritas. A primeira delas, com sete cabeças e dez chifres, surgiu do mar. Uma de suas cabeças estava seriamente ferida, mas a ferida foi curada. Todos os habitantes da terra adoravam essa besta. Posteriormente, apareceu uma segunda: 'Vi depois outra besta sair da terra; tinha dois chifres como um cordeiro, mas falava como um dragão' (Apocalipse 13.11). Mediante prodígios e milagres, entre os quais fazer descer o fogo do céu, essa besta persuadiu os habitantes da terra a fazerem uma imagem da primeira besta e adorá-la. 'Ela opera grandes maravilhas? até mesmo a de fazer descer fogo do céu sobre a terra, à vista dos homens' (Ap 13,13). A segunda besta lembra muito a figura do falso profeta, o 'filho de Deus', de Histapes. Ao longo da história do cristianismo, todos os tipos de interpretações foram sugeridos para a visão das duas bestas, mas ao que consta até agora nenhuma explicação realmente convincente foi dada. Em minha opinião, a chave para o entendimento da visão é nos conscientizarmos de que João, que parece ter escrito o livro da Revelação (ou Apocalipse) por volta de 80 E.C., se valeu de uma composição mais antiga, redigida no início do século I E.C., durante o reinado de Augusto".

Os trechos que citei acima estão nas páginas 43 a 46 do livro O Messias antes de Jesus: o servo sofredor dos Manuscritos do Mar Morto (editora Imago, 2001), e o seu autor faz uma respeitável comparação com a História em relação a detalhes sobre Augusto, as lendas sobre seu nascimento, sua astrologia, sua ligação com o deus Apolo, entre outros mitos que talvez acreditassem na época a respeito do monarca. mas, quanto ao golpe sofrido pela besta, ele associa à morte de Júlio César, tio de Augusto, sendo que tal figura refre-se à Roma não a uma pessoa específica, e a "imagem da besta" corresponderia à imagem da deusa Roma. Então ele conclui:

"Na visão das duas bestas no capítulo 13 do Apocalipse e no Oráculo de Histapes, encontramos uma polêmica contra a propaganda que apresentava Augusto como governante com atributos divinos e contra o culto imperial que existia em seu tempo. Histapes criticava Augusto e o acusava de criar um culto no qual era adorado como Deus e como o 'filho de Deus', e o Apocalipse atacava o segundo elemento do culto imperial - a adoração à deusa Roma, símbolo do império." (págs. 49 e 50)

Sobre a a autoria de ambas as literaturas apocalípticas, ao que parece, Knohl supõe que tenha sido mesmo um judeu e, de fato, há fortes valores judaicos impressos no Apocalipse (é o único livro do NT onde aparece a palavra "aleluia") e constantes menções à Torah como o templo celestial, a arca e outros elementos da culta judaica em que se acreditava na existência de de um paralelo de coisas existentes nos céu e na terra (a visão de Moisés no Sinai foi de objetos existentes no céu).

Finalmente, resta compartilhar que, segundo os comentários introdutórios ao livro da Bíblia de Jerusalém, o Apocalipse poderia ter se formado com a reunião de dois textos e mais as cartas às igrejas e o primeiro capítulo:

"Em seu estado atual, o texto do Apocalipse apresenta certo número de duplicatas, de cortes na sequência das visões e de passagens aparentemente fora do contexto. Os comentadores tentam explicar essas anomalias de múltiplas maneiras: compilação de fontes diferentes, deslocamento acidental de certas passagens ou capítulos etc. Entre as explicações possíveis propomos a seguinte hipótese. A parte propriamente apocaliptica (Ap 4-22) parece ser composta de dois apocalipses distintos, escritos pelo mesmo autor em datas diferentes, e depois unidos num só texto por outra mão (...) Quanto às cartas às sete Igrejas (1-3), embora destinadas a serem lidas junto com os outros dois textos, devem ter existido primeiro na condição de texto separado".

Muito intrigante isto, não? Ainda mais quando lemos nos versos finais do livro uma clara advertência com severas maldições para quem tivesse a ousadia de modificar a obra, visto que se tratava de uma prática bem comum naqueles anos:

"Declaro a todos os que ouvem as palavras da profecia deste livro: Se alguém lhe acrescentar algo, Deus lhe acrescentará as pragas descritas neste livro. Se alguém tirar alguma palavra deste livro de profecia, Deus tirará dele a sua parte na árvore da vida e na cidade santa, que são descritas neste livro." (Ap 22.18-19; Nova Versão Internacional - NVI)

Ora, se a versão atual do Apocalipse diverge da original, como é que alguém teve a ousadia de modificá-lo? Ou será que a tais versos, que não são encontrados em outros livros da Bíblia, teriam sido colocados ali justamente por quem introduziu as modificações e, por isto, desejava encobrir algum texto anterior?

Seja como for, entendo que sempre será válido retomar os corajosos debates de Lutero sobre a canonicidade do Apocalipse mesmo nos tempos atuais. Afinal, o cânon é uma pura invenção eclesiástica.


OBS: A ilustração acima refere-se ao quadro do Juízo Final (1432-1435), uma das mais famosas obras de Giovanni da Fiesole, melhor conhecido como Fra Angelico.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Quando a religiosidade nos impede de amar


Certa vez, ao responder a um homem versado nas Escrituras bíblicas sobre quem seria o seu próximo, Jesus lhe disse esta parábola conhecida como a do Bom Samaritano:


“Um homem descia de Jerusalém para Jericó, quando caiu nas mãos de assaltantes. Estes lhe tiraram as roupas, espancaram-no e se foram, deixando-o quase morto. Aconteceu estar descendo pela mesma estrada um sacerdote. Quando viu o homem, passou pelo outro lado. E assim também um levita; quando chegou ao lugar e o viu, passou pelo outro lado. Mas um samaritano, estando de viagem, chegou onde se encontrava o homem e, quando o viu, teve piedade dele. Aproximou-se, enfaixou-lhe as feridas, derramando nelas vinho e óleo. Depois colocou-o sobre o seu próprio animal, levou-o para uma hospedaria e cuidou dele. No dia seguinte, deu dois denários ao hospedeiro e lhe disse: 'Cuide dele. Quando eu voltar lhe pagarei todas as despesas que você tiver'”. (Evangelho de Lucas 10.30-36; Nova Versão Internacional – NVI)


Nesta história, há três personagens que se destacam: o sacerdote, o levita e o samaritano. Após contar a parábola, Jesus pergunta ao homem com quem falava qual deles seria o próximo daquele que fora vitimado pelos assaltantes. O homem concluiu que o próximo foi aquele que agiu com misericórdia com o necessitado (o samaritano).

Muitos entendem que na parábola estaria implícita uma crítica severa às classes sacerdotal e dos levitas que, segundo a Torah judaica, tinham o dever de cuidar do Templo de Jerusalém. Entretanto, é preciso considerar que a questão tratada no Evangelho é bem mais profunda, pois não se trata de um caso comum de omissão de socorro, como se o sacerdote e o levita estivessem se recusando a ajudar alguém em estado de necessidade.

O ponto desta parábola no qual eu quero focar, talvez até atenue um pouco a situação do sacerdote e do levita, mas irá ressaltar a miopia causada pela religiosidade - o real motivo da omissão de socorro. Omissão esta que precisa ser analisada em conjunto com o restante das Escrituras, o que talvez nos mostre que o sacerdote e o levita agiram com tanta limitação a ponto de nem perceberem se a vítima do assalto ainda estava viva e precisando de ajuda.

Conforme destaquei em negrito na citação bíblica acima, o homem assaltado foi deixado “quase morto”, sendo que, nas versões de Almeida Revista Atualizada (ARA) da Bíblia de Jerusalém (BJ), diz-se que ele estava “semimorto”.

Prescreve a lei mosaica em Bamidbar (Números) que, se um homem tocasse num morto, ele tornava-se cerimonialmente impuro durante sete dias, pelo que tal pessoa precisaria passar por um ritual de purificação para poder entrar no Templo:

“Quem tocar num cadáver humano ficará impuro durante sete dias. Deverá purificar-se com essa água no terceiro e no sétimo dia; então estará puro. Mas, se não se purificar no terceiro e no sétimo dia, não estará puro. Quem tocar num cadáver humano e não se purificar, contamina o tabernáculo do SENHOR e será eliminado de Israel. Ficará impuro porque a água da purificação não foi derramada sobre ele; sua impureza permanece sobre ele.” (Nm 19.11-13; NVI)

Em Vaicrá (Levítico), havia a clara orientação para que fosse evitado qualquer contato com cadáveres pelos clérigos, sendo que as poucas exceções permitidas seria pela ocasião da morte de um parente próximo do sacerdote, mas que não alcançava o sumo sacerdote, o qual, em hipótese alguma, poderia profanar o santuário do Templo:

“Disse ainda o SENHOR a Moisés: 'Diga o seguinte aos sacerdotes, os filhos de Arão: Um sacerdote não poderá tornar-se impuro por causa de alguém do seu povo que venha a morrer, a não ser por um parente próximo, como mãe ou pai, filho ou filha, irmão, ou irmã virgem dependente dele por ainda não ter marido; por causa dela, poderá tornar-se impuro. Não poderá tornar-se impuro e contaminar-se por causa de parentes por casamento' (…) 'O sumo sacerdote, aquele dentre seus irmãos sobre cuja cabeça tiver sido derramado o óleo da unção, e tiver sido consagrado para usar as vestes sacerdotais, não andará descabelado, nem rasgará as roupas em sinal de luto. Não entrará onde houver um cadáver. Não se tornará impuro, nem mesmo por causa do seu pai ou da sua mãe; e não deixará o santuário do seu Deus, nem o profanará, porquanto foi consagrado pelo óleo da unção dos eu Deus. Eu sou o SENHOR.'” (Lv 21.1-4,10-12; NVI)

Tal regra da Torah foi reiterada pelo livro do profeta Ezequiel (44.25-27) e a Mishná igualmente concordou com a proibição do sumo sacerdote em participar dos cortejos fúnebres (mSanh 2.1).

Assim, devido a essas questões, é bem possível que o sacerdote e o levita, ao passarem pelo caminho que ligava Jerusalém a Jericó, nem ao menos tomaram conhecimento de que a vítima do assalto ainda vivesse. Pois, na certa, eles devem ter pensado que o homem caído na estrada já estivesse morto devido ao estado em que se encontrava, pelo que consideraram conveniente afastarem-se do suposto cadáver afim de evitarem a contaminação da lei mosaica.

Confesso que, ao reler a parábola do Bom Samaritano, sob o ponto de vista judaico das Escrituras hebraicas, pude pensar no quanto a religiosidade é capaz de criar embaraços e limitações na prática do amor ao próximo. E penso que este belo ensinamento aplica-se muito bem aos cristãos de hoje e de todas as eras. Isto porque, no apego a uma ideia de pureza aparente e extrema, corremos o risco de não perceber a manifestação da vida no cotidiano e matarmos quem ainda está respirando.

Será que a religiosidade não leva o cristão se preocupar tanto com a sua posição que ele acaba abstendo-se de se aproximar de determinadas pessoas consideradas como mundanas, pecadoras, drogadas, de vida sexual desregrada e até mesmo doentes?

Há casos absurdos, porém frequentes, em que homens deixam de orar com uma mulher (ou vice-versa) por temerem que, em decorrência daquele contato, alguém de sua congregação, ou mesmo de outra igreja, vá achar que ele está tendo um caso extraconjugal. Ou seja, as pessoas preocupam-se mais com uma fama exterior do que agradarem a Deus que conhece nossas reais motivações.

Quantas vezes muitos já não deixaram de dar atenção a alguém que precisa de ajuda só porque tinham que ir ao culto naquele momento? Ou recusaram-se a fazer doações por pensarem que não podiam deixar de contribuir com o dízimo?

Recordo que certa vez, quando eu estava numa igreja grande, não me senti bem durante o culto. Era uma manhã de batismo. Entre uma imersão e outra dos novos convertidos, as pessoas cantavam louvores, bradavam e comemoravam. Porém, minha mente estava confusa de modo que não dava para continuar participando daquela festa, visto que minha esposa tinha sido internada no hospital durante o dia anterior e eu necessitava de informações do médico (algumas unidades do SUS ainda nem permitem a entrada do acompanhante fora do horário de visita). E eu desejava também desabafar, mas faltava alguém que estivesse disposto a me ouvir fora daquele lugar barulhento como eu gostaria. Foi quando resolvi sair do auditório. Falei com com alguns irmãos, compartilhando brevemente a minha dor, e dali me dirigi sozinho ao local onde Núbia se encontrava afim de falar com os profissionais de plantão.

Contudo, se naquela vez fui vítima da falta de percepção da pessoas que participavam do culto de batismo, não posso negar que eu também já agi com limitações semelhantes diante das necessidades do meu próximo. Mesmo carregando o Evangelho de Jesus na mão, já coloquei a frequência às reuniões da igreja como uma prioridade sobre outras coisas. Ou então, fiz o que é pior. Mandei pessoas aflitas procurarem ajuda num templo religioso sendo que, quando fui confrontado com tais situações, a Igreja já estava bem diante delas através de minha pessoa e não fiz o que deveria ter praticado.

Curiosamente, a parábola do Evangelho de Lucas fala de um piedoso samaritano que decidiu aproximar-se da vítima na estrada e prestar socorro. E, possivelmente, a história deve ter se inspirado no relato das Escrituras hebraicas de 2Crônicas 28.8-15, quando prisioneiros judeus recebem tratamento digno dado pelos samaritanos.

Tidos como hereges e adversários históricos dos judeus durante centenas de anos, os samaritanos eram muito hostilizados nas primeiras décadas do primeiro século e ambos não se toleravam. Segundo o historiador Josefo, durante um Pessach (Páscoa), alguns samaritanos tiveram a audácia de profanar o Templo espalhando restos de ossos humanos no local do santuário (Antiguidades 18.30), E, no diálogo entre Jesus e a mulher samaritana, esta se surpreende pelo fato de Jesus ter lhe pedido um pouco de água (João 4.9). Numa outra ocasião, os samaritanos nem recebem Jesus em sua cidade só porque o Senhor estava dirigindo-se para Jerusalém onde ficava o Templo e eram comemoradas as festas judaicas (ler Lucas 9.51-56).

Foi justamente o samaritano que, sentindo-se livre das obrigações cerimoniais da religião, não teve embaraços para se aproximar de alguém caído na estrada que aparentava estar morto, mas ainda vivia. Aquele samaritano não tinha motivos para se preocupar com o que alguém poderia falar a seu respeito, no sentido se ficou ou não contaminado por tocar em cadáver humano. Ele simplesmente viu alguém em necessidade e acolheu.

Como escrevi acima, este é um recado não só para os judeus religiosos dos tempos de Jesus, mas também para nós cristãos do século XXI que somos chamados a agir em benefício do nosso próximo e satisfazermos as necessidades das pessoas acima de qualquer questão ritual.


OBS: A ilustração refere-se ao quadro O Bom Samaritano, uma pintura de George Frederic Watts (1904).

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Como exorcizaremos os fantasmas da ditadura?


Ao contrário de muitos países, o Brasil, na maior parte de sua história, teve como costume buscar uma composição pacífica dos conflitos. Foi assim na época de nossa independência, quando o próprio príncipe regente D. Pedro de Alcântara resolveu ceder às pressões da sociedade brasileira e dar o brado do rio Ipiranga (1822).

Igualmente, em meio aos movimentos das Diretas Já (1984), buscou-se a eleição de um governo civil, eleito indiretamente pelo Congresso Nacional, afim de fazer a transição entre o regime militar e a democracia.

No meu ponto de vista, isto é bom e ruim. Pois, ao mesmo tempo em que o consenso desestimula a consolidação de uma iniciativa revolucionária, gerando atitudes conformistas e paternalistas, também evitamos as consequências de uma sangrenta guerra civil no país, poupando milhares de vidas inocentes.

Contudo, nos tempos mais recentes, cerca de 25 anos depois do fim do último presidente militar, têm surgido vozes clamando pela punição de ex-agentes públicos que colaboraram com o regime anterior. Nesta semana mesmo, deparei-me com uma notícia no site da OAB que assim diz:


"A Ordem dos Advogados do Brasil, seção Rio de Janeiro (OAB/RJ) vai submeter o advogado Ubirajara Ribeiro de Souza, de 74 anos, ao seu Tribunal de Ética e Disciplina. Em reportagem publicada domingo, o jornal O Globo revelou que Ubirajara atuou, como sargento do Exército, usando os codinomes "Zezão" ou "Zé Grande", na "Casa da Morte", centro de tortura supostamente montado pelo Centro de Informações do Exército (CIE), no início dos anos 1970, em Petrópolis, para interrogar e eliminar presos políticos considerados irrecuperáveis."
(trecho da matéria extraída de http://www.oab-rj.org.br/index.jsp?conteudo=14299)


Em que pese o direito de sabermos acerca da verdade histórico sobre o que aconteceu nos porões da ditadura militar, penso que o momento para punições já acabou de modo que eu considero um absurdo de uma tamanha hipocrisia se a OAB vier a excluir o Dr. Ubirajara de seus quadros.

Seria justo perseguir hoje um homem idoso de seus 74 anos por causa de fatos supostamente ocorridos há 40 anos atrás?

Data venia do atuante e combativo presidente da Seccional da OAB no Rio de Janeiro, Dr. Wadih Damous Filho, penso que, nestas horas, a entidade acaba perdendo seu foco, uma vez que outras ditaduras institucionais ainda continuam neste país, violando princípios basilares de nossa Carta Magna. Basta que vejamos as situações dos presídios, o desrespeito constante de autoridades administrativas e judiciais quanto ao exercício profissional dos advogados, a corrupção na política e a violência policial (existem inúmeros PMs que hoje fazem parte dos quadros da Ordem e podem ter praticado atos que também possam ser interpretados como sendo "incompatíveis com o exercício da advocacia").

Ora, o que diremos dos advogados que praticam violência doméstica contra suas esposas? Ou dos colegas de profissão que, pelo exercício de um cargo político, ficam com seus nomes sujos no Tribunal de Contas e ainda assim não são excluídos da OAB?

Não vou aqui entrar no mérito sobre o que é ou não “conduta incompatível com o exercício da advocacia” afim de não me perder na redação deste texto. Porém, quero focar na maneira como lidaremos com as manchas de nosso passado histórico e aí busco nos ensinos de Jesus uma resposta, quando o Senhor falou no célebre Sermão da Montanha acerca do perdão, do amor aos inimigos e de oferecermos a outra face.

Tenho em meu íntimo o sentimento de que a retribuição a quem nos fez mal não tira de nosso interior o incômodo causado pela lembrança. Assistir o torturador sendo agora processado, julgado, preso e execrado jamais vai apagar a dor do passado, mas sim reacendê-la no coração das vítimas e/ou de seus familiares.

Será que a solução não pode ser encontrada na admissão desses antigos crimes por parte dos torturadores e na conciliação entre estes e as vítimas?

Por que a sociedade não pode buscar dentro de si mesma uma re-edição para cicatrizar todas essas marcas?

Ou será que vamos encobrir os erros e omissões do presente punindo o passado?

A meu ver, o passado deve ser confrontado, mas sem caça às bruxas!

Atualmente, tanto as vítimas quanto os agressores dos tempos da ditadura são pessoas que já fazem parte da terceira idade, em condições de serem avós e até bisavós. Trata-se de uma geração que já cometeu seus erros e acertos (em ambos os lados) e que agora deixa um país para ser governado por seus filhos. Deste modo, que o melhor a se fazer neste momento seria todos anistiarem uns aos outros e ensinarem às crianças, adolescentes, jovens e pessoas de meia idade a construírem um país melhor: sem corrupção, menos desigualdades sociais, sem violência, mais respeito ao meio ambiente e com uma democracia amadurecida pela participação mais ativa do cidadão.


OBS: A imagem acima trata-se da capa do livro OAB X DITADURA MILITAR de Cid Vieira de Souza Filho, respeitado advogado criminalista, formado pela PUC/SP. De acordo com a sipnose disponibilizada pelo site da editora Livraria do Advogado, a obra relembra momentos marcantes da advocacia brasileira na luta pela justiça, pelo Direito, pela paz social.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Egito: será que uma onda de democracia está invadindo o Oriente Médio?


Recordo-me que, no final da década de 80 e início dos anos 90, quando eu ainda estava entrando na adolescência, vários Estados do Pacto de Varsóvia, na Europa do Leste, começaram a se libertar das cortinas de ferro do comunismo. Além da União Soviética, uma onda democrática atingiu Polônia, Hungria, Bulgária, Romênia, a antiga Tchecoslováquia e a Alemanha Oriental, de modo que a própria população desses países foi às ruas para depor seus ditadores.

Cerca de duas décadas depois, fico me perguntando se estamos a assistir algo semelhante no Oriente Médio?

Tomara que sim! E confesso que estou muito satisfeito com a queda de Hosni Mubarak ocorrida em 11 de fevereiro deste ano, mas não há como negar que os movimentos políticos que vêm ocorrendo nos países árabes ainda se mostram um tanto indefinidos por causa da falta de tradição democrática de suas populações.

Contudo, minha intuição diz que a juventude nessa vasta região do planeta, que constitui a maior parte da população (a taxa de fecundidade lá é bem maior do que no Ocidente), parece que está ansiando por mudanças bem profundas. E daí a democracia vem se mostrando capaz de satisfazer as novas aspirações sociais.

Apesar de Mahmoud Ahmadinejad ter comemorado a queda de Mubarak, visto que o ditador egípcio era um forte aliado dos Estados Unidos em favor de Israel, tenho o palpite de que o regime dos aiatolás também esteja com os dias contados. Pois, se lembrarmos dos protestos ocorridos por ocasião das eleições iranianas de 2009, provavelmente fraudadas, pode não demorar muito para que uma outra onda de protestos tornem a ocorrer na antiga Pérsia.

Durante as manifestações no Egito, indaguei qual deveria ser a posição do governo brasileiro diante daqueles fatos. Então cheguei à conclusão que nossa diplomacia precisava ser cautelosa, mas sempre apoiando a democracia e os direitos humanos. E, neste sentido, até que o Itamaraty posicionou-se bem:


"(...) O Brasil acompanha com grande interesse a evolução da situação política no país amigo, que, além de parceiro relevante, desempenha papel importante para a estabilidade do Oriente Médio. Ao solidarizar-se com a população egípcia na busca da realização de suas aspirações, o Brasil reafirma sua confiança de que as lideranças políticas da sociedade egípcia saberão fazer face a este momento de novas oportunidades e desafios, em ambiente de entendimento e de diálogo democrático (...)"


Depois dessa incrível e valente vitória popular, desejo que todo o processo de transição democrática no país dos faraós se faça com respeito aos direitos civis e políticos, com "paz e tranquilidade", conforme espera a diplomacia brasileira. Torço para que, como a Turquia, o Egito torne-se um bom exemplo de democracia no Oriente Médio, onde passe a existir ali liberdade de religião e de credo, bem como no que se refere aos direitos femininos.


OBS 1: Um exemplo para nós brasileiros


"Essa é a mistura do Brasil com o Egito.
Tem que ter charme pra dançar bonito."


Mistura?

Verdade é que, ao contrário daquela música tocada pelo Tchan nos anos 90, ainda não temos muito a ver com os jovens egípcios que, dia após dia, foram às ruas até o ditador renunciar.

Espero que possamos deixar de lado a nossa passividade ridícula diante dos políticos corruptos que governam nossa nação e protestarmos contra a pouca vergonha administrativa que se vê nas três esferas de poder: Executivo, Legislativo e Judiciário.

Será que, enquanto os povos muçulmanos e europeus vão às ruas brigar por seus direitos, nós continuaremos sendo coniventes com a nossa doentia plutocracia brasileira?


OBS 2: A imagem e a citação acima foram tiradas do site do Itamaraty na internet - http://www.itamaraty.gov.br/sala-de-imprensa/notas-a-imprensa/situacao-politica-no-egito


OBS 3: Já a primeira foto encontra-se no site da embaixada egípcia - http://www.opengate.com.br/embegito/


OBS 4: Até que eu tenho alguma ligação com o Egito. Meu avô materno, Georges Phanardzis, nasceu lá. Porém, foi registrado como grego, conforme a origem de sua família.

Aceitando nossas diferenças dentro das escolas


Através do patrocínio do governo federal e de algumas empresas, foi produzido o vídeo abaixo, intitulado "Eu Não Quero Voltar Sozinho", com a finalidade de se combater a homofobia nas escolas.

No filme, Leonardo é um adolescente cego, amigo de Giovana. Esta leva-o diariamente da escola até sua casa ao final das aulas. Com a chegada de Gabriel à classe, inicia entre eles uma amizade, mas Leonardo vai se apaixonando pelo novo colega. No decorrer da história, ele passa a lidar com os ciúmes da amiga Giovana e começa entender os sentimentos despertados por Gabriel.

Muitas pessoas conservadoras têm criticado a produção, dizendo que o dinheiro público está servindo para instigar jovens na prática homossexual. Eu, porém, prefiro não fazer parte deste coro imbecil, retrógrado e preconceituoso, pelo que vejo uma certa importância social na iniciativa que poderá contribuir para a construção de uma sociedade mais tolerante.

Penso que, num mundo imperfeito, onde há profundas diferenças comportamentais entre as pessoas, é preciso promover a aceitação incondicional do outro. E, neste sentido, não acho errado que o dinheiro público tenha sido empregado com tal finalidade através de um material muito bem elaborado. Inclusive sobre a cena do beijo gay. Isto porque tais expressões de afeto homossexual precisam ser melhor trabalhadas entre as pessoas. Pois, mesmo que alguém não concorde, é preciso respeitar a opção ou condição do outro.

Uma das coisas que o curta metragem melhor me mostrou foi sobre a intolerância que ocorre nas escolas e isto eu diria que acontece em todos os sentidos porque, em geral, o adolescente repele pessoas com as quais ele não se identifica. Recordo que, tanto no 1º grau quanto no 2º, eu sofria bastante pressão dos colegas de escola pelo meu jeito de ser, por querer participar das aulas de uma maneira mais intensa e por não me enquadrar no comportamento medíocre deles.

Sendo assim, não tenho muita dificuldade em imaginar como deve ser a aceitação de um coleguinha homossexual dentro das escolas. Principalmente no grupo masculino que, em regra, é mais homofóbico do que as mulheres.

Como seguidor de Jesus, creio que a mensagem do Evangelho pode ser traduzida pela inclusão social de quem é diferente: os cegos vêem, os surdos ouvem, os paralíticos andam, os leprosos são purificados, publicanos e meretrizes são perdoados e os pobres tornam-se destinatários da pregação do Messias.

Analogamente, penso que os homossexuais, que não escolhem os sentimentos que têm, devem ser incluídos em sociedade como seres humanos iguais a todos. Iguais em direitos. Iguais em falhas. Iguais em carências afetivas. Iguais em sonhos de vida. Iguais em necessidades espirituais.

Mais do que nunca, a escola pode e deve ser o lugar onde se aprende a tolerância dentro da sociedade.




OBS: A imagem foi extraída do Portal do Professor na página do MEC - http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=4916

Obrigado!


Se não fossem os acontecimentos ruins que presencio, ou experimento, possivelmente eu jamais reconheceria a minha ingratidão em relação à vida.

Na tarde desta quinta-feira (10/02/2011), estive com um senhor que, após sua cirurgia de próstata em Teresópolis, ficou meses usando uma incômoda sonda e até hoje ainda necessita usar fraldas para conter a urina. Ao nos encontrarmos na avenida principal da cidade, a primeira coisa que ele veio contar foi a benção de ter voltado a urinar que para ele tornou-se algo de grande significado.

Sua experiência lembrou-me o sufoco pelo qual passou a minha avó materna no ano passado em que, após quebrar o fêmur em abril, ter ficado internada no Hospital do Andaraí e passado por uma delicada cirurgia de prótese, ainda demorou bastante para livrar-se da tal da sonda, visto que ela contraiu infecção urinária. Então, de tempos em tempos, minha mãe pagava uma profissional de saúde que ia até a casa delas fazer a troca da sonda. E isto alongou-se por alguns meses também.

É impressionante como que uma função fisiológica do organismo, a qual muitas pessoas e animais desempenham normalmente, pode tornar-se um imensurável tormento para quem sofre de algum problema específico capaz de afetar a excreção urinária. Porém, quando uma pessoa está bem, nem sempre ela consegue parar pra pensar nestas cosias e agradecer a Deus, sendo que, não raras vezes, ainda vemos jovens desperdiçando a saúde com drogas, bebidas, anabolizantes, brigas de futebol, pegas de carro e tantas atividades perigosas. Aliás, muita gente chega a cometer suicídio diante de coisas bem banais.

O surpreendente disto tudo é que nem sempre as pessoas que já não gozam mais de tanto vigor físico são revoltadas com a vida. Pois esse senhor que operou a próstata no ano passado compartilhou ter aprendido bastante com sua experiência. Em seu relato, pareceu-me que Deus houvesse feito também uma cirurgia em seu interior. Era como se o doloroso sofrimento tivesse servido para acrisolar seu caráter e personalidade.

Devido às fortes chuvas que ocorreram em janeiro deste ano aqui na Região Serrana do Rio de Janeiro, mais de 5.500 famílias em minha cidade foram desalojadas de suas residências. Muitas perderam suas casas e agora estão vivendo em abrigos improvisados pelo governo, tendo que dormir em colchonetes espalhadas pelo chão, sem a privacidade do lar junto com desconhecidos, alimentando-se de doações, precisando observar horários específicos para deitar, fazer refeições, tomar banho, etc. Nas semanas que seguiram à tragédia, um grupo de minha igreja e mais uns jovens voluntários que vieram de uma área pobre Rio de Janeiro, vem visitando alguns destes locais onde estão morando os desabrigados, tendo o nosso pastor compartilhado que:


“Quero agradecer a cada oração e contribuição dada a cada pessoa da nossa cidade, pois precisamos deste acolhimento para manter nossas forças e motivações saudáveis. Nosso trabalho está baseado em atender pessoas diariamente em nosso espaço que precisam de mantimentos (...) Elaboramos uma rotina de cadastramento, visitas aos abrigos e comunidades, localização dos abrigos informais e grupos de famílias que ainda permanecem em locais de risco. Agora temos que trabalhar com a pressão administrativa de esvaziar as escolas que servem de abrigos para iniciar o cronograma educacional, contudo não dá para pensar neste assunto apenas pelo lado burocrático e administrativo, uma vez que estamos diante de culturas sociais específicas (...) A rotina de vida quer seguir seu curso humano e que deve ser mais justo, pois o QUE JESUS FARIA NUMA SITUAÇÃO DESSAS? Estamos olhando para as pessoas e procurando ouvi-las e através dos valores do Reino orientá-las nas decisões que são necessárias, já que a igreja não está e não deve estar no lugar do saber, mas ouvir, reconhecer e participar da vida comunitária, afinal o que significa “CAIR NA GRAÇA DO POVO”? A realidade que a gente vive de poder fazer as coisas, comprar, trabalhar, ter a nossa casa, levar nossos filhos para a escola, convidar nossos amigos para nos visitar, tomar um banho, almoçar assistindo TV e coisas do gênero, muitos não podem, pois agora vivem em abrigos improvisados e estruturados para atender o mínimo e necessário, todavia eles querem ser vistos e assistidos com mais dignidade e humanidade. O pão nosso de cada dia é muito mais que o curso de uma rotina de vida é estar diante de Deus no cotidiano difícil para reconstruir sonhos e projetos de vida e refletir sobre o que a água e a lama não levaram.” (extraído do texto "VIDA DIÁRIA E O PÃO NOSSO DE CADA DIA", de Robson Rodrigues, em http://novafriburgourgente.blogspot.com/2011/02/vida-diaria-e-o-pao-nosso-de-cada-dia.html) - o destaque em negrito é meu


Não podemos permitir que os pequenos problemas do cotidiano ou as insatisfações pessoais ofusquem a nossa visão a respeito da vida, levando-nos a murmurar, cultivar frustrações ou nos levar a pensar que somos vítimas das situações. Digo que um comportamento desses pode vir a se tornar um dos piores adoecimentos do ser humano porque rouba a alegria, a esperança, o ânimo, os sonhos e a fé. Logo, trata-se de um dos piores tipos de desamor.

Ainda assim, é nos momentos mais críticos da existência humana que muitos fazem as pazes com a vida, curam-se de seus traumas e encontram a fé. Nestas horas, as pessoas ficam sem chão e são confrontadas consigo mesmas. Seus ídolos mudos se quebram e as ilusões caem por terra, pelo que elas se deparam com a mais dura realidade que jamais se deram conta e se torna mais fácil encontrarem-se com a Verdade.

Para melhor ilustrar as palavras de minha escrita, quero compartilhar aqui a história de Vitória Martins, uma menina de Santa Catarina que é portadora de uma grave doença incomum mas que, mesmo com tamanha dificuldade, ela tem recebido força para transmitir mensagens bem significativas para as pessoas, como se pode assistir neste vídeo que já teve mais de 154 mil acessos no Youtube:



Que possamos sempre agradecer a Deus! Reconhecer que temos uma casa para morar, lembrarmos do que a saúde nos permite fazer, contemplar o por do sol, admirar a natureza e dizer “muito obrigado”.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Não arranque o joio da plantação!


A parábola do Joio e do Trigo (Mateus 13.24-30), assim como a do Semeador (Mt 13.3-9; Mc 4.3-9; Lc 8.5-8) são as únicas em que a interpretação é dada através das palavras de Jesus constantes no texto bíblico. Porém, no que se refere à alegoria do joio, há um detalhe curioso que não é explicado no Evangelho.


“Jesus lhes contou outra parábola, dizendo: 'O Reino dos céus é como um homem que semeou boa semente em seu campo. Mas enquanto todos dormiam, veio o seu inimigo e semeou o joio no meio do trigo e se foi. Quando o trigo brotou e formou espigas, o joio também apareceu. Os servos do dono do campo dirigiram-se a ele e disseram: 'O senhor não semeou boa semente em seu campo? Então,d e onde veio o joio?' 'Um inimigo fez isso', respondeu ele. Os servos lhe perguntaram: 'O senhor quer que o tiremos?' Ele respondeu: 'Não, porque, ao tirar o joio, vocês poderiam arrancar com ele o trigo. Deixem que cresçam juntos até a colheita. Então direi aos encarregadores da colheira: Juntem primeiro o joio e amarrem-no em feixes para ser queimado; depois juntem o trigo e guardem-no no meu celeiro'”. (Mt 13.24-30; Nova Versão Internacional – NVI) – destaquei


Ao dar a interpretação da parábola aos seus discípulos (ler Mt 13.36-43), Jesus revela-lhes que: o “semeador” é ele mesmo (o “Filho do Homem”); o “campo” é o mundo; a “boa semente” (o trigo) corresponde ao “filhos do Reino” (os justos); o “joio” aos “filhos do Maligno” (os ímpios); o “inimigo” é o diabo; a “colheita” representa o fim do mundo; e os ceifadores os anjos. Então, a conclusão da história é explicada pelo castigo dos ímpios e salvação dos justos no julgamento final.

Acontece que nada é esclarecido diretamente no texto do Evangelho acerca da proibição dos servos do Semeador quanto à proposta de arrancarem o joio do campo cultivado. A tarefa da separação das duas espécies vegetais é deixada apenas para os ceifadores e no final da colheita.

Mas, afinal, por que o joio não pode ser arrancado antes da colheita? E qual seria o(s) motivo(s) de relevância espiritual da advertência dada por Jesus?

Posso dizer que este ponto de alta indagação nas Escrituras desperta em mim um certo grau de interesse para reflexões pessoais.

Como se sabe, o joio (cizânia) é uma erva daninha que, a princípio, parece muito com o trigo. As raízes de ambas as espécies chegam a se entrelaçar na terra e, apenas no momento da colheita, é que os ceifeiros terão condições de fazer a necessária distinção entre as duas para finalmente lançar o joio no fogo separando o trigo para o consumo.

Meditando sobre a parábola, tenho a impressão de que o plano astuto do inimigo em semear o joio no campo de trigo teve por objetivo justamente tentar os servos do semeador induzindo-os a danificar a lavoura. Pois estes, ao perceberem o joio misturado na plantação, propõem ao senhor arrancar a erva daninha antes do tempo da colheita, o que coloca em risco a sobrevivência dos pés de trigo comprometendo o sucesso do cultivo.

Ora, como saberemos qual é o joio e onde estará o trigo? Ou melhor, quem é “filho do Reino” ou “do Maligno” já que todos estamos vivendo um processo de formação e crescimento espiritual? Sem dúvida que julgamentos deste tipo não competem a nós, servos e plantação do Semeador, pois, do contrário, poderemos cometer as maiores injustiças contra os nossos irmãos.

Segundo Joe M. Kapolyo, teólogo batista zambiano e mestre em exegese do Novo Testamento pela Universidade de Aberdeen (Escócia), devemos ser bem cautelosos nas atitudes que tomamos na espera do cumprimento dos propósitos divinos, ensinando que:


“Sempre haverá joio na plantação. Além disso, às vezes é muito difícil distinguir entre os que fazem parte do reino e os que não fazem. Portanto, não devemos ser precipitados em julgar, pois podemos errar e danificar a boa semente. É preciso exercitar a paciência e a precaução até que Deus, o único juiz, finalmente decida encerrar a história e fazer a distinção final entre os que são dele e os que não são”. (Comentário Bíblico Africano – CBA, pág. 1165)


Recordo-me que o pastor da igreja onde congrego, o teólogo Robson Rodrigues, já pregou que a recomendação para que o joio não seja arrancado pelos servos do Semeador é para que se torne trigo. E, quanto a esta interessante visão da parábola, encontrei também um texto do monsenhor Jonas Abib, extraído do volume dois de seu livro “O Pão da Palavra”, cujo trecho pertinente à alegoria de Jesus foi publicado na internet sob o título “Só o Senhor pode transformar joio em trigo”:


O mais lindo é que aquele que é joio pode se tornar trigo. Bendito seja o Senhor! Enquanto este mundo for mundo, é possível esta transformação: o joio pode tornar-se trigo. Só o Senhor pode fazer com que isso aconteça. É por isso que Ele vai se delongando e deixando que o tempo passe, para que aquele que é joio se torne trigo. O Senhor quer converter a todos. Se em sua vida ainda há muito joio é tempo de se deixar transformar pelo Senhor. Você não pode ficar apontando o dedo para os outros e dizer: “Este é o joio; aquele é joio”. Não, pois ainda é tempo de serem convertidos.”
(http://www.cancaonova.com/portal/canais/pejonas/informativos.php?id=2134)


Está claro para mim que os servos do Semeador, justamente por não saberem distinguir com certeza entre o joio e o trigo, devem concentrar-se em ações construtivas que, no contexto da parábola, seria cuidar da lavoura, agindo sem preconceitos ou discriminação. E esta tarefa de certo modo assemelha-se com a Parábola da Rede onde o pescador não se ocupa em selecionar previamente no mar os bons dos ruins, mas sim em procurar peixes na água:


“O Reino dos céus é ainda como uma rede que é lançada ao mar e apanha toda sorte de peixes. Quando está cheia, os pescadores a puxam para a praia. Então se assentam e juntam os peixes bons em cestos, mas jogam fora os ruins. Assim acontecerá no fim desta era. Os anjos virão, separarão os perversos dos justos e lançarão aqueles na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes”. (Mt 13.47-50; NVI)


Assim, podemos dizer que Jesus nos chama para sermos “pescadores de homens” e cuidarmos com amor de seu campo cultivado, colaborando com o crescimento espiritual das pessoas afim de que elas se tornem a “boa semente” de trigo e fiquem prontas para o tão aguardado dia da colheita - a volta do nosso Senhor.

Oremos pela conversão dos nossos semelhantes, não nos esquecendo que também somos plantação de Cristo, o que envolve um permanente processo de transformação do joio em trigo existente na vida de cada um.

OBS: a foto foi extraída do site da Embrapa, em http://www.cnpso.embrapa.br/index.php?op_page=376&cod_pai=1

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O cuidado de Deus nas nossas pequenas coisas


Olá!

Gostaria inicialmente de expor aqui algo que compartilhei há pouco no blogue Vivendo em Cristo, ao comentar o artigo "A FÉ EXPLICA", dando um breve testemunho sobre como Deus cuida de nós até nas pequenas coisas.


"(...) Certa vez, perdi uma agenda quando voltava do Fórum (sou advogado) e nela tinha datas de várias audiências, compromissos, telefones de clientes, números de processos, etc. Fiquei em pânico quando soube daquela perda e então lembrei-me de orar. Instantes depois, estando mais calmo, consegui me recordar sobre onde poderia ter ocorrido a perda e aí lembrei que havia parado num telefone público para fazer uma ligação (há alguns anos atrás ainda se usavam os orelhões com maior frequência). Então, ainda naquele dia, fui caminhando até o local que fica em frente a um supermercado e aí tive a iniciativa de perguntar a um camelô que costuma vender suas mercadorias ali por perto. Pois bem. Aquele camelô era um irmão em Cristo de outra igreja e ele havia guardado aquela agenda para mim, mesmo sem saber quem seria o dono. Naquele dia, posso dizer que fiquei super feliz até porque eu vivia momentos de grande ansiedade e tensão quanto ao meu trabalho. Talvez para outra pessoa, aquele incidente nem representasse tanto porque muito não se importariam em comprar uma agenda nova e preenchê-la. Mas eu sou muito preso aos compromissos que assumo (acho que até demais) e me senti bastante aliviado pelo achado. Então, agradeci muito a Deus."
Postado originalmente em: http://davidguiomar.blogspot.com/2011/02/fe-explica.html


Na Bíblia, Jesus nos diz que não devemos andar preocupados pelo que haveremos de comer ou beber, e nem pelo que precisamos vestir. É justamente no Sermão da Montanha que o Senhor nos convida refletir com a seguinte indagação:

"Quem de vocês, por mais que se preocupe, pode acrescentar uma hora que seja à sua vida?" (Mateus 6.27; Nova Versão Internacional - NVI)

Dentro da mesma pregação, Jesus cita as aves do céu que não se preocupam em semear, colher ou armazenar alimentos nos celeiros, mas que recebem os cuidados necessários de Deus. E, quanto ao vestuário, Ele nos manda observar os lírios do campo e diz que nem o rei Salomão, com toda a sua majestade, teria se vestido como uma dessas plantas do mato.

"Se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada ao fogo, não vestirá muito mais a vocês, homens de pequena fé?" (Mt 6.30; NVI)

Meus leitores, tenho vivido dias bem difíceis nos últimos meses, os quais nem se comparam com as preocupações da época em que perdi a agenda nos primeiros anos em que comecei a advogar.

Venho acompanhando minha esposa numa batalha pela sua saúde. Dentre vários problemas, ela vem sofrendo de dores reumáticas nos joelhos e no abdômen (certamente relacionadas aos cálculos na vesícula). Sobre o problema nos joelhos, até que ela vem melhorando, mas, em 2010, Núbia ficou por um bom tempo incapacitada e com enormes dificuldades para andar. Seu peso estava muito acima da média e a má alimentação comprometia bastante a saúde. Acabei pagando um plano da Unimed só para ela porque depender do SUS estava inviável e dinheiro para custear exames e consultas particulares muito menos.

Felizmente, levei-a a uma boa reumatologista que chegou a um diagnóstico clínico de lúpus com base nos sintomas apresentados de modo que passou a tratá-la com o medicamente Reuquinol (cloroquina) mais anti-inflamatórios, juntamente com duas sessões semanais de fisioterapia e orientação nutricional de outra especialista. Então, minha esposa foi melhorando das dores nos joelhos, agora já está andando melhor e, após ter se firmado numa dieta, a partir do final do ano, perdeu bastante peso.

Entretanto, ultimamente, ela vem padecendo muito com as dores abdominais que, segundo os médicos, decorrem dos cálculos na vesícula, a qual precisa ser extraída, havendo indicação cirúrgica desde 2009. Mas aí tivemos que enfrentar um teste de fé quando assinamos o contrato com a Unimed. Pelas normas da Agência Nacional de Saúde (ANS), são apenas 06 meses de carência para cirurgias e 03 para planos de adesão coletiva. Porém, no caso de doenças pré-existentes, o beneficiário só tem direito a uma cobertura parcial temporária por dois anos e só depois é que poderá fazer sua operação.

Pois bem. Tivemos que ter fé para não omitir aquela informação da Unimed (um dos motivos que nos levou a procurar o plano). Só neste ano de 2011, foram três idas ao pronto-atendimento hospitalar, tendo sido duas no Hospital de Campanha do Corpo de Bombeiros, montado durante os dias subsequentes à tragédia das chuvas na Região Serrana, e uma no Hospital da Unimed de Nova Friburgo (HUNF), onde só havia um único plantonista na madrugada da sexta-feira da semana anterior (04/02).

Confesso que pensamos em operar pelo SUS em outros locais públicos fora de Nova Friburgo onde a extração da vesícula é feita com laparoscopia, visto que o nosso Hospital Municipal Raul Sertã ainda não dispõe desta tecnologia e há riscos de infecções, bem como danos em relação à estética causada pela enorme cicatriz deixada por uma retrógrada cirurgia aberta.

Ainda assim, tenho buscado motivos para agradecer ao Eterno pelo que Ele tem feito em minha vida e por minha esposa. Sei que somos agraciados, mas não estamos isentos de lutas ou provações. Com isto, busco manter minha confiança em Deus, mas, ao mesmo tempo, não quero deixar de procurar os meios cabíveis para solucionar estes problemas de saúde de Núbia (hoje mesmo fomos conversar com um médico cirurgião que já prescreveu alguns exames e logo depois consultamos um neurologista porque ela vem se queixando de tonteiras). E, nestes dias de grande aflição, o que desejo é viver cada momento na sua vez e não me esqueço desta passagem do Evangelho que diz:

"Busquem, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas lhes serão acrescentadas. Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã trará as suas próprias preocupações. Basta a cada dia o seu próprio mal". (Mt 6.33-34; NVI)

Termino esta mensagem pedindo aos amigos que orem por nós. Afinal, somos humanos, sujeitos a problemas, provações e tentações. Nenhum seguidor de Jesus está livre das aflições deste tempo e não acredito na falsa ideia de existam super crentes imunes a tropeços, falhas ou dificuldades.

I love QUEIJOS !!!!!!!!!


Numa das edições do Bom Dia Brasil desta semana, foi exibida uma interessante reportagem em que os ingleses estariam fabricando e consumindo seus queijos. A matéria mostrou um festival de degustações regado a vinho naquele país que , na nossa moeda, custaria algo em torno de uns R$ 140,00 (cento e quarenta reais).

Um pouco caro para os padrões brasileiros, não acha?

Não entendo muito sobre o detalhado mercado de queijos afim de fazer uma comparação exata de preços, mas eu arriscaria em dizer que, no Brasil, é possível usufruir de algo semelhante pagando-se bem menos do que no país da rainha Elizabeth!

Talvez não com os mesmos tipos de queijos que, de uma década para cá, passaram a ser produzidos na Inglaterra, numa flagrante usurpação das tradições francesas. Porém, se levarmos em conta os excelentes queijos hoje feitos no nosso país, parece-me bem possível qualquer restaurante oferecer ao consumidor uma tábua cheia de variedades mais duas taças de vinho chileno importado por menos até de R$ 40,00 (quarenta reais).

Beber vinhos e ingerir alimentos calóricos no verão talvez não combine muito com a época quente e com os nossos costumes. Numa cidade quente como o Rio de Janeiro, penso que não tem nada a ver comer uma tábua com todos aqueles queijos europeus em pleno mês de fevereiro, pois o que combina mais com a estação são as saladas, as quais podem ter no máximo uns pedacinhos de queijo frescal em substituição às carnes para quem prefere um cardápio próximo do vegetariano e necessita da proteína animal.

Modestamente falando, afirmo que Nova Friburgo tem muito a oferecer ao turista que adora queijo. Aqui há restaurantes em que é possível degustar deliciosos pratos e entradas pagando menos do que é cobrado no Rio de Janeiro. E o clima mais ameno no verão de certo modo ajuda no cardápio.

Para quem sobe a serra e vem conhecer a região de Nova Friburgo e Teresópolis, não pode deixar de visitar a nossa Queijaria Suíça que fica bem na rodovia RJ-130, praticamente no meio do caminho entre os dois municípios. Inaugurada em 1º de agosto de 1987, a FRIALP dispõe de um restaurante onde também é comercializado alguns queijos finos produzidos ali. E, no local, o visitante ainda pode visitar o museu do imigrante suíço onde é contada boa parte da história da povoação da cidade, encontrando-se documentos, vestimentas, fotografias, móveis e utensílios da época.

Particularmente eu gosto dos produtos da FRIALP, inclusive do queijo frescal que é um dos poucos que a minha esposa pode comer por causa de sua saúde e a severa dieta estabelecida pela nutricionista. E, quando comparo com outros produtos semelhantes que são vendidos nos mercados daqui, reconheço que a qualidade da Queijaria Suíça supera em muito os queijos de Macuco, Duas Barras e Godan, os quais são os que mais se encontram em Nova Friburgo.

Entretanto, não posso deixar de compartilhar aqui o quanto gosto de alguns queijos mais finos como os do tipo Brie, Gongorzola e Camembert, além daqueles de cabra temperado com ervas. Inclusive, aprendi um delicioso hábito com uma senhora idosa que encontrei no supermercado ABC na época em que cheguei à cidade. Na ocasião, ela me deu a dica de experimentar uva Itália com o queijo Brie e ficou uma delícia. Principalmente se a fruta estiver docinha.

Embora eu aprecie um bom vinho seco, não nego que comer uvas com queijos é ainda mais gostoso. Não sei se é pelo contraste entre o doce e o salgado, mas o certo é que até hoje a dica daquela velhinha ainda é um dos meus cardápios preferidos para degustar numa noite de sexta-feira no conforto do lar mesmo no nosso verão friburguense. Porém, se o queijo tipo Brie está caro, posso muito bem me contentar com um Minas curado de boa qualidade como se vê nas cidades da Serra da Mantiqueira e região.


OBS: A foto acima foi retirada do site da Queijaria Suíça e corresponde ao local do seu restaurante - http://www.frialpalimentos.com.br/queijaria-escola/restaurante

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Dias de muito calor e sol na serra


Depois daquela chuvarada trágica que caiu na Região Serrana do Rio de Janeiro, lá pelo dia 12/01 deste ano, tem feito bastante sol desde o final do mês passado até agora.

Nova Friburgo costuma ser mais charmosa no inverno. Porém, eu diria que o verão daqui tem seu enorme proveito. Pois a época proporciona uma temperatura mais agradável do que nas regiões de menor altitude e dá para curtir bastante quando não está chovendo.

Apesar de não termos praia, há muitos rios e cachoeiras por aqui, embelezados pelo verde intenso da Mata Atlântica cobrindo muitas áreas que, no passar das décadas, foram se regenerando, tendo restado fragmentos de florestas primárias na região de Macaé de Cima, uma área de proteção ambiental onde nasce o rio Macaé e também o São João.

Macaé de Cima tornou-se a segunda maior área de proteção ambiental do Rio de Janeiro com aproximadamente 35 mil hectares, sendo considerada um dos remanescentes da floresta de montana. Foi criada pelo Decreto Estadual n.º 29.213, de 14 de setembro de 2001, tendo como peculiaridade algumas espécies de bromélias endêmicas, isto é, que são nativas do local e não podem ser encontradas em outros ecossistemas.

Devido ao Macaé, a região de Lumiar (5º Distrito de Nova Friburgo) pode proporcionar muito lazer e diversão nesta época do ano. São vários recantos que se formam ao longo do rio principal e de seus afluentes como o rio Bonito e o rio Boa Esperança. Mais à jusante, já no território do município de Casimiro de Abreu, o Macaé recebe as águas do rio Sana, outro paraíso ecológico.

Graças às suas corredeiras, o Macaé é muito procurado para a prática do rafting, também chamado de canoagem. É um esporte radical em que jovens, vestindo um colete salva-vidas e um capacete, descem as águas do rio que, nos dias de verão, aumenta bem de volume d'água e tornam o passeio bem emocionante. Alguns dizem que, durante esta época, determinadas corredeiras do Macaé chegam ao nível 4 de dificuldade.


Logo que me mudei para Nova Friburgo (1999), tratei de conhecer a região de Lumiar, São Pedro da Serra e Boa Esperança, o que se tornou minha primeira viagem turística para dentro do município. Depois, retornei inúmeras vezes e fui explorando outras localidades próximas e vizinhas dali, percorrendo trilhas e estradas de terra que atravessam propriedades, subindo montanhas e me maravilhando com cada vista fantástica da natureza. Aliás, posso dizer que aquele foi um ano muito bom em minha vida e que me deixou saudades.

Felizmente a tragédia climática da segunda semana de janeiro não atingiu diretamente Lumiar e nem São Pedro da Serra. A região continua sendo um excelente atrativo turístico para quem deseja relaxar e desfrutar da natureza. Aliás, pode-se dizer que Lumiar continua tão convidativo como se diz naquela música cantada pelo Roupa Nova, exceto pelo verbo “caçar” que, felizmente, o IBAMA não deixa:


Anda, vem jantar, vem comer, vem beber, farrear
Até chegar lumiar
E depois deitar no sereno
Só pra poder dormir e sonhar
Pra passar a noite
Caçando sapo
Contando caso
De como deve ser lumiar
Acordar lumiar sem chorar, sem falar, sem querer
Acordar em lumiar
Levantar e fazer café
Só pra sair, caçar e pescar
E passar o dia
Moendo cana
Caçando lua
Clarear de vez lumiar
Amor lumiar pra viver, pra gostar, pra chover
Pra tratar de vadiar
Descansar os olhos, olhar e ver
E respirar
Só pra não ver o tempo passar
Pra passar o tempo
Até chover
Até lembrar
De como deve ser lumiar
Anda, vem jantar, vem dormir, vem sonhar pra viver
Até chegar lumiar
Estender o sol na varanda, até queimar
Só pra não ter mais nada a perder
Pra perder o medo
Mudar de céu
Mudar de ar
Clarear de vez lumiar

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Alicerces e Raízes


“Eu lhes mostrarei com quem se compara aquele que vem a mim, ouve as minhas palavras e as pratica. É como o homem que, ao construir uma casa, cavou fundo e colocou os alicerces na rocha. Quando veio a inundação, a torrente deu contra aquela casa, mas não a conseguiu abalar, porque estava bem construída. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as pratica, é como um homem que construiu uma casa sobre o chão, sem alicerces. No momento em que a torrente deu contra aquela casa, ela caiu, e a sua destruição foi completa”. (Evangelho de Lucas 6.47-49; Nova Versão Internacional – NVI)


Esta passagem do terceiro Evangelho, que também aparece como o ensinamento final do festejado Sermão da Montanha (Mt 7.24-27), trás em si um dos mais valiosos segredos do Reino de Deus.

Em ambas as ocasiões, o ouvinte praticante da Palavra é comparado ao homem que constrói sua casa sobre a rocha. Porém, o que talvez diferencie a versão de Lucas do texto de Mateus seja a ênfase sobre os alicerces da casa, enquanto que, no primeiro Evangelho, Jesus foca mais no tipo de solo onde é feita a edificação (rocha versus areia).

Tal ensino de Jesus tem uma profunda relação com as Escrituras hebraicas, isto é, com o Antigo Testamento da Bíblia cristã. Pois é uma parábola que se harmoniza com Mishlê (Provérbios) onde o autor fala das casas construídas pelo justo e pelo ímpio, o qual não consegue resistir a uma situação de adversidade:


“A casa do ímpio será destruída,
mas a tenda dos justos florescerá.”

(Pv 14.11; NVI)

“Passada a tempestade,
o ímpio já não existe,
mas o justo permanece firme para sempre.”

(Pv 10.25; NVI)


Acredito que algumas indagações didáticas podem ser propostas para tentarmos compreender melhor a célebre metáfora de Jesus:

1) Qual a profundidade e a medida de esforço empreendido por um empreiteiro para cavar numa rocha o lugar onde serão colocados os alicerces?

2) Como são os alicerces dessa casa construída sobre a rocha?

3) Por que o homem justo consegue sobreviver às tempestades da vida pela prática da Palavra?

Ao imaginar uma casa edificada na rocha, não posso esquecer-me de comentar sobre a Capadócia, uma região da Turquia em que antigas habitações subsistem por vários séculos. Ali, o turista pode visitar diversas moradias que foram feitas em local ainda mais difícil – dentro da rocha. Um verdadeiro patrimônio cultural da humanidade!

Devido à característica dura do terreno, não é possível cavar a rocha da mesma maneira que se faz com a terra ou a areia onde se usa a pá. É preciso perfurar o solo rochoso, gastar bastante tempo na colocação dos alicerces, enfrentar dias que poderão ser de frio ou calor, agir com persistência, não desanimar e retomar a construção várias vezes. Contudo, o resultado da obra é bem gratificante, pois, ao final, tem-se uma habitação resistente ao ambiente, segura e durável.

Meditando mais sobre o tipo de alicerce da casa e do justo que é um ouvinte praticante da Palavra, verifica-se que o virtuoso fundamento capaz de dar solidez à vida de um homem é de natureza experimental e não filosófica ou idealista. Isto porque não basta alguém conhecer as instrução divina apenas com a mente. É necessário que o ouvinte prove dela, vivenciando o ensino em seu cotidiano.

Neste sentido, torna-se oportuno citar este maravilhoso trecho do livro do profeta Jeremias, o qual, assim como a parábola da casa alicerçada sobre a rocha, encontra o seu paralelo bíblico no verso 3 do Salmo primeiro:


“Mas bendito é o homem cuja confiança está no SENHOR, cuja confiança nele está. Ele será como uma árvore plantada junto às águas e que estende as suas raízes para o ribeiro. Ele não temerá quando chegar o calor, porque suas folhas estão sempre verdes; não ficará ansiosa no ano da seca nem deixará de dar fruto”. (Jr 17.7-8; NVI)


Enquanto que na metáfora de Jeremias o verso precedente fala da confiança em Deus (v. 7), o Salmo primeiro faz sua comparação em três paralelismos ao homem que não anda em pecado (v. 1), mas que encontra prazer na instrução divina e nela medita (v. 2). Logo, estas seriam as “raízes” do justo, as quais correspondem ao perfeito entrelaçamento da fé com as obras que é muito bem expresso na epístola de Tiago onde a confiança não se separa da ação praticada pelo crente.

É através de uma verdadeira confiança no Eterno, capaz de manifestar-se em atitudes de obediência, que o homem aprende a construir bases sólidas e superar as adversidades que sucedem a todos, sem acepção de pessoas. Pois, quando passamos a cumprir os mandamentos, começamos a perceber que há significado na boa conduta incentivada pela Palavra, em que a experiência vai esculpindo em nossos corações uma firmeza interior decorrente da transformação sobrenatural do caráter. Aí o preceito, que antes parecia absurdo, ganha então sentido na mente do homem que obedece.

Do contrário, jamais conseguiremos compreender por que razão devemos perdoar uma pessoa que só nos faz mal? Qual o motivo de negarmos os instintos carnais e nos abstermos do adultério e de outras práticas sexuais que a Bíblia considera ilícitas? Onde está o fundamento de honrarmos os pais e amarmos os semelhantes como a nós mesmos? Que benefício pode haver em agirmos com honestidade nos negócios?

Estou certo de que nada disso conseguiremos compreender pela mera audição de uma mensagem pregada durante o culto na igreja ou através de uma leitura do texto bíblico. Pois, conforme disse Jesus, é preciso por em prática a sua instrução, o que, segundo o Salmo primeiro, deve acontecer o tempo todo pela meditação da Palavra. Então, quando estivermos radicados no ensino espiritual, teremos finalmente construído um castelo no nosso interior, capaz de suportar os mais terríveis cataclismos da vida, como é muito bem interpretado na literatura rabínica dos primeiros séculos da era comum e contemporânea ao surgimento do Novo testamento, onde se encontra a interessante resposta do rabi Eleazar ben Azariá, conforme citado por Geza Vermes num de seus livros:


“Aquele cujas obras são mais abundantes do que a sua sabedoria, a que se compara?”: “Uma árvore cujos galhos são poucos, mas cujas raízes são muitas, mesmo que todos os ventos do mundo venham e soprem contra ela, não pode ser arrancada do lugar” (mAb 3.18, comentando sobre Jr 17.8)


Que sejamos como a árvore bem plantada junto ao ribeiro de águas e firmes como a casa alicerçada sobre a rocha!

Tenha um excelente final de semana!